O coronavírus que surgiu na China ainda é pouco conhecido pelos especialistas, mas alguns cientistas acreditam ter descoberto sua origem. Uma nova pesquisa sugere que o vírus é nativo das cobras.

O vírus em questão, apelidado como 2019-nCoV, é um tipo de coronavírus. A maioria dos coronavírus que adoecem as pessoas causam pouco mais do que uma constipação comum, mas são potencialmente muito perigosos. Estes vírus também infectam uma grande variedade de animais, e se um coronavírus de origem animal conseguir infectar pessoas, o nosso sistema imunológico pode ser menos capaz de lidar com eles de forma eficaz.



O novo estudo, publicado nesta quarta-feira (22) no Journal of Medical Virology, analisa o código genético do 2019-nCoV, que foi identificado por cientistas que trabalham para o governo chinês e compartilhado com a comunidade global de pesquisa no início deste mês.

Os pesquisadores, todos da China, compararam a sequência genética do 2019-nCoV com outras espécies conhecidas de coronavírus. Sua análise inicial descobriu que o vírus é uma mistura entre um coronavírus originário de morcegos e outro coronavírus cuja origem do hospedeiro é desconhecida – um processo chamado de recombinação.

Essa recombinação está mais aparente na parte do RNA do vírus que lhe permite reconhecer os receptores de superfície de uma célula. Os pesquisadores concluíram que o hospedeiro natural mais provável do vírus é uma cobra, baseado em padrões de RNA que o vírus compartilha com outros coronavírus transmitidos por cobras. As cobras, por sua vez, são comumente criadas e vendidas na China como alimentos e remédios de medicina alternativa.

Os vírus evoluem para reconhecer e sequestrar as células específicas do seu hospedeiro para se reproduzirem. É por isso que um vírus canino normalmente não afeta os humanos e vice-versa. Mas às vezes, a maquinaria genética existente de um vírus pode ajudá-lo a infectar outros animais. Em alguns casos, mutações ou recombinações podem dar a uma estirpe de vírus uma nova capacidade de atravessar a barreira da espécie.

O embaralhamento genético visto no 2019-nCoV, segundo os pesquisadores, “pode contribuir para a transmissão entre espécies de serpentes para humanos”.

Essa falta de familiaridade do nosso organismo pode torná-los especialmente virulentos, embora não necessariamente contagiosos. Esse é um padrão que já aconteceu com os coronavírus relacionados, que causam as doenças SARS (síndrome respiratória aguda grave) e MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio), que mataram entre 10 a 30% das suas vítimas humanas durante os seus surtos iniciais.

Quando os primeiros casos do 2019 n-CoV começaram a aparecer em dezembro de 2019 na região de Wuhan, na China, os médicos suspeitaram imediatamente que a doença tinha se espalhado por meio de animais. Muitas das primeiras vítimas tinham visitado um mercado de alimentos local – que foi fechado – que tinha todo o tipo de animais vivos.

Desde então, o número de novas vítimas documentadas explodiu, com mais de 400 casos no total relatados até 21 de janeiro, segundo o governo chinês, além de pelo menos 17 pessoas mortas. O que tem sido preocupante é que 2019-nCoV está infectando pessoas que nunca haviam visitado o mercado, confirmando que ele tem capacidade de ser transmitido diretamente entre os humanos, como uma gripe comum.

De acordo com Brandon Brown, pesquisador de saúde pública e epidemiologista da Universidade da Califórnia Riverside, ainda há muitas questões não resolvidas sobre 2019-nCoV e seu potencial para desastres.

Tanto o SARS quanto o MERS, por exemplo, causaram muitos estragos quando surgiram, mas nenhum deles se transformou numa estirpe virulenta e incrivelmente contagiosa – um cenário que poderia muito bem ter-se transformado numa pandemia global.

Inicialmente, o 2019-nCoV parecia ser muito mais suave do que o SARS ou o MERS, mas o número de mortes relatadas aumentou rapidamente nos últimos dias. E embora saibamos que p 2019-nCoV pode espalhar-se entre as pessoas, não sabemos o quão contagioso é, nem o seu potencial de mutação maior.

Apesar disso, Brown disse ao Gizmodo via e-mail que não vê razão para que deixemos os cuidados com o 2019-nCoV para depois.

“A alternativa é lidar com uma potencial epidemia global, que pode ser evitada ao declarar emergência de saúde pública e se preparar com financiamento e atenção extra”, disse ele. “É hora de trabalharmos mais e nos esforçarmos com a prevenção, em vez de responder a uma crise após a sua ocorrência”.

Casos do 2019-nCoV já chegaram aos EUA e a outros países, embora todos pareçam ter tido origem em viagens para a região de Wuhan, na China. No Brasil, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais divulgou ontem que uma paciente tinha suspeita de ter contraído o coronavírus, mas o Ministério da Saúde negou a possibilidade, já que a paciente esteve em Xangai e não em Wuhan.

O rápido desenvolvimento do surto chegou a um ponto de crise na China. Nesta quarta-feira, o governo chinês ordenou o encerramento total dos transportes públicos em Wuhan, bem como o cancelamento dos voos e comboios que partem da cidade de 11 milhões de pessoas.

Também na quarta-feira, a Organização Mundial da Saúde convocou uma reunião de emergência em Genebra, na Suíça, e deliberou sobre se o surto deveria ser declarado uma emergência de saúde pública internacional. Em entrevista coletiva, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que a organização não tomou uma decisão final sobre a declaração e voltará a se reunir nesta quinta-feira.