Este mês, circulou a notícia de que uma mulher australiana deu à luz gêmeas concebidas em um intervalo de dez dias, em um caso extremamente raro de “superfetação”. Para tornar as coisas mais intrigantes, a mulher tinha síndrome do ovário policístico – o corpo dela não ovula naturalmente. Ela aparentemente passou por um tratamento hormonal e “os resultados foram espetaculares“.

Esta gravidez milagrosa foi assunto de tabloides no exterior, apareceu também na BBC e no Huffington Post, e chegou ao Brasil por meio do jornal Extra, iG Delas, UOL Estilo, entre outros veículos.

Mas, apesar da natureza extraordinária do caso médico em questão – há menos de dez casos relatados de superfetação em humanos, e nenhum deles foi totalmente provado – poucos veículos se preocuparam em consultar um especialista em fertilidade. O Gizmodo consultou duas e, claro, a alegação da gravidez dupla em dez dias soa bem duvidosa.

O real motivo pelo qual um estudo sobre anticoncepcional masculino foi interrompido

“Eu acho que, de forma realista, é muito improvável que ela tenha engravidado duas vezes”, diz Jennifer Eaton, endocrinologista reprodutiva e especialista em infertilidade na Universidade Duke, ao Gizmodo. “É mais provável que as gêmeas estivessem em idades gestacionais diferentes, o que é bastante comum.”

Segundo as notícias, quando as meninas gêmeas de Kate e Peter Hill nasceram há dez meses, elas tinham tamanhos e pesos diferentes, e estavam em diferentes níveis de desenvolvimento gestacional.

Isso levou alguém – presumivelmente o médico do casal – a concluir que as gêmeas haviam sido concebidas com dez dias de separação, em duas gestações separadas que se qualificariam como uma superfetação.

Isso é suspeito por algumas razões. A primeira é que, depois que uma mulher fica grávida, uma série de alterações hormonais faz com que o corpo pare de ovular. Além do mais, a mãe das gêmeas só teve relações sexuais desprotegidas uma vez, então o esperma precisaria sobreviver no corpo durante dez dias antes de fertilizar um segundo óvulo.

Em alguns animais, principalmente nos tubarões, o esperma pode sobreviver por meses. Mas é muito raro que o esperma humano sobreviva no corpo feminino por até uma semana.

É mais provável, diz a Dra. Eaton, que as duas meninas cresceram a taxas ligeiramente diferentes, seja devido a diferenças genéticas, seja devido a uma implantação tardia do embrião.

A Dra. Mindy Christiansen, professora assistente de ginecologia e obstetrícia na Johns Hopkins Medical School, concorda. “Há uma janela muito estreita para ocorrerem a fertilização e a implantação”, isto é, a fixação na parede uterina. “Nessa situação, poderia ter ocorrido uma fertilização tardia de um dos óvulos, seguida de uma implantação tardia. Isso não consiste realmente em duas gravidezes separadas”, explica a Dra. Christiansen.

Ambas as médicas acrescentam que é bastante comum que um gêmeo não seja visto no primeiro ultrassom da mãe; isso pode ter acontecido em outro suposto caso de superfetação.

Por fim, algumas notícias pareceram estabelecer uma ligação entre o tratamento hormonal da mãe – para a síndrome do ovário policístico – e a gravidez dupla. Segundo a Dra. Eaton, tratamentos hormonais aumentam a chance de gêmeos, tornando mais provável que a mulher libere dois óvulos de uma única vez. “Mas mesmo com esses medicamentos, seria muito improvável que ela ovule, ocorra a fertilização, e ela ovule novamente”, diz a médica.

Sem saber todos os detalhes específicos do caso, diz a Dra. Christiansen, é impossível descartar a superfetação. Mas se a navalha de Occam serve de guia – o princípio de que a melhor a explicação para um fenômeno é a mais simples possível – a verdade sobre estas adoráveis ​​gêmeas australianas é provavelmente um pouquinho menos milagrosa do que a internet gostaria de acreditar.

Foto por Tatiana Vdb/Flickr