O ghosting ocorre quando um relacionamento é encerrado unilateralmente, sem nenhuma explicação — e parece que foi exatamente isso que a corretora de criptomoeda Firebit fez com seus clientes.

No Twitter e no Facebook, as últimas postagens da companhia foram feitas em março de 2018. Até aí, ok, pois eles só publicavam conteúdos referentes às criptomoedas. O problema é que na mesma época começaram a aumentar reclamações de clientes que tinham investido em bitcoin usando a plataforma e não recebiam mais respostas a solicitações.

Um deles é Werner Schwartz, que se tornou cliente da Firebit em agosto de 2017. “Investi cerca de R$ 4.000. Aí, em dezembro de 2017, com a alta valorização, retirei uma quantia pequena e mantive o resto. Em meados de junho de 2018, o site simplesmente parou de ser atualizado”, afirmou Schwartz em conversa com o Gizmodo Brasil. A página da Firebit passou a exibir apenas que a cotação de compra de 1 BTC era de R$ 25.000, e o valor de venda em R$ 5,90. “Já mandei dezenas de mensagens, inclusive na página deles no Facebook, mas não obtive resposta.”

Captura de tela da corretora de criptomoeda FirebitAtualmente, o preço de de 1 BTC é de R$ 53,2 mil (cerca de US$ 13,8 mil)

Outro cliente que não consegue mais entrar em contato com a Firebit é o advogado João Rodolpho. Vendo todo o hype em cima das criptomoedas, ele aderiu à plataforma no fim de agosto de 2017. Ele investiu R$ 2.000 e, no segundo semestre de 2018, quis sacar R$ 3.700. Aí que a coisa ficou esquisita.

“Fiz três pedidos de saque. Em dois deles, me informaram que foram processados, enquanto um terceiro ficou pendente. Mesmo assim, não recebi o dinheiro que solicitei”, afirmou João. “Não existe tentativa de contato [por parte deles]. Já tentei pelo canal de atendimento também e ninguém respondeu”, disse.

No site ReclameAqui é possível ver ainda o relato de outros clientes da corretora de bitcoin. E a maioria deles segue um mesmo padrão: investidores querem tirar dinheiro, mas a companhia simplesmente não responde.

Em uma reclamação, uma pessoa diz que solicitou um saque em 23 de maio de 2018 e que, mesmo após um mês, não tinha recebido o dinheiro. O cliente chega até a dizer que “o site informa que o tempo para realizar o serviço pode variar de 1 a 24 horas”.

Na página do Facebook da Firebit, havia um número para contato do Mato Grosso, mas que só chama. Aliás, após um tempo, a página simplesmente sumiu da rede social.

O fato é que as pessoas da Firebit parecem ter sumido. Não é possível confirmar ou ter uma estimativa do número de clientes (a Firebit não respondeu às nossas solicitações, feitas tanto por e-mail como tentativas de contato por telefone), mas o fato é que parece que a empresa não é muito grande. Uma olhadela na página do Facebook, quando estava ativa, informa que eles tinham quase 400 seguidores — quase nada comparada à Mercado Bitcoin, que tem mais de 180 mil.

E aí? O que devo fazer?

O problema de lidar com essas exchanges de criptomoeda é que elas não são reguladas pelo Banco Central. No entanto, a partir do momento em que existe algum tipo de prestação de serviço aos consumidores, elas devem assisti-los no que for necessário, segundo informa o Procon-SP.

“Quem opera neste tipo de atividade não deixa de ser um prestador de serviço. Então, a pessoa que eventualmente for lesada deve procurar a companhia. Caso ela não responda, o melhor a ser feito é ir direto ao poder judiciário”, disse Renata Reis, coordenadora de atendimento do Procon-SP, em conversa com o Gizmodo Brasil. A pessoa lesada deve guardar o máximo possível de documentos e troca de mensagens com a empresa para provar a negligência da prestadora de serviços.

Por não ter ainda uma regulação, Renata, do Procon-SP aconselha que quem quiser entrar no mundo das criptomoedas pesquise antes. “É muito importante que as pessoas saibam dos riscos, se existem reclamações na internet, qual é o regulamento, onde é a sede da empresa. Tudo isso para que o consumidor minimize riscos.”

Reclamações em alta

De modo geral, a onda das criptomoedas aumentou bastante o número de reclamações sobre empresas que trabalham com esse tipos de ativos. A pedido do Gizmodo Brasil, o ReclameAqui fez um levantamento, e o pico rolou justamente no ano passado. Em 2016, foram registradas apenas 149 reclamações. No ano seguinte, 1.622. Em 2018, até o mês de agosto, já haviam sido registradas 2.055 reclamações.

É importante ressaltar que, com a maior divulgação das criptomoedas, foi aumentando a quantidade de empresas que atuam no ramo. Além disso, pelo menos no ReclameAqui, há várias companhias sérias e que respondem rapidamente às contestações de clientes postadas no site.

A possibilidade de um possível calote da Firebit em seus clientes é um pouco frustrante. Não sabemos, por exemplo, o número de pessoas lesadas nem o quanto está retido com a corretora. O movimento das criptomoedas é recente e ter um caso desses pode ser comprometer a credibilidade do mercado. Que os clientes em meio a essa confusão pelo menos consigam recuperar o investimento feito na plataforma.

Nota editorial:

Durante o segundo semestre de 2017, a Firebit publicou publieditoriais em diversos veículos brasileiros de tecnologia, inclusive no Gizmodo Brasil. No nosso caso, o material foi criado por um núcleo independente da F451 Mídia (empresa que edita o Gizmodo Brasil), que é responsável pela produção de conteúdo customizado.

O Gizmodo Brasil tem independência editorial, inclusive, para abordar assuntos contrários a anunciantes — a exemplo dessa matéria.