As descobertas de um novo ensaio clínico divulgado na última quarta-feira (10) podem apontar o caminho para um dos grandes malefícios deste século: uma droga segura e eficaz que ajuda a reduzir a obesidade nas pessoas.

O estudo descobriu que as pessoas com obesidade que receberam um tratamento atualmente usado para diabetes tipo 2 perderam significativamente mais peso do que um grupo de controle, com um terço perdendo 20% ou mais do peso corporal. Aqueles no grupo de testes também tiveram melhorias maiores em outros marcadores de saúde. No entanto, os efeitos do tratamento na saúde a longo prazo não são plenamente conhecidos, o que significa que ainda não sabemos quão eficaz ou seguro pode ser esse novo tratamento contra a obesidade.

O medicamento se chama semaglutida e foi aprovado nos EUA em 2017 para ajudar pessoas com diabetes tipo 2. A droga ajuda a aumentar a produção de insulina, hormônio que desempenha um grande papel no controle do açúcar no sangue. Pessoas com diabetes tipo 2 param de produzir insulina suficiente ou deixam de responder normalmente, causando níveis instáveis ​​de açúcar no sangue, o que caracteriza o diabetes. O medicamento faz isso imitando o hormônio do peptídeo 1, que é semelhante ao glucagon humano e também é chamado de GLP-1.

O GLP-1 é uma espécie de alavanca do organismo que regula nossa sensação de fome e metabolismo. Depois de comer, geralmente é liberado no intestino em níveis altos o suficiente para reduzir nosso apetite. É provavelmente por isso que um efeito colateral comumente relatado da semaglutida em pacientes com diabetes foi a redução do apetite e a perda de peso. E porque a obesidade, um fator de risco comum do diabetes tipo 2, muitas vezes envolve um metabolismo disfuncional, é também por isso que alguns cientistas esperam que a droga também possa ser usada em um tratamento genuíno contra a obesidade.

Este novo ensaio de Fase III foi financiado pela Novo Nordisk, fabricante da semaglutida, e envolveu quase dois mil pacientes com mais de 18 anos, recrutados em 16 países, de junho a novembro de 2018. Todos os voluntários disseram ter tentado perder peso sem sucesso pelo menos uma vez e tinham um índice de massa corporal acima de 30 — o limite máximo para obesidade — ou um IMC de 27, junto com complicações de saúde provavelmente relacionadas ao peso, mas que não incluiam diabetes. As descobertas foram publicadas no New England Journal of Medicine (NEJM).

Todos os voluntários foram encorajados a fazer uma dieta hipocalórica e praticar mais exercícios. Eles também receberam aconselhamento individualizado de nutricionistas uma vez por mês, pessoalmente ou por telefone. No entanto, cerca de metade foi escolhida de maneira aleatória para receber uma dose injetada semanal de semaglutida, enquanto a outra metade recebeu uma injeção de placebo. Cada dose de semaglutida foi de 2,4 miligramas, maior do que a dose de 1 miligrama usada para o tratamento do diabetes.

Ao final do teste de 68 semanas (que quase todos os participantes completaram), os resultados foram claros. Aqueles que tomaram semaglutida experimentaram uma perda média de peso de quase 15 kg, enquanto o grupo do placebo experimentou uma perda média quase 3 kg. Dois terços do grupo de tratamento perderam pelo menos 10% do peso inicial, enquanto um terço perdeu 20%. Eles também observaram melhorias mais substanciais na circunferência da cintura, pressão arterial e qualidade de vida relatadas pelos próprios pacientes.

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Apesar das notícias promissoras, alguns especialistas estão mais cautelosos sobre as implicações do estudo. Em um editorial complementar, Julie Ingelfinger e Clifford Rosen, médicos e editores do NEJM, consideraram os resultados um “bom começo”.

No ensaio, a semaglutida foi bem tolerada, mesmo apresentando sintomas como náuseas, diarreia e vômitos no grupo de tratamento. No entanto, Ingelfinger e Posen apontam que outra pesquisa sugere que isso pode aumentar o risco de problemas de saúde mais sérios, como pancreatite. Em camundongos, foi associado a certos tumores da tireoide quando tomada como pílula, razão pela qual a droga não é atualmente recomendada para pessoas com neoplasia endócrina múltipla tipo 1, uma condição hereditária que aumenta o risco de câncer de tireoide.

Os pesquisadores também observam que a obesidade é uma condição crônica. E apesar da duração do teste de 68 semanas, ainda não sabemos quão eficaz, seguro ou prático seria para alguém tomar uma dose injetada semanal de semaglutida a longo prazo. Esses riscos e limitações potenciais não significam que a droga não possa ser usada para a obesidade, mas sim que os cientistas precisarão continuar avaliando se seus benefícios superam seus danos. Alguns especialistas em saúde e ativistas também vêm questionando o valor do tratamento da obesidade.