Todos os desastres do mercado financeiro têm um culpado em comum: nosso cérebro. Dois milhões de anos de evolução o deixaram burro demais para lidar com dinheiro. A bolha da internet está de prova.



Como qualquer outra bolha, a da internet não bolhou porque o mundo é cheio de imbecis, mas porque estava deixando muita gente muito rica.

Quem colocou US$ 100,00 em ações do Yahoo! em novembro de 1996 teve como vender essa participação na empresa exatamente três anos depois por US$ 135.200,00. Quem pegou US$ 1.000,00 do salário de chapeiro do McDonald’s e fez uma fezinha no site se viu milionário no fim de 1999. Quem já estava bem de vida e colocou US$ 1 milhão para ver no que dava… É. Deu isso. Show do bilhão.

O valor das ações das empresas americanas de tecnologia listadas na Nasdaq era de US$ 1 trilhão em 1996. Quatro anos depois, US$ 5 trilhões.

Os casos mais famosos dessa bolha são os das empresas pequenas que viraram bilionárias. Caso do Geocities, um site precursor dos blogs e das redes sociais. Ele servia para você montar uma “página pessoal”, que ficava hospedada nos servidores da companhia. Ela começou do zero em 1994 e, cinco anos depois, acabou comprada pelo nosso amigo Yahoo! por US$ 3,5 bilhões. Só faltava encontrar um jeito de fazer o Geocities dar dinheiro. E isso nunca aconteceu.

Mas o boom não afetou só empresas pequenas e hipervalorizadas. As que já eram grandes chegaram à obesidade mórbida. A Microsoft chegou a valer US$ 600 bilhões no ano 2000. Corrigindo pela inflação do dólar na última década, isso daria US$ 800 bilhões de hoje – quase o dobro do valor da Exxon e quatro vezes o da Petrobras. Seu P/L era de 60, três vezes o da Apple hoje. Ou seja: a esperança dos investidores era que a Microsoft virasse uma empresa muito, muito maior do que já era.

O caso mais absurdo, porém, foi em janeiro de 2000, quando a America Online, um provedor de internet, comprou a Time Warner, o maior grupo de comunicações do mundo, dono da CNN, da HBO, da revista Time, da DC Comics e dos estúdios de cinema Warner Bros. A Time Warner estava mal das pernas na época, cheia de dívidas e com lucros mirrados. Mas seu faturamento, o dinheiro grosso que entrava no caixa, continuava sendo de gente grande: US$ 27 bilhões anuais. O da AOL era bom para o de uma companhia de tecnologia da época, mas sumia perto do da Time Warner, US$ 4,8 bilhões (lucro também quase não rolava – tudo era reinvestido na empresa). Só que a AOL tinha um “.com” no fim do nome, então o valor de mercado dela era maior. O preço de todas as ações da empresa juntas era de US$ 169 bilhões contra US$ 121 bilhões da Time Warner. Os papéis supervalorizados da AOL foram a moeda de compra. Dali surgiu uma empresa nova, da qual a America Online passava a ser dona de 55%: a AOL Time Warner, com valor de US$ 300 bilhões.

A reação ao negócio polarizou as opiniões. De um lado, parte da imprensa festejava a fusão como revolucionária, dizendo que ela abriria de vez as portas para um futuro dominado pela internet. Do outro, estavam os chatos – que estavam certos.

O Financial Times foi um dos poucos que se mantiveram céticos. E acabou sendo profético. No dia seguinte à fusão, saiu no jornal britânico: “Isso levanta uma das maiores questões dos últimos tempos. O dinheiro da internet é o mesmo dinheiro da vida real? A resposta parece ser negativa. Cada dólar proveniente da AOL tem valor diferente da moeda vinda da Time Warner. O da AOL, resultado do seu valor de mercado, vale menos de 75% do dólar da Time Warner”.

Não era um cálculo científico, só um chute. A ideia ali era mostrar que uma coisa era o patrimônio da Time Warner, com seus estúdios, gráficas e um faturamento bem nutrido, outra era o valor das ações da AOL, que podia despencar do dia para a noite.

E foi o que aconteceu. As empresas de tecnologia dos EUA chegaram ao seu valor máximo de US$ 5 trilhões em março de 2000. Mas daí para a frente a quantidade de vendedores de ações superou a de compradores. E a queda nos preços começou. No fim do ano, as companhias da Nasdaq juntas valiam só US$ 3 trilhões. Tinham perdido quase metade do valor de mercado. O preço da ação da AOL Time Warner caiu quase pela metade, de US$ 133,00 para US$ 68,00, enxugando quase US$ 150 bilhões do valor da empresa. O tal do “dólar da AOL” se mostrou bem mais podre do que o Financial Times tinha previsto. Não teve um grande fato que engatilhasse a queda abrupta das ações, como uma megafalência ou algo assim. Não. Na verdade a noção de que os papéis estavam caros demais já tinha se disseminado. Mesmo no Brasil, que só viveu uma sombra dessa bolha, não faltavam críticos. Na Folha de S.Paulo, em janeiro de 2000, um analista de mercado questionava a alta das ações da Globo Cabo (a operadora de TV paga que mudaria de nome para Net em 2002). “Como uma empresa que ainda é só uma promessa pode valer mais que uma Sadia, que tem fábrica, patrimônio?”

Essa noção de que, para valer dinheiro, uma empresa tinha de ter “fábrica, patrimônio” foi esmagando a moda das ações de tecnologia. Em 2002 o valor das companhias listadas na Nasdaq voltou ao nível de 1996, de US$ 1 trilhãozinho. US$ 4 trilhões tinham ido para a casa do chapéu – e para as casas de três andares, iates e aviões particulares de quem vendeu as ações antes de a bolha estourar. A AOL Time Warner? Os veteranos da Time Warner reassumiram o comando em 2002 e mandaram tirar o “AOL” do nome.

Foi como se o mercado tivesse acordado de um porre. Tecnologia virou sinônimo de lixo. E a queda nas ações dessas empresas acabou sendo tão exagerada quanto a subida tinha sido. Sabe acordar de ressaca e jurar que nunca mais vai beber tanto? Então.

Ressaca

Com todo o mundo correndo das empresas de tecnologia, mesmo empresas sólidas se complicaram. A Amazon, por exemplo, já era uma grande vendedora de livros na época da bolha. Mas suas ações caíram de US$ 85,00, em 1999, para US$ 6,00, em 2001. Uma amostra de que foi excesso de pânico é que, em 2003, a Amazon tinha recuperado metade do valor de pico. Dez anos depois, os papéis estavam em US$ 180,00. Também é fato que patrimônio puro e simples (fábricas, escritórios, funcionários) nem sempre enchem barriga. A realidade respondeu àquela pergunta do analista na Folha de forma irônica: a Net virou uma empresa com patrimônio avaliado em R$ 3,6 bilhões e valor de mercado de R$ 5 bilhões, enquanto a Sadia perdeu quase R$ 1 bilhão numa trapalhada com derivativos de moeda estrangeira em 2008, deu um tombo nos acionistas e acabou engolida pela maior concorrente, a Perdigão.

Depois da bolha, as empresas de tecnologia jamais recuperaram o terreno perdido – a Apple é a única exceção. Outros fatores ajudaram: o crescimento da China, por exemplo, disparou a demanda por petróleo e minérios. E as empresas dessas áreas se tornaram mais gigantes do que já eram.

Mas nem as petroleiras, nem as mineradoras, nem o Banco da China chegariam perto do valor de mercado que Microsoft, Cisco Systems, General Electric ou Intel tiveram. Ainda que um dia cheguem a valores nominais, dificilmente alcançarão o preço real que elas tiveram, o preço corrigido pela inflação. Essas três, as maiores empresas de tecnologia da época, valeriam quase US$ 2 trilhões em dinheiro de 2011 contra US$ 1 trilhão das três grandes petroleiras de capital aberto. Hoje, Microsoft, GE e Cisco valem quase metade disso: US$ 630 bilhões.

Onze anos depois da quebradeira na Nasdaq, Bill Gates continuava no pódio dos homens mais ricos do mundo, com um patrimônio pessoal de US$ 50 bilhões – segundo colocado, entre o magnata mexicano das telecomunicações, Carlos Slim (US$ 74 bilhões) e o investidor Warren Buffet (US$ 50 bilhões). Mas sua empresa valia bem menos, US$ 215 bilhões. E tinha um P/L bem mais pé no chão: 10, metade do da Apple. Ainda assim, continua firme no top 10 de empresas com maior valor de mercado e dá um lucro anual de petroleira, na faixa dos US$ 20 bilhões.

Até o Yahoo!, a mais completa tradução da insanidade da bolha, e que justamente por isso poderia ter quebrado, vai relativamente bem, com valor de mercado de US$ 21 bilhões e P/L bem mais pé no chão: 18. Ok que o Yahoo! perdeu todo o espaço que tinha para o Google, que praticamente monopolizou a receita de publicidade da internet nos anos 2000 e, na prática, virou a maior vendedora de anúncios do mundo. Só que os números do Google também parecem dentro da realidade: valor de mercado de US$ 190 bilhões contra um lucro de US$ 8,5 bilhões nos 12 meses anteriores. P/L de 22. Três vezes menor que o da Microsoft nos anos 90 e uma fração do antigo P/L do Yahoo!, o Google da época.

Mas e aí? Qual é o “preço justo” de uma ação? O Google estaria no valor certo, e a Microsoft, mais barata do que deveria? Bom, essa é a pergunta que move US$ 60 trilhões nas bolsas do planeta. E quem responde é uma entidade sobre a qual ainda não falamos aqui: a natureza.

A biologia das ações

Imagine o mercado de ações como se ele fosse o seu corpo. Agora pense melhor sobre o que é o seu corpo. Você é um amontoado de 100 trilhões de células. Cada uma ali descende de uma forma de vida rudimentar: moléculas de 3,5 bilhões de anos atrás que passavam o dia flutuando na água do mar – ou no “caldo primordial”, como os cientistas preferem chamar a mistura de água em moléculas onde a vida começou. A única diferença entre essas formas de vida rudimentares e grãos de areia era que elas tinham aprendido algo estranho: fazer cópias de si mesmas.

A matéria-prima para essas cópias eram outras moléculas que flutuavam no caldo. A molécula era uma versão primitiva daquilo que a gente chama de DNA, uma cadeia de átomos de carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio colados uns nos outros formando uma escultura microscópica em forma de hélice. Cada uma dos seus 100 trilhões de células carrega uma estrutura dessas dentro dela.

Bom, esse DNA flutuante de 3,5 bilhões de anos atrás pescava (digamos assim) nutrientes no caldo e, a partir dos átomos de carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, formava outra escultura em forma de hélice, novinha. E podia morrer em paz. Essas outras esculturas eram as filhas dela, cada uma capaz de gerar suas próprias cópias. Cada nova geração, porém, não saía exatamente igual à anterior. Aparecia um errinho de cópia aqui, outro ali. Às vezes o erro tornava a molécula de DNA inútil. E ela morria. Mas outras vezes o erro de cópia dava numa mudança, uma mutação, que conferia alguma vantagem para ela.

Com o tempo, apareceram algumas moléculas com uma vantagem clara: tinham a capacidade de usar outras estruturas de DNA para fabricar seus filhos, e não só nutrientes soltos no caldo. Eram os primeiros predadores, que comiam outras formas de vida para sobreviver, igual você faz, mesmo que seja um vegetariano radical. Essa batalha para ver quem comia e quem acabava comido foi a primeira guerra mundial para valer, há bilhões de anos, no caldo primordial.

Mas surgiriam outras mutações. Algumas moléculas nasceram com uma mutação ótima para esses tempos de guerra. Uma carapaça natural, uma armadura que permitia comer os rivais sem correr o risco de ser comido. Eram as primeiras células, contêineres de proteína que protegem a vida da molécula de DNA lá dentro. Só essas sobreviveram à guerra primordial.

Mas não demorou para chegarem células mutantes ainda melhores, com mais capacidade destrutiva. Essas células tinham o maior de todos os poderes: a capacidade de se unir, de juntar forças. Funcionavam como um pequeno exército, usando a especialidade de cada tipo de célula para o bem do conjunto. Especialidades como esta aqui: células com uma mutação que as fazia perceber a presença ou a ausência de luz, por exemplo, ficavam na linha de frente. Essa capacidade permitia enxergar onde estavam as presas. Outras cuidavam do sistema de locomoção, trabalhando como remadoras de um navio, outras ficavam a cargo de consumir os nutrientes e repassar energia para o sistema de visão e as células locomotoras (o sistema digestivo, basicamente).1 De quebra, aprenderam a se reproduzir em conjunto. Um exército gerava outros exércitos prontos, não só células soltas.

E o progresso nunca parou. Esses exércitos foram ficando cada vez maiores e mais eficientes. Viraram o que o biólogo inglês Richard Dawkins ? um dos primeiros a enxergar a evolução da vida por esse ponto de vista, o das moléculas ? chamou de “máquinas de sobrevivência”. Hoje elas são exércitos incomensuravelmente grandes, formados por trilhões de células. E se você quiser ver uma delas é só olhar no espelho. Seu corpo é uma máquina de sobrevivência: uma junção de trilhões de microformas de vida. Se você pegar um microscópio e olhar só um pedaço ínfimo do seu corpo, vai ver um cenário caótico: batalhas entre glóbulos brancos e micro-organismos, bactérias que se instalaram nas células para se aproveitar delas, mas que sem querer acabam ajudando-as a funcionar melhor…. Seu corpo é uma coisa relativamente ordenada que emerge de um caos completo.

O mercado de ações também. Cada acionista age como uma célula. Ele está ali exclusivamente para o próprio benefício. Mas a junção de milhões de acionistas comprando e vendendo caoticamente forma um corpo até que bem ordenado. Entenda esse corpo como o preço de uma ação ou pelo menos como a faixa de preço em que ele tende a permanecer.

Cada compra e cada venda são uma especulação sobre o futuro. Nenhum acionista sabe se os papéis dele vão estar mais caros ou mais baratos lá na frente. Quem acha que o preço vai cair vende, quem acha que vai subir, compra. E trata-se de uma guerra tão violenta quanto a do caldo primordial.

O único momento em que você tem a oportunidade de comprar uma ação direto da empresa que emitiu os papéis é na hora do IPO. Passou disso, só no mercado. Só com pessoas que já compraram o papel e agora estão desistindo dele. Desse jeito, dá para entender que qualquer ação é uma roubada do ponto de vista de uma parte considerável dos investidores – os que querem se livrar dela. Se ninguém achasse que algum papel é uma roubada, seria impossível comprar qualquer ação. Sempre que você adquire uma, então, tem alguém do outro lado achando que você é otário – bom, nem sempre é assim. Às vezes esse alguém está vendendo os papéis a contragosto, porque precisa do dinheiro para pagar alguma dívida, por exemplo, mas na real isso só acontece sistematicamente em momentos de crise financeira aguda (2008 foi um desses, a Grande Depressão também). No resto do tempo é só uma batalha entre investidores para ver quem se dá melhor nas costas dos outros. O placar dessa batalha é o preço da ação.

Esse ponto de vista não tem nada de novo. É o mais antigo de todos, inclusive. Adam Smith, o filósofo que ergueu as primeiras vigas do pensamento econômico, resumiu a coisa numa frase: “Não é da benevolência do açougueiro, do padeiro e do cervejeiro que sai o seu jantar, mas da preocupação deles com o próprio interesse”.2 É a noção da “mão invisível do mercado”, termo criado por ele: de uma massa caótica e egoísta (comerciantes competindo para se dar bem), surge a possibilidade de você comprar carne, pão e cerveja. Sem o interesse próprio de quem vende, você não teria nada na mesa.

Isso de aplicar a ideia central de Adam Smith ao mercado de ações é uma linha de pensamento que os economistas chamam de “teoria dos mercados eficientes”. Ela existe desde o começo do século XX e defende que o preço de uma ação costuma refletir o valor real dela tão bem em dado momento quanto o preço de um carro no mercado de carros usados: a massa (de gente comprando e vendendo) faz o preço.

Pense num mercado sem massa. O de carros de colecionador, por exemplo. Em maio de 2010, um comprador anônimo pagou o preço mais alto da história por um desses: US$ 30 milhões num Bugatti Type 57 Atlantic, de 1936. Esse é o “valor de mercado” do Bugattinho três-meia? Não. Se você encontrar um igualzinho abandonado com a chave no contato, vai ter dificuldade de encontrar alguém disposto a pagar US$ 30 milhões. Não existe tanto milionário assim atrás de um carro desses. É um mercado “sem liquidez”, na língua dos economistas.

Quem tem “liquidez” é Uno, Gol, Corsa, Fiesta, Clio… É tanta gente querendo compar carrinhos baratos que é como se o preço deles fosse tabelado pelo governo. A tal liquidez é tão importante na determinação de um preço que colecionadores de carros antigos que trabalham no mercado financeiro estão montando bancos de dados com as negociações que acontecem pelo mundo. Compraram três Ferrari F-40 de 1988 por US$ 1 milhão e duas por US$ 1,5 milhão no ano passado? Então, se alguém lhe oferecer uma por US$ 1,2 milhão, está no preço. US$ 2 milhões talvez não tenha muita justificativa. E US$ 750 mil é para levar na hora.

Esse banco de dados não só existe no mercado de ações como é atualizado a cada fração de segundo. Pegue uma empresa miúda da Bovespa, a Positivo, por exemplo, uma empresa que monta computadores. Um milhão de ações dela trocam de mãos num pregão típico. Da PortX, a empresa que Eike Batista formou para abrir o capital de um porto, 10 milhões. Da siderúrgica Gerdau, 100 milhões. Petrobras, 500 milhões. Às vezes um bilhão.

É uma liquidez tão forte que não tem como o preço de um papel estar muito além da realidade. Se o preço da ação de uma Microsoft dá num P/L (mostrando que a ação está teoricamente barata), é porque o preço é esse mesmo. Uma ação não é uma Ferrari F-40 1988. É um Golzinho 2008. Há um mercado intenso por trás determinando o preço. Então não existem grandes barganhas. Na prática, significa que o investidor médio, você, não tem como ganhar muito mais do que a média na bolsa. Vocé é a média.

Isso é exatamente o que prega a ideia dos mercados eficientes. Ela leva em conta a diferença entre o preço de um carro usado e o de uma ação, claro. Um carro é uma coisa estática, não muda com o tempo (só fica mais velho, mas essa é uma alteração que vai se refletir no preço, e de forma totalmente previsível). Com uma empresa, a coisa real por trás de uma ação é diferente. Ela pode estar meio mais ou menos hoje, mas amanhã pode ganhar mercado e começar a ter lucros absurdos. No mercado de ações, o Gol de hoje pode ser a Ferrari de amanhã. Mas essa expectativa também está embutida no preço. Então ele é sempre um valor que a gente pode chamar de “justo”.

A teoria é tão redonda que ganhou ares de sagrada entre os economistas. Só tem um detalhe: ela está errada.

O maior inimigo do seu bolso

“Errada” é um exagero. Claro que um preço determinado por milhões de pessoas comprando e vendendo todos os dias é algo a ser respeitado. Mas a teoria dos mercados eficientes é como a teoria da gravidade universal (ou qualquer outra da ciência): uma aproximação da realidade.

Não se trata de um retrato fiel. Quando Newton mostrou que a massa dos corpos se atrai, e que é por isso que o seu traseiro está grudado agora ao planeta Terra, ele fez uma boa aproximação sobre como o Universo funciona. Mas não era a verdade. Einstein descobriria mais tarde, em 1916, que não é a “massa dos corpos que se atrai”. O que a massa dos corpos faz é entortar o “tecido do espaço” (uma entidade abstrata que representa a própria dimensão de espaço, não o espaço sideral). A Terra entorta o espaço à sua volta. E você se sente preso ao chão. Prova disso é que até a luz é atraída pela gravidade, algo que Newton achava impossível. E quando detectaram que massa atrai luz mesmo, em 1919, Einstein foi alçado à posição de semideus.

O alemão descobriu a verdade final sobre o assunto? Não. Mas que foi uma aproximação melhor que a de Newton, foi. Isso também não significa que Sir Isaac estivesse errado. As equações dele para descrever a atração entre os corpos continuaram valendo depois de Einstein. A matemática dele estava correta. Só a forma de ver o processo todo é que estava mais distante da verdade.

As forças que movem as finanças ainda são tão misteriosas quanto as que movem o Cosmos. Sabemos bastante sobre elas. Mas não tudo. Os criadores da teoria dos mercados eficientes fizeram uma boa aproximação.

É fato: o preço de uma ação reflete toda a expectativa do mercado em torno dela. O que a teoria não enxerga, porém, é que as expectativas às vezes estão completamente equivocadas.

É que entre uma ação e o preço dela existe uma entidade propensa a erros grosseiros: o nosso cérebro. Um ramo recente da ciência, a economia comportamental, surgiu nos anos 70, para tentar explicar como a nossa cabeça cria distorções no mercado financeiro. Psicólogos, neurocientistas e economistas têm aprofundado os estudos nessa área nos últimos anos. No começo foram desacreditados. Mas começaram a chamar a atenção depois que a bolha da internet e a crise de 2008 fizeram com que a vida real servisse de laboratório para suas teses. E hoje essa ciência tem até um nome mais bonito: neuroeconomia.

A neuroeconomia começa com uma premissa: a gente até engana, mas lá no fundo nossa mente é tosca. Ela evoluiu num ambiente selvagem. Passamos 99,5% da nossa história tendo de lidar o tempo todo com questões de sobrevivência – são 10 mil anos de civilização contra 2 milhões do surgimento do primeiro animal que dá para chamar de humano, o Homo erectus (se quiser usar como referência o Homo sapiens, a nossa espécie propriamente dita, que apareceu bem mais tarde, tudo bem, vai dar 95% de selvageria versus 5% de civilização).

Nesse mundo bruto em que a mente evoluiu, enfim, existiam duas regras de ouro:

1) Não levar desaforo para casa. Nós vivíamos em grupos de, no máximo, 100, 150 indivíduos. Todo o mundo se conhecia. Então perder o respeito do grupo significava o fim da sua vida – e viver sozinho no meio da savana africana, onde tanto os erectus como os sapiens passaram a maior parte do tempo, não era um bom negócio (ainda não é, por sinal).

2) Fazer o que os outros estão fazendo. Se todo o mundo sair correndo, corra também. Vai na fé, amigo erectus. O mais provável é que algum predador tenha aparecido e só você não tenha visto. É para esse instinto de ir com os outros, inclusive, que temos nossos neurônios-espelho, os que fazem a gente sentir o que os outros estão sentindo como se fosse telepatia. São eles que dão a sensação de “vergonha alheia”, são eles que fazem você rir de verdade quando todo o mundo está rindo – mesmo que não tenha entendido a piada, são eles que fazem você gritar “ai” quando vê alguém se espatifando no chão, são eles que fazem uma criança escolher que vai torcer para aquele time de futebol quando você a leva para a arquibancada pela primeira vez. E também são os neurônios-espelho que levam investidores a fazer besteira.

Mas primeiro vamos considerar a parte do desaforo. O instinto de manter uma boa imagem perante o grupo – e diante do próprio espelho – cria uma aberração. Você fica feliz quando se dá bem e triste quando as coisas não dão certo. Ok. Mas não existe uma simetria aí. O desespero quando algo dá errado é maior do que a alegria de quando dá certo. Fazer um gol levanta a autoestima, digamos, em 10 pontos. Mas levar um gol do outro time abaixa em 20.

Na bolsa é a mesma coisa. Como a aversão à perda é muito grande, investidores tendem a pular fora do barco quando as ações estão caindo, mesmo que percam dinheiro com isso. É uma atitude irracional: o mais equilibrado seria esperar alguma subida para repor um pouco do prejuízo com a queda e aí, sim, vender. Ainda mais sensato seria mirar só na saúde financeira da empresa por trás da ação e não ligar para a queda de preço caso a companhia esteja bem. Mas não: a tendência é vender no momento de perda justamente para aplacar a dor da perda. E esse comportamento irracional ajuda a tragar o mercado inteiro para baixo em momentos de baixa, como o estouro de uma bolha – daí as ações de uma Amazon da vida terem caído quase a zero sem justificativa para tanto.

Quem chegou a essa conclusão nem foram economistas. Mas psicólogos. Os primeiros a verificar como a parte selvagem, puramente instintiva, do cérebro influencia o preço das ações foram o americano Daniel Kahneman, de Princeton, e o israelense Amos Tversky, de Stanford.

Kahneman ganharia o Nobel de Economia em 2002 – sem nunca ter aberto um livro de economia, segundo o próprio. A academia sueca justificou o prêmio dizendo que Kahneman integrara “inovações da psicologia nas ciências econômicas, especialmente no que concerne ao julgamento humano e à tomada de decisões sob incerteza” (Tversky não recebeu o prêmio junto porque tinha morrido seis anos antes – e não existe Prêmio Nobel post-mortem).

A dupla chegou a essas conclusões depois de anos de experimentos com voluntários, como acontece normalmente na elaboração de teses de psicologia. O mais famoso desses testes é o Jogo do Ultimato.  Famoso e simples: dá até para fazer em casa. Assim: primeiro você chama dois amigos seus. Vamos chamá-los de Tonico e Tinoco.

Aí você dá R$ 100,00 em notas de R$ 10,00 na mão do Tonico e explica para a dupla:

– Olha, o Tonico tá com esse dinheiro na mão. Mas ele só vai levar alguma coisa se der uma parte para você, Tinoco.

– Posso pedir quanto eu quiser?

– Não, Tinoco. É o Tonico quem decide quanto dos R$ 100,00 fica com ele e quanto fica com você.

– Tenho de dividir o dinheiro com o Tinoco, então?

– Só se você quiser, Tonico. Mas tem um detalhe importante: se o Tinoco recusar sua oferta, nem você nem ele ganham nada. Vão ter de me voltar o dinheiro, tá?

– Tá bão!

Começa o jogo. Tonico pensa um pouco e conclui: “Eita… Não preciso dar grande coisa pro Tinoco não. Se eu der só R$ 10,00 e ficar com R$ 90,00, ele não vai ser besta de recusar. Porque aí nem R$ 10,00 o Tinoco ganha. Melhor um passarinho na mão que dois voando…”.

– Toma aí, Tinoco, dez contos de réis procê.

– Quero não, Tonico.

– Mas Tinoco, se você recusar não vai ganhar é nada, sô!

– Tá me achando com cara de sonso, ô animar? Quero não.

E Tonico tem de devolver o dinheiro para a banca. Os dois acabam de mãos abanando. Então você chama outra dupla: Milionário e José Rico. Dá os R$ 100,00 para Milionário, e ele nem pensa duas vezes: passa R$ 50,00 pro amigo. Zé Rico aceita o acordo. E a dupla sai do jogo com R$ 100,00 mais abonada, justificando o nome.

Nos testes de verdade, a maioria das pessoas agia como Milionário e José Rico. Uma amostra de racionalidade. Mas quase sempre que alguém oferecia menos da metade do dinheiro, o outro preferia ficar sem nada.

Conclusão dos psicólogos: a dor de não ganhar R$ 50,00 é tão maior que a eventual alegria de levar R$ 10,00 de graça que vale mais a pena punir a cobiça do outro do que ficar com o dinheiro. Isso se reflete na bolsa também.

Quando as ações estão caindo, uma parte razoável dos investidores tende a pensar: “Quer saber? Tô fora dessa palhaçada de bolsa. Aqui não tem otário, não”. E tira o dinheiro no impulso, mesmo perdendo. Prefere frear o prejuízo a esperar para ver se os papéis sobem.

Quando esse tipo de reação junta-se àquele outro instinto animalesco, o de fazer o que os outros estão fazendo sem pensar, tudo degringola. E na vida real, os dois comportamentos vêm sempre no mesmo pacote. É o efeito manada, onipresente nas histórias deste livro: “Se todo o mundo está correndo da bolsa, é melhor eu correr também”. O problema é que, quanto mais gente corre da bolsa, mais as ações caem. E mais gente corre da bolsa. E mais as ações caem. E…

Quando o movimento é para cima, funciona do mesmo jeito. As ações começam a subir. As notícias de que “tem bagulho bom aí” vão se espalhando. Cada vez mais gente entra na bolsa para não perder esse trem. Quanto mais gente entra, mais as ações sobem… As pessoas começam a comprar exclusivamente porque os preços estão subindo. Não querem nem saber que trolha de empresa estão comprando – se ela dá lucro, se não dá… As ações ganham vida própria.

Uma hora alguém se toca de que está comprando vento, que nem com 1573 anos de dividendos o preço da ação se paga. Então a queda começa. Geralmente de forma mais violenta que a subida. A Nasdaq viveu quatro anos de alta acelerada até chegar ao pico, mas só precisou de dois para deletar todos os ganhos e voltar ao patamar anterior. Pois é: a dor de perder é mais forte que a alegria de ganhar. E o pessoal pula fora em bem menos tempo do que levou para embarcar.

Mas se uma queda começa com as pessoas percebendo que o preço das ações descolou da realidade, o que engatilha uma alta? Sim, sabemos do efeito manada. Mas e antes dele? Qual é o instante em que uma bolha nasce? O que vem imediatamente antes desses Big Bangs financeiros? O seguinte: uma novidade, uma oportunidade de investimento cujas perspectivas de lucro pareçam ilimitadas.

As grandes navegações foram a primeira dessas grandes oportunidades na era das ações. As Companhias das Índias Orientais da Holanda e da Inglaterra mostraram que, sim, aquele negócio podia enriquecer qualquer um. Depois a Companhia dos Mares do Sul e a Mississípi pegaram carona, abusaram do marketing para vender ações, os lucros não vieram e deu no que deu. A internet foi outra dessas. Ninguém sabia como fazer a rede dar dinheiro de verdade no fim do século XX. Mas era tão líquido e certo que uma hora ela daria que ninguém quis perder a oportunidade de ser pioneiro. Mas o dinheiro demorou a chegar e, de novo, deu no que deu.

Isso passa só uma parte da ideia sobre as bolhas – a ruim. Existe um outro lado: manias especulativas podem gerar benefícios concretos, sim. Mesmo a febre da Nasdaq acabou sendo fundamental para moldar o século XXI da banda larga, dos smartphones e do iPad. Mas quem pode explicar isso melhor é a mãe da bolha da internet, uma senhora inglesa do século XIX: a mania das ferrovias. Uma dona que, apesar de ter morrido pobre, deixou filhos que se tornariam muito bem-sucedidos. O futebol brasileiro é um desses rebentos. Hora de mais um salto no tempo.

Reproduzido com permissão do livro Crash: Uma Breve História da Economia por Alexandre Versignassi, já disponível nas livrarias

Crédito das fotos: Julien GONG Min~BostonBill~, ynseHeating Oiljj_judesImages_of_Money/Flickr