Em fevereiro, um avião caiu no meio de Taiwan. Esse acidente bizarro me fez questionar como seria presenciar um evento do tipo. Por isso resolvi conversar com Robert Young Pelton, o aventureiro lendário que sobreviveu a um acidente parecido. Esta é a história dele, e estes são seus conselhos de sobrevivência.

Pelton é o autor de uma série de guias de viagem intitulada Os Lugares Mais Perigosos do Mundo, e escreveu um dos guias de sobrevivência mais úteis do mercado, o Come Back Alive. Se você leva a sobrevivência a sério, é bom iniciar a leitura. Ele também fabrica facas muito legais.

Robert Young Pelton: Quando um avião cai, há dois impactos. O primeiro não é tão sério porque o avião ainda está em movimento e não atingiu nada diretamente. Você é catapultado, a gravidade desaparece e tudo dentro do avião começa a flutuar. É uma cena bizarra que te faz pensar, “Estou em um filme de ficção científica e nada vai acontecer!”. E aí vem o segundo impacto, quando o avião se choca contra o solo e todas as coisas que antes estavam flutuando se aceleram e viram pequenos projéteis. Quando o segundo impacto acontece, você percebe que está dentro de uma latinha de cerveja voadora; existem só uns pedacinhos de alumínio te protegendo do que está lá fora.

Giz: Fale mais sobre a queda.

RYP: Eu fiz uma coisa bem idiota. Eu queria conhecer uma tribo isolada no meio de Bornéu e ninguém queria me levar até lá. Então eu fui de aeroporto em aeroporto na Indonésia até encontrar esse avião de uma empresa de petróleo chamada Petronas. Era um Casa 212 com uma rampa na parte superior.

Eu perguntei, “Quanto vocês querem pelo avião?” E eles ficaram tipo, “Hmm, $12.000 dólares?”. Caro pra caralho, mas eu queria muito fazer essa viagem. Então eu usei meu cartão da American Express pra fazer um depósito, acho que de seis mil, e o avião veio com dois pilotos.

Nós decolamos e entramos de cara numa tempestade tropical que começou a sacudir o avião de um lado para o outro. Os pilotos começaram a falar, “Nós precisamos pousar, nós usamos combustível demais e não podemos voltar.”

Um dos pilotos estava me contando a história da vez em que ele voou até a Somália pra fazer uma entrega de combate, em que você dá um mergulho em alta velocidade, dá meia-volta no último segundo, joga a carga, pisa fundo no freio, joga para fora tudo que está na parte de trás do avião e continua a voar.

Nós saímos da tempestade e chegamos nesse pequeno buraco no centro; dava para ver o céu. Quando isso aconteceu, o piloto apontou para algo e começou a discutir com seu co-piloto. Eu olhei para baixo e vi uma espécie de descampado na selva. Não era uma pista de pouso. O piloto disse “Foda-se”, e mergulhou com tudo.

Eu fiquei tipo “Fudeu!”, e literalmente escalei até os fundos do avião e prendi o cinto de segurança com toda a força possível. A gente começou a cair, cair, cair e ele percebeu que estava pousando numa clareira do tamanho de um campo de futebol, ao lado de uma montanha. Uma péssima pista de pouso. O avião caiu no chão com muita força. Acho que ele até tentou levantar voo, mas o avião estava indo rápido demais.

Nós caímos numa floresta de bambu com árvores de sete centímetros de largura. As árvores destruíram o avião e arrancaram as rodas — tip, brrrrrrraaaaaappppp — e aí nós atingimos alguma coisa e paramos. A gente estava meio tonto e o piloto começou a gritar, “Baterias! Baterias! Não se mexam!”

Eu olhei pra fora da janela e vi um cara com uma mão atrofiada e um chapéu de palha em formato de cone segurando um bule e uma peixeira. Ele começou a coletar o combustível que vazava do avião. O combustível começou a vazar pelas asas e ele lá, guardando tudo no bule. Ele nem checou se nós estávamos vivos.

Eu tentei abrir a porta, mas ela estava travada, e mais pessoas apareceram. Elas estavam segurando pequenos potes e copos para guardar o combustível. Nenhuma delas falou com a gente.

Nós abrimos a porta e saímos no meio desse pequeno amontoado de pessoas que coletavam o combustível, e nenhuma delas sequer olhou pra a gente. O piloto vira para mim e diz, “É melhor você sumir daqui, quando o chefe da vila chegar você vai ter que desembolsar uma grana.”

Nós passamos os minutos seguintes tirando nossas coisas do avião. Eis que, 30 ou 40 minutos depois, aparece o chefe da vila tentando nos multar por pouso ilegal. Ele estava basicamente tentando nos extorquir.

O piloto começou a surtar. Ele estava preso no meio de Bornéu só com sua camisa branca engomadinha e seu co-piloto. E eu estava tipo, “Foda-se, vou cair fora. E se eles tentarem cobrar todo o valor do avião no meu cartão da American Express?!” Então nós alugamos uma canoa e fugimos.

E essa é a minha história de acidente de avião, mas a maioria das pessoas que morrem nesses acidentes tem histórias bem diferentes.

Giz: Qual seria seu conselho para sobreviver a um acidente desses?

RYP: Primeiramente, a maioria das pessoas sobrevivem à acidentes de avião. A porcentagem é tipo 95%, segundo alguns estudos.

Alguns tipos de voos tendem a ser mais perigosos que outros. Depende da geografia, do avião e da rota. Existem alguns horários com mais turbulência. Conhecer a probabilidade do seu avião cair também ajuda muito.

Alguns tipos de avião caem com mais frequência; voos internacionais são mais seguros do que andar pela rua. Essa é a primeira dica, e a segunda é: sentar do lado da saída. Eu já estive em alguns aviões que fizeram pousos de emergência; nenhum deles caiu, era sempre um incêndio no trem de pouso ou algo do tipo, e o pânico lá dentro… imagine 300 pessoas gritando, chorando e rastejando sobre as outras e tentando tirar suas bagagens do compartimento enquanto juram que vão morrer.

É bom sentar do lado da saída, dá para sair logo. E com o risco do fogo, da fumaça ou da água, sentar do lado da saída e sair antes de todo mundo faz muito sentido.

Se você voar em companhias aéreas baratas, seu avião vai cair. Se você voar de Nova Iorque para Dubai pela Air Emirates, seu avião não vai cair.

Ilustração: Michael Hession.