Aqui vai um fato chocante: apesar das reclamações intermináveis ​​dos conservadores sobre o suposto preconceito esquerdista dos tecnocratas do Vale do Silício, uma das maneiras mais fáceis de se tornar viral no Facebook é apostar na retórica de extrema direita, de acordo com um novo estudo do projeto Cybersecurity for Democracy, da Universidade de Nova York (NYU).

Em resultados divulgados na quarta-feira (3), os pesquisadores do projeto analisaram vários tipos de postagens promovidas como notícias antes das eleições de 2020 e descobriram que “o conteúdo de fontes classificadas como de extrema direita por serviços de classificação de notícias independentes recebeu consistentemente o maior engajamento por seguidor do que qualquer grupo partidário.”Fontes de extrema direita que regularmente promoviam boatos, mentiras e outras informações incorretas se saíram ainda melhor, superando outras fontes de extrema direita em 65%”.

Os pesquisadores se basearam em dados de 2.973 fontes de notícias e informações com mais de 100 seguidores no Facebook fornecidos pelo Newsguard e Media Bias/Fact Check, dois sites que avaliam a veracidade e tendências partidárias de vários veículos. (Há motivos para questionar as avaliações fornecidas por essas páginas, mas eles têm autoridade razoável ​​para categorizar um grande número de fontes por inclinação ideológica.) A equipe então baixou cerca de 8,6 milhões de postagens públicas dessas quase 3 mil fontes entre 10 de agosto de 2020 e 11 de janeiro de 2021, quase uma semana depois que uma multidão de manifestantes pró-Trump tentou invadir o Capitólio para anular os resultados das eleições de 2020.

Eles descobriram que as fontes categorizadas como extrema direita pelo Newsguard e Media Bias/Fact Check se saíram muito bem no Facebook, seguidas por aquelas classificadas como extrema esquerda, outras fontes moderadamente partidárias e, finalmente, aquelas que eram orientadas para o “centro”. Essas fontes de extrema direita tendiam a receber várias centenas de interações a mais (curtidas, comentários, compartilhamentos, etc.) por 1 mil seguidores do que outros veículos. As páginas da extrema direita apresentaram uma disparada no engajamento no início de janeiro, antes do tumulto no Capitólio.

Gráfico: New York University/Cybersecurity for Democracy/Medium (Outros)

Além disso, as fontes de extrema direita classificadas como disseminadoras frequentes de desinformação e teorias da conspiração se saíram melhor no engajamento (426 interações por 1 mil seguidores por semana, em média) do que qualquer outro tipo de fonte (incluindo páginas de extrema direita não classificadas como fontes de informações incorretas, que obteve 259 interações por 1 mil seguidores por semana, em média).

Essa ainda não é a pior parte. Além das fontes de extrema direita serem recompensadas com maior engajamento no Facebook quando espalhavam informações erradas ou teorias da conspiração, as descobertas do Cybersecurity for Democracy mostram que as fontes classificadas como “ligeiramente à direita”, “centro”, “ligeiramente à esquerda” ou “extrema esquerda” pareciam estar sujeitas a uma “penalidade de desinformação”. A referida penalidade parecia ser muito mais pesada para fontes classificadas como de centro ou centro-esquerda.

Gráfico: New York University/Cybersecurity for Democracy/Medium (Outros)

“O que descobrimos é que entre a extrema direita em particular, a desinformação gera mais engajamento do que a informação”, disse Laura Edelson, pesquisadora principal do estudo e doutoranda da NYU, à Wired. “Acho que isso é algo que muitas pessoas pensaram que poderia ser o caso, mas agora podemos realmente quantificar, podemos identificar especificamente que isso é realmente verdade no caso da extrema direita, mas não é verdade no centro ou esquerda.”

Edelson disse à CNN: “Minha conclusão é que, de uma forma ou de outra, as fontes de desinformação de extrema direita são capazes de se envolver no Facebook com seu público muito, muito mais do que qualquer outra categoria. Isso provavelmente é muito perigoso em um sistema que usa engajamento para determinar qual conteúdo promover.”

Edelson acrescentou que, como o Facebook é otimizado para maximizar o engajamento, pode ser mais provável que fontes de direita recomendem que mais usuários as sigam.

Os pesquisadores escreveram que seus dados se alinham com pesquisas anteriores do German Marshall Fund e da Harvard Misinformation Review de que conteúdo extremo e/ou enganoso tende a ter melhor desempenho nas redes sociais; o último estudo também descobriu que “a associação entre partidarismo e desinformação é mais forte entre os usuários conservadores”.

O estudo não investigou por que o Facebook parece favorecer as fontes de direita, e os pesquisadores observaram que os números de engajamento não refletem necessariamente a amplitude do compartilhamento e da visualização do conteúdo na rede social. Em uma declaração à Wired, um porta-voz do Facebook usou uma linha de defesa semelhante: “Este relatório analisa principalmente como as pessoas se engajam com o conteúdo, o que não deve ser confundido com quantas pessoas realmente o veem no Facebook. Quando você olha para o conteúdo que obtém mais alcance no Facebook, não é tão partidário como este estudo sugere.”

O Facebook já apresentou defesas semelhantes antes — que os dados de engajamento não refletem a frequência com que o conteúdo de um determinado meio de comunicação é compartilhado em todo o site ou quantos usuários realmente o encontram ou clicam nele. Como o Recode argumentou, incluir outras fontes de dados, como engajamento em links compartilhados de forma privada no Facebook, indica que os melhores desempenhos do site incluem mais fontes tradicionais como CNN, BBC e jornais como o New York Times, mas não muda o resultado geral de que “certos tipos de conteúdo conservador – principalmente postagens motivadas pela emoção e profundamente partidárias” têm uma vantagem inerente na plataforma.

O Facebook também tentou explicar o problema sugerindo que as pessoas de direita inerentemente se engajam mais, com se seus algoritmos não tivessem nada a ver isso.

Um executivo anônimo da empresa disse ao Politico em setembro de 2020 que “o populismo de direita é sempre mais engajador” porque se aproveita de “emoções incrivelmente fortes e primitivas” em tópicos como “nação, proteção, o outro, raiva, medo”. O executivo argumentou que esse fenômeno “não foi inventado 15 anos atrás quando Mark Zuckerberg começou o Facebook” e também já existia “lá nos anos 30” (não é algo tranquilizador) e “por que os tabloides fazem mais sucesso do que o [Financial Times].”

Relatórios e pesquisas anteriores têm mostrado repetidamente que embora o Facebook seja ótimo em bolhas partidárias, extremistas de direita são, de longe, os mais beneficiados, em alguns casos por design. Por exemplo, o Facebook supostamente conduziu uma pesquisa interna mostrando que os gruupos do Facebook estavam se tornando veículos para retórica extrema e violenta, e foi informado a partir de relatos de usuários que um recurso chamado In Feed Recommendations, que não deveria promover conteúdo político, estava impulsionando figuras de direita como Ben Shapiro. Nestes e em outros casos, um ex-cientista de dados da empresa disse recentemente ao BuzzFeed que a equipe de política do Facebook supostamente interveio, citando a possibilidade de reação dos conservadores se mudanças fossem feitas.

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O Facebook, é claro, não é de forma alguma a única maneira de as ideias da extrema direita entrarem no mainstream — nem a extrema direita é algo novo na política dos Estados Unidos — mas é um conjunto de ferramentas extremamente importante em uma era em que os conservadores do movimento estão com forte presença online e constantemente em busca da próxima indignação viral.

Enquanto a mídia conservadora tradicional, como a Fox News e seus enteados mutantes como Newsmax e One America News Network, são poderosos por seus próprios méritos, o Facebook oferece uma maneira fácil para políticos republicanos, propagandistas de direita, trolls, conspiradores QAnon e semelhantes reforçarem pontos de vista radicais por meio de memes, discursos e outros conteúdos compartilháveis ​​para uma multidão.

“Estamos ansiosos para aprender mais sobre o ecossistema de notícias no Facebook para que possamos começar a entender melhor os porquês, em vez de apenas o quê”, escreveu a equipe do Cybersecurity for Democracy no relatório.