Pesquisas colocando porcos em tarefas computadorizadas não são novas — começaram lá na década de 1990. E, embora os resultados desses estudos tenham recebido cobertura ocasional da imprensa ao longo dos anos, nenhuma pesquisa revisada por pares sobre os experimentos tinha sido publicada até hoje. Isso mudou graças a um novo estudo, divulgado no jornal Frontiers in Psychology: os cientistas descobriram que, apesar das restrições visuais dos animais, os porcos foram capazes de entender e atingir objetivos em jogos simples.

“O que eles conseguiram fazer é ter um desempenho bem acima das chances de atingir esses alvos. Contudo, está muito claro que eles tinham algum entendimento conceitual do que estavam sendo solicitados a fazer”, disse por telefone Candace Croney, diretora do Centro de Ciência do Bem-Estar Animal da Universidade de Purdue, nos EUA, e principal autora do artigo.

A pesquisa publicada é fruto de cerca de 20 anos de trabalho, que começou quando Croney ainda era uma estudante trabalhando com o pesquisador de porcos Stanley Curtis. O projeto seguiu Hamlet e Omelete, dois porcos machos da raça Yorkshire, e Ebony e Ivory, dois mini porcos Panepinto, enquanto tentavam mover um cursor para uma área iluminada na tela do computador.

A pesquisadora Candace Croney com o porco Omelet, em 1997. Imagem: Eston Martz/Pennsylvania State University

O estímulo para que os animais continuassem é o mesmo usado para ensinar comandos aos cachorros: usando doces (no caso dos porcos) como recompensa. Através desses estímulos, os porcos eram condicionados a mover um controle usando seus focinhos e bocas enquanto assistiam o jogo na tela do computador. O objetivo era fazer com que os porcos usassem o joystick para mover um cursor na tela até colidir com uma parede e finalizar o jogo.

Todos os quatro porcos tinham visão de longo prazo e, por esse motivo, as telas tiveram que ser colocadas a uma distância ideal para que os porcos conseguissem visualizar os alvos. Havia limitações adicionais para os porcos Yorkshire, já que os animais dessa raça são mais pesados e ​​não conseguiam ficar em pé por muito tempo.

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Os porcos ainda aprenderam uma série de comandos para facilitar suas vidas, incluindo instruções semelhantes ao que você ensina a um cachorro – sentar, vir até o dono, esperar -, bem como buscar seus brinquedos quando o trabalho de jogar videogame acabasse.

“Apesar de algumas limitações físicas, os porcos entenderam claramente a conexão entre o próprio comportamento, o joystick e o que estava acontecendo na tela, tornando esta uma prova de sua flexibilidade cognitiva”, conta a neurocientista Lori Marino, que não está afiliada ao estudo recente. Marino, que dirige o Projeto Santuário de Baleias, há anos estuda a cognição, inteligência e autoconsciência dos mamíferos, inclusive em porcos.

“O que torna essas descobertas ainda mais importantes é que os porcos neste estudo demonstraram reconhecer que estavam recebendo ordens”, acrescentou Marino.

O porquinho Ebony brincando com o joystick. Imagem: Candace Croney

Quando a pesquisa foi concluída, os porcos Hamlet e Omelete foram adotados pelos donos de uma pousada, onde viveram suas vidas em uma fazenda. Ebony e Ivory, por sua vez, foram levados para um zoológico infantil. Croney disse que, mesmo tendo se passado anos após os experimentos, ela foi visitar Hamlet, que ouviu sua voz e “veio galopando” pelo pasto para dizer olá.

Os suínos podem não ter os dedos hábeis de um primata ou a aparência de um cachorrinho. No entanto, cognitivamente falando, competem quase de igual para igual com essas espécies.