Por volta de 73 mil anos atrás, onde hoje é a África do Sul, um humano primitivo usou um lápis ocre vermelho para desenhar um padrão hachurado em um floco liso, segundo uma nova pesquisa publicada nesta quarta-feira (12). Agora, essa é considerada a evidência mais antiga de desenho no registro arqueológico.

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O desenho, que consiste de três linhas vermelhas cruzando com outras seis linhas, é uma reminiscência do símbolo da libra. Talvez nunca saibamos o que esse padrão hachurado significou para o artista, mas, como apontaram os autores do novo artigo, publicado na Nature, aquilo era definitivamente um desenho intencional. Ele antecede provas anteriores de desenhos em pelo menos 30 mil anos (embora o número real possa estar mais próximo de nove mil anos — falaremos mais disso a seguir). Os humanos, como essa descoberta deixa claro, têm feito rascunhos há muito, muito tempo.

A entrada da Caverna Blombos, no sul da Cidade do Cabo, na África do Sul. Imagem: Magnus Haaland

Chamado de L13, o desenho foi encontrado na África do Sul, na Caverna Blombos, um sítio arqueológico da Idade da Pedra Média que produziu algumas das evidências mais antigas de atividade cultural humana. Vários dos artefatos encontrados na caverna, como contas de concha, pontas de lança e peças gravadas de ocre, foram datados de 100 mil a 700 mil anos atrás.

O L13 foi descoberto em 2011, mas foi preciso o olhar atento do arqueólogo Luca Pollarolo, pesquisador honorário da Universidade de Witwatersrand e coautor do novo estudo, para detectar as marcas vermelhas propositais entre milhares de flocos parecidos descobertos no local. A superfície usada pelo artista da Idade da Pedra Média é conhecida como silcrete — um mineral parecido com concreto composto por areia fina e cascalho. Um lápis vermelho ocre foi aplicado ao floco de silcrete liso para formar o padrão três-por-seis.

Para provar que as linhas vermelhas eram um desenho, e não o resultado de processos naturais, os pesquisadores analisaram as marcas com microscópios ópticos e eletrônicos. A espectroscopia Raman foi usada para conduzir uma análise química, revelando que a substância vermelha era proveniente do ocre (um pigmento natural que ocorre na terra). Combinadas, as análises microscópicas e químicas do padrão “confirmam que o pigmento vermelho ocre foi aplicado intencionalmente ao floco com um lápis ocre”, escrevem os autores do estudo.

Visão microscópica das marcas de vermelho ocre. Imagem: C. S. Henshilwood et al., 2018/Nature

Os pesquisadores, liderados por Christopher Henshilwood e Francesco d’Errico, ambos da Universidade de Bergen, na Noruega, também se envolveram em algumas experiências arqueológicas, recriando os métodos usados para criar o desenho primitivo. Esse exercício mostrou que a ponta do lápis ocre do artista tinha cerca de um a três milímetros de largura. O exercício também permitiu aos pesquisadores discernir quais linhas foram criadas com um único golpe, o que exigiu múltiplos golpes, e a direção em que os golpes foram feitos. Ao avaliar experimentalmente os flocos de silcrete com lápis ocre, os pesquisadores conseguiram mostrar que “as linhas no L13 foram produzidas com lápis e, portanto, constituem um desenho”, nas palavras dos autores.

Versão de um artista para as nove linhas (parte superior), junto com uma impressão hipotética do desenho completo (parte inferior). Imagem: C. S. Henshilwood et al., 2018/Nature

Durante a Idade da Pedra Média, os humanos primitivos usavam ocre para coisas além de desenho, incluindo como um aditivo para a cola e como protetor solar, segundo os pesquisadores. Mas foi aplicado muito pouco ocre ao floco de silcrete, levando os autores a concluir que as linhas não podiam ter nenhum “objetivo utilitário” e que eram um desenho.

O floco L13 mede 38,6 milímetros de comprimento, 12,8 milímetros de largura e 15,4 milímetros de altura, mas as linhas vermelhas estão abruptamente cortadas nas pontas. Isso significa que o desenho original provavelmente se estendia ao longo de um área de superfície maior e que o “padrão provavelmente era mais complexo estruturado em sua totalidade do que nessa forma truncada”, escreveram os autores no estudo.

O floco de silcrete foi encontrado em uma camada de sedimento anteriormente datada em 73 mil anos de idade, e em uma caverna em que, anteriormente, se havia encontrado peças de ocre. “Essa descoberta notável antecede os desenhos abstratos e figurativos mais antigos conhecidos anteriormente em pelo menos 30 mil anos”, escrevem os autores no estudo, aludindo a desenhos feitos por humanos antigos na África, Europa e no Sudeste Asiático.

Infelizmente, os pesquisadores escolheram desconsiderar pinturas feitas por neandertais em três cavernas espanholas, datando de 64 mil a 66 mil anos atrás. Os autores mencionam casualmente essa descoberta em seu novo artigo, dizendo que essas pinturas na caverna foram propostas na literatura científica apenas recentemente, o que é bem injusto. Essas pinturas, que foram feitas com ocre, têm sido alvo de escrutínio pesado desde 2012, com o trabalho mais recente trazendo algumas das evidências de datação mais fortes até hoje. Portanto, tendo em mente a arte neandertal, o desenho descoberto na Caverna Blombos antecede o desenho mais antigo em “apenas” nove mil anos, e não em 30 mil anos, como sugeriram os autores.

Também vale ressaltar que muitas gravuras feitas por humanas — e não desenhos — datam ainda mais no tempo. Por exemplo, um padrão em zigue-zague gravado em uma concha no sítio arqueológico Trinil, em Java, foi datado em 540 mil anos atrás (essa descoberta é anterior ao Homo sapiens, portanto, provavelmente foi feita pelo Homo erectus). Gravuras abstratas são, na verdade, bastante comuns no registro arqueológico, com outros exemplos incluindo um osso gravado de 30 mil anos de idade de Bilzingsleben, na Alemanha, e marcas em um crânio de 90 mil anos encontrado na caverna de Qafzeh, em Israel, entre outros. De fato, a própria Caverna Blombos produziu gravuras mais antigas que esse desenho, mais especificamente, um pedaço gravado de ocre que data de 100 mil a 73 mil anos atrás.

Gravuras são uma forma de arte simbólica, mas são feitas a partir do corte ou raspagem de objetos. Desenhos, por outro lado, exigem que um artista aplique uma substância (tinta, ocre etc) a uma superfície, como uma parede de rocha ou caverna. É uma distinção tênue, mas importante. Um desenho, pode-se argumentar, requer um salto conceitual diferente da gravura.

De fato, a descoberta do L13 “mostra que o desenho fazia parte do repertório comportamental de populações de Homo sapiens primitivos no Sul da África há cerca de 73 mil anos”, escrevem os autores do estudo. “Ele demonstra a capacidade desses homens de aplicar projetos gráficos semelhantes em várias mídias usando uma técnica diferente.” É uma descoberta importante, fornecendo evidências de processos de pensamento e comportamento modernos nesses seres humanos primitivos.

Paul Bahn, autor de Archaeology: The Essential Guide to Our Human Past, disse que essa descoberta em particular não muda de fato a nossa compreensão da história humana, apesar de ser uma nova evidência bem-vinda.

“Já tínhamos gravuras hachuradas em ocre da Caverna Blombos de uma data ainda mais antiga; esse desenho em core é apenas a cereja no bolo”, Bahn contou ao Gizmodo. “Mas tudo isso faz parte de um quadro maior e mais importante. Ou seja, a ‘arte’, ou a criação de imagens ou marcações, é muito mais antiga do que se pensava tradicionalmente. Já temos marcações em quatro cavernas (três na Espanha, uma na França) que seguramente podem ser atribuídas aos neandertais. E temos alguns exemplos de marcações dos tempos do Homo erectus. Portanto, estamos atualmente vivendo uma época muito empolgante em que novas descobertas como essa estão mudando nossa visão sobre as capacidades de nossos ancestrais.”

Já que descobriram ocre mais antigo na Caverna Blombos, os arqueólogos esperam que desenhos ainda mais antigos sejam encontrados, alguns possivelmente com até 100 mil anos de idade. Fiquem ligados, porque essa história está longe de acabar.

[Nature]

Imagem do topo: Craig Foster