Uma pesquisa do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) publicada na Nature indica que a quantidade de chuva pode ter sido reduzida pela metade em algumas regiões de Rondônia, norte do Mato Grosso e Pará. De acordo com o texto, 60% do espaço eram áreas florestais e agora são ocupadas por produtores de soja.

O desmatamento de áreas florestais é um assunto recorrente no mundo inteiro. E o Brasil, em 2020, liderava o ranking de país que mais devastou áreas florestais.  Impactos ambientais, mudanças climáticas, escassez de água, tudo consequência do desflorestamento em busca de expansão agrária.

Mas, para o principal autor do trabalho, o engenheiro florestal Argemiro Teixeira Leite-Filho, “financeiramente não compensa desmatar para produzir”. Ele explica o porquê: “Em poucos anos, a perda causada pela redução das chuvas será maior que o ganho de produção decorrente do aumento da área plantada.”

Os pesquisadores da UFMG, coordenados pelo geólogo Britaldo Soares-Filho, usaram informações do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Brasileira por Satélite (Prodes) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM) da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, de 1999 a 2019 para analisarem as imagens e dados que sugerem a perda de vegetação nativa e escassez de chuva.

Hoje, o Brasil é o maior produtor de soja do mundo, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).  Mas o estudo indica que a redução da chuva pode causar a perda de 5,7 bilhões de reais na produção de carne e soja na região amazônica.

“A ciência já alerta para a possibilidade há mais de 10 anos, mas esse trabalho é o primeiro a quantificar o prejuízo econômico decorrente da diminuição da chuva”, diz o físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) à publicação.

A precipitação da chuva é causada por uma situação chamada albedo, que é capacidade de refletir a luz solar, e também pela queda na umidade liberada pela vegetação nas áreas desmatadas em comparação com a das florestas. Contudo, Leite-Filho explica que “neste ano ainda está chovendo bastante no sul da Amazônia, por causa do La Niña (resfriamento das águas da região equatorial do oceano Pacífico), mas em anos de El Niño (aquecimento do Pacífico equatorial) a diminuição da chuva pode intensificar a seca”.

Em contrapartida, um dos autores do estudo, o meteorologista Luiz Augusto Machado disse à publicação que “as áreas desmatadas ficam mais quentes, o albedo muda e surgem circulações de correntes de ar que favorecem o aumento da chuva”.

Sem vegetação nativa esse efeito tende a desaparecer. “Quando o desmatamento alcança grandes proporções, com a perda da vegetação nativa em centenas de hectares, o efeito da circulação atmosférica local torna-se muito limitado e ocorre claramente uma redução da precipitação”, completa Machado.

Outros impactos

De acordo com Leite-Filho, o desmatamento também tem aumentado a frequência e a duração dos ‘veranicos’. Esses períodos são mais secos e mais curtos em épocas de chuva e podem, também, prejudicar o trabalho agrícola.  Segundo Leite-Filho, em seu artigo publicado no International Journal of Climatology, pode haver o adiantamento e o encurtamento de estações chuvosas em até 30 dias no sul da Amazônia. Ele alerta que as chuvas que acontecem nessa região, geralmente em setembro e vão até abril do ano seguinte, indicam o melhor período para a plantação.

Apesar de o Brasil ser o maior produtor de soja do mundo, em 2020, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou que as chuvas irregulares e em uma quantidade 50% menor que a média desde agosto já haviam causado uma perda de 7,3 milhões de toneladas de grãos, principalmente soja, milho e arroz, em todo o país na safra 2020/21. “O desmatamento de um ano faz a produtividade cair já no ano seguinte”, explica Leite-Filho.

Todavia, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) destaca que o complexo soja (grão, óleo e farelo) foi o principal produto da pauta exportadora, com 35,24 bilhões de dólares. Mas, para Artaxo, isso não é o suficiente. “Se o desenvolvimento brasileiro depender da venda de carne, soja e outras commodities agrícolas a serem produzidas no Brasil Central, é melhor preservar a Amazônia para continuar a ter chuva abundante na região”, alertou.

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E não só isso. O meteorologista ainda alerta que a precipitação das chuvas não impacta somente as áreas de agropecuária, como outras regiões do Brasil.  “O prejuízo é muito maior se considerarmos que o desmatamento na Amazônia reduz drasticamente a chuva nas regiões Sul e Sudeste”, alerta Machado.

[Revista Pesquisa Fapesp]