Quase uma semana após a invasão do Capitólio dos EUA, uma pesquisadora e hacker anunciou que conseguiu catalogar milhares de conteúdos de usuários do Parler, rede social que ganhou destaque depois de Donald Trump ter sido banido de outras plataformas. Mais precisamente, a hacker diz ter armazenado 56,7 TB de material do app.

A pesquisadora, que se identifica no Twitter como @donk_enby, começou a coleta no Parler com o objetivo de arquivar todos os posts de 6 de janeiro, o dia do motim no Capitólio. A usuária diz que o conteúdo coletado representa evidências “muito incriminatórias”.

De acordo com o Laboratório de Pesquisa Forense Digital do Atlantic Council, o Parler foi um dos vários aplicativos usados ​​para coordenar a invasão ao Capitólio, em um plano para reverter os resultados das eleições de 2020 e manter Trump no poder. Cinco pessoas morreram.

O Parler diz permitir “liberdade de expressão sem limites”, mas no final das contas se transformou em um recinto de teorias da conspiração da extrema direita, postagens racistas e até ameaças de morte a políticos estadunidenses.

Após a invasão ao Capitólio, Apple e Google anunciaram que o aplicativo seria removido de suas lojas por não moderar adequadamente postagens que incentivavam violência e crime. O último prego no caixão veio depois, quando a Amazon anunciou que o Parler perderia o acesso aos servidores do Amazon Web Services (AWS), impedindo sua utilização.

Na esperança de criar um registro público duradouro para que outros pesquisadores examinem os dados do Parler, @donk_enby começou arquivando as postagens do dia da invasão. De lá para cá, até o momento do bloqueio da ferramenta, a hacker diz ter obtido cerca de 99,9% de todo o conteúdo publicado na rede. Todo o conteúdo pode ser visualizado no site ArchiveTeam.org e posteriormente será disponibilizado no Internet Archive (as duas páginas não são relacionadas).

Em um tweet publicado na manhã de domingo (10), @donk_enby disse que estava rastreando cerca de 1,1 milhão de URLs de vídeo ligadas à rede. “Esses são os arquivos brutos originais não processados ​​carregados no Parler com todos os metadados associados”, afirmou. Ela ainda destacou que os vídeos brutos incluem dados de GPS dos locais exatos onde foram feitas as gravações.

As implicações de privacidade envolvendo a coleta desses dados são óbvias. Por outro lado, também podem servir para ajudar na aplicação da lei. Autoridades federais e locais prenderam dezenas de suspeitos nos últimos dias acusados ​​de participar do motim do Capitólio.

Um breve histórico do Parler (e dos hackers)

Em entrevista ao Gizmodo, @donk_enby disse que começou a vasculhar o Parler depois que a empresa negou um vazamento de e-mails descoberto pelo hacktivista Kirtaner, que é considerado fundador do grupo de hackers Anonymous. A pesquisadora afirma ter conseguido localizar o mesmo material de forma independente na época.

Kirtaner, criador do 420chan, relatou ter obtido 6,3 GB de dados de usuários do Parler de um servidor AWS não seguro em novembro do ano passado. O arquivo continha senhas, fotos e endereços de e-mail de várias outras empresas.

O CEO da Parler, John Matze, posteriormente afirmou ao Business Insider que os dados continham apenas “informações públicas” sobre os usuários, que haviam sido armazenadas indevidamente por um fornecedor de e-mail cujo contrato foi rescindido devido ao vazamento.

Em dezembro, o Twitter suspendeu Kirtaner depois de ele tuitar que iria acabar com o Parler, citando suas regras contra a ameaça de “violência contra um indivíduo ou grupo de pessoas”. A conta de Kirtaner permanece suspensa, apesar de uma campanha online pedindo à equipe de segurança da rede social para reverter a decisão. Gregg Housh, ativista digital envolvido em muitas das primeiras campanhas do Anonymous, observou que o tweet “não era dirigido a uma pessoa e nem era realmente violento”.

Para @donk_enby, o Twitter tem confiado demais em ferramentas automatizadas de moderação, o que levou a suspensões duvidosas de usuários que não violaram realmente suas regras.

No domingo, o CEO do Parler criticou duramente as ações das empresas de tecnologia, afirmando na Fox News que Amazon, Apple e Google estavam tentando “destruir a empresa inteira”. Matze acrescentou que a companhia também foi “abandonada” por seus advogados. Horas depois, Matze confirmou que está processando a Amazon.

É improvável que o Parler se recupere rapidamente — se é que vai se recuperar. Como Corey Quinn do Duckbill Group explicou recentemente no Twitter, a migração de um grande produto do AWS pode levar meses de teste e possivelmente anos para ser executado. Os aplicativos que integram a ampla gama de serviços do AWS não podem ser facilmente transferidos para um ambiente de hospedagem diferente.