O oceano pode ter menos tempo do que pensávamos antes que mudanças massivas e irreversíveis ocorram. Um novo estudo descobriu que um crucial sistema oceânico pode atingir seu “ponto de inflexão” mais cedo do que o previsto se a velocidade de mudança climática continuar em um ritmo vertiginoso.

Quando falamos sobre modificações climáticas, é como se o conceito de pontos de inflexão adicionasse mais lenha a uma fogueira que sempre esteve acesa. Por isso, os cientistas concordam que tais alterações geram um efeito cascata que pode fazer com que ecossistemas importantíssimos em nosso planeta mudem tanto que cheguem a um ponto crítico em que a recuperação pode ser impossível.

Por isso, uma das preocupações mais urgentes está embaixo d’água, mais especificamente, na Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês), que ajuda a encaminhar águas mais quentes para o Atlântico Norte. Dentre outras coisas, também garante que a Europa tenha invernos relativamente mais amenos, dada sua alta latitude. Desestruturar tudo isso pode ser uma das maneiras mais rápidas de deixar o clima maluco, não somente na região, como também em todo o mundo.

No estudo publicado nesta segunda-feira (22) no Proceedings of the Natural Academy of Sciences, os cientistas consideraram não apenas a quantidade de mudança nos oceanos que poderia preceder um ponto de inflexão, mas também a velocidade desta alteração. Pense nisso como a diferença entre despejar um copo de água muito quente em um balde de água fria de forma rápida e de forma lenta. Embora a mesma quantidade de água seja adicionada nas duas ocasiões, a taxa de adição é bem diferente.

Deste modo, para medir o impacto que o percentual de mudança pode ter no AMOC, foram realizados vários experimentos em um modelo global do oceano. A sua corrente tem estado sob intenso escrutínio nos últimos anos, uma vez que a água fria e doce do derretimento das geleiras da Groenlândia tem feito com que a estrutura dinâmica da corrente diminua, embora nunca pare.

“A AMOC corre o risco de entrar em colapso quando for atingido um certo nível de fluxo de água doce para o Atlântico Norte devido ao aumento do degelo na Groenlândia”, disse Johannes Lohmann, um dos autores do estudo, por e-mail ao Gizmodo. “Esses pontos de inflexão foram mostrados anteriormente em modelos climáticos, onde a água de degelo é introduzida muito lentamente no oceano. Na realidade, o aumento do degelo da Groenlândia está se acelerando e não pode ser considerado lento.”

O estudo também modelou o aumento do fluxo de água doce. Lohmann disse que, usando “um grande conjunto de simulações, variamos sistematicamente a taxa de mudança e as condições iniciais do oceano e investigamos como o colapso da AMOC dependia desses fatores”.

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Os modelos acabaram mostrando que, em alguns casos, com uma taxa de mudança mais rápida, a AMOC realmente entrou em colapso antes que as previsões anteriores fossem confirmadas. Se seguirmos a analogia do copo de água, estudos anteriores indicavam que um copo cheio de água quente precisava ser adicionado ao balde para o colapso, mas as novas descobertas mostram que o despejo de forma mais rápida significa que você precisa de apenas metade de um copo para acionar o colapso. O estudo mostra ainda que “os níveis seguros de aquecimento global antes que tal colapso ocorra podem ser menores do que se pensava anteriormente e também podem ser difíceis de prever”, disse Lohmann.

Este estudo não é a palavra final sobre quão rápido a AMOC pode mudar. Algumas das modelagens que Lohmann e seus coautores usam podem merecer um olhar mais atento e crítico, de acordo com Dave Sutherland, professor associado do departamento de Ciências da Terra da Universidade de Oregon, que não esteve envolvido no estudo. Sutherland aponta que o estudo não leva em conta algumas das especificidades da localização da água doce na Groenlândia, mesmo que as descobertas sejam “importantes e oportunas” para ajudar a determinar o destino da AMOC.

“O ponto principal é que acho que este estudo é importante e aponta a dinâmica complexa inerente ao nosso sistema climático”, disse Sutherland. “Estou preocupado com os detalhes, embora tenha certeza de que alguns revisores também estavam. Acho que pode haver outros feedbacks climáticos ou processos não resolvidos que podem alterar seus resultados, se não suas conclusões finais.”

Lohmann disse que as descobertas do estudo precisam ser testadas mais profundamente, mas apontou que a possibilidade de um colapso rápido da AMOC deve soar um alarme.

“Devido ao risco potencialmente maior de mudanças climáticas abruptas em partes do sistema terrestre que mostramos em nossa pesquisa, é importante que os legisladores continuem pressionando por metas climáticas ambiciosas de curto e médio prazo para desacelerar o ritmo das mudanças climáticas, especialmente em lugares vulneráveis como o Ártico”, complementa Lohmann.