Embora o novo coronavírus gere mais dúvidas do que certezas, pouco a pouco vamos conhecendo os verdadeiros efeitos colaterais causados pela COVID-19. E uma pesquisa divulgada nesta terça-feira (8) procura identificar os muitos problemas de saúde que podem surgir em decorrência de complicações causadas pelo vírus. A lista inclui doenças mais comuns, como pneumonia, insuficiência renal e inflamação generalizada, bem como reações mais raras, como inflamação cardíaca grave, colapso pulmonar e coagulação sanguínea grave.

Publicado no Canadian Medical Association Journal, o novo estudo é resultado da colaboração entre pesquisadores do Canadá e dos Estados Unidos. Eles analisaram dados de mais de 70 mil pessoas nos EUA que foram diagnosticadas com COVID-19 entre 1º de março e 30 de abril de 2020. Isso permitiu aos pesquisadores comparar a saúde dos pacientes antes e depois de contraírem o vírus.

Com base nas análises dos dados, foram identificadas 69 condições ou sintomas diagnosticáveis ​​que pareciam estar fortemente relacionadas ao COVID-19. Muitas delas já eram esperadas, com pneumonia (inflamação pulmonar) e insuficiência respiratória no topo do ranking — afinal, o vírus afeta principalmente nosso sistema respiratório.

Só que os problemas não se limitaram por aí e, como outras pesquisas já sugeriam, a COVID-19 pode causar disfunções corporais, em especial nos pacientes que desenvolvem a forma grave da doença. Entre os desdobramentos estão insuficiência renal e sepse (inflamação generalizada com risco de vida).

Os cientistas também tentaram calcular o risco absoluto de adoecer com qualquer uma das patologias citadas acima após apresentar sintomas de COVID-19. Para as complicações mais comuns, eles estimaram que o risco de desenvolver pneumonia foi de 27,6%, 22,6% para insuficiência respiratória, 11,8% para insuficiência renal e 10,4% para sepse.

Outros tipos de complicações foram raras, mas a COVID-19 pareceu aumentar de forma significativa o risco de contrair outras doenças. Entre elas estão miocardite (inflamação do músculo cardíaco), colapso do pulmão e uma condição séria chamada coagulação intravascular disseminada, caracterizada por coagulação sanguínea generalizada e hiperativa.

As descobertas têm suas limitações. Por um lado, embora este grande conjunto de dados inclua pessoas que não estavam doentes o suficiente para precisar de hospitalização, ele  contabiliza apenas os pacientes que procuraram atendimento médico e foram diagnosticados com coronavírus nos primeiros dias da pandemia. Naquela época, os testes eram muito mais limitados, e muitas pessoas infectadas nunca passaram por um consultório médico.

Os autores também escolheram estudar apenas pacientes que apresentaram queixa médica antes do diagnóstico de COVID-19 – cerca de 120 a 30 dias antes da confirmação. O objetivo era criar uma comparação mais clara de como estava e como ficou a saúde das pessoas pré e pós-COVID. A conclusão dos pesquisadores é que, muito provavelmente, essas pessoas estavam mais doentes do que o público em geral, mesmo antes de contrair o vírus. E algumas complicações mais leves, como perda de olfato ou paladar, podem não ter sido diagnosticadas oficialmente com a frequência com que realmente estavam acontecendo.

Por outro lado, muitas pesquisas que tentam descobrir as diferentes maneiras de como a COVID-19 pode nos adoecer têm sido feitas por meio de estudos menores ou relatos de casos individuais, que realmente não dizem nada sobre o quão comuns essas complicações podem ser. Portanto, estudos como este podem nos dar um esboço do dano real que o novo coronavírus pode nos causar.

“Compreender a gama completa de condições associadas [ao coronavírus] pode ajudar no prognóstico, orientar decisões de tratamento e informar melhor os pacientes sobre seus riscos reais para a variedade de complicações por COVID-19 relatadas na mídia”, escreveram os autores.