As animações do estúdio Pixar, que fazem parte da Walt Disney Company, são conhecidas por emocionar o público, seja ele feito de adultos ou crianças. Porém nem tudo é perfeito como é visto nos filmes. 

Em uma carta atribuída aos “funcionários LGBTQIA+ da Pixar e seus aliados”, divulgada pela revista Variety, as equipes afirmam que os executivos corporativos da Pixar ordenam que “quase todos os momentos de afeto abertamente gay” dos personagens sejam cortados de seus filmes.

“Nós da Pixar testemunhamos pessoalmente belas histórias, cheia de personagens diversos, retornarem das revisões de executivos da Disney reduzidas e migalhas do que eram originalmente”, afirma a carta. “Mesmo que a criação de conteúdo LGBTQIA+ fosse a resposta para reverter leis discriminatórias no mundo todo, nós estamos sendo impedidos de criá-los”. 

A declaração chega logo após Bob Chapek, CEO da Walt Disney Company, ter emitido um comunicado para todos os funcionários na segunda-feira (7), depois do projeto de lei anti LGBTQIA+ conhecido como “Don’t Say Gay” ser aprovado na Flórida, sede do Disney World.

No texto, o executivo afirma que o maior impacto que a empresa pode causar é “na criação de um mundo mais inclusivo é através do conteúdo inspirador que produzimos“. Contudo, isso não parece ser aplicado na prática.

Os funcionários da Pixar afirmam que esse posicionamento não é compatível com as experiências que tiveram quando tentaram abordar questões de diversidade nas histórias. A carta dos funcionários, que não é datada, porém, exige que a Disney retire a ajuda financeira de todas os políticos que apoiaram o projeto de lei “Don’t Say Gay” e “tome uma posição pública decisiva” contra a legislação e projetos semelhantes em outras partes do país.

A Pixar pertence à Disney desde 2006, quando foi adquirida pela gigante do cinema. Há pouquíssimos personagens assumidamente LGBTQIA+ nas animações do estúdio, e tiveram quase nenhum destaque nas tramas dos filmes. 

O primeiro personagem da Disney abertamente gay foi uma policial feminina ciclope, vista em “Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica” (2020). Em determinado momento, ela diz: “Não é fácil ser uma mãe nova – a filha da minha namorada me fez arrancar o cabelo, ok?“. Porém, devido à cena, o filme foi proibido no Kuwait, Omã, Catar e Arábia Saudita. Na Rússia, a palavra “namorada” foi trocada por “parceira” na dublagem. 

Disney
Imagem: Reprodução/Divulgação Disney

No mesmo ano, o estúdio lançou o curta “Out” sobre um homem que luta para dizer aos seus pais que é gay. Além dessa, a Pixar lançou um curta-metragem, “Segredos Mágicos”, produção que foi lançada no Disney Plus, sobre um homem gay que luta para se assumir diante dos seus pais. “Luca” foi outro filme que tocou nesse tema de maneira um pouco mais leve, porém representando muito bem em como a sociedade reage diante do que é diferente.

A mais recente animação da Pixar, “Red: Crescer é Uma Fera”, que estreia no Disney Plus no dia 11 de março, também tocará em temas delicados como o descobrimento da sexualidade na adolescência.

Diante da polêmica, o CEO da Disney, Bob Chapek, veio a público dizer que a empresa terá uma nova postura contra a lei preconceituosa não apenas na Flórida, mas também em todo os EUA, visando impedir a proliferação de projetos similares contra os direitos humanos.

Chapek falou publicamente na quarta-feira (9), sobre a oposição da Disney ao projeto de lei discriminatório. Ele anunciou que a Disney doaria US$ 5 milhões para a Campanha de Direitos Humanos e outras organizações de direitos LGBTQIA+, e que se reuniria com o governador do estado da Flória, Ron DeSantis

“O governador DeSantis se comprometeu comigo que ele queria ter certeza de que essa lei não poderia ser armada de forma alguma por indivíduos ou grupos no estado para prejudicar indevidamente ou atingir crianças e famílias gays, lésbicas, não-binárias ou transgêneros”, disse o CEO da Disney. 

Porém, o posicionamento tardio não agradou muita gente. A organização Human Rights Campaign, em defesa da comunidade LGBTQIA+, anunciou que recusaria receber a doação até que atitudes realmente significativas fossem tomadas para combater o projeto de lei.