Mais de dois mil bebês nos Estados Unidos nasceram com sífilis em 2020, de acordo com dados apresentados por pesquisadores do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Na  pesquisa publicada no New England Journal of Medicine na semana passada, os autores do CDC forneceram dados mais atualizados sobre essas infecções, sendo o maior número anual de sífilis congênita (presente desde o nascimento) relatado desde 1994. Pelo menos 139 crianças morreram da doença no ano passado.

A sífilis é uma doença bacteriana causada pelo Treponema pallidum, normalmente transmitida por meio de relações sexuais. Em adultos, a infecção causa sintomas iniciais como uma ferida indolor perto do local da infecção, geralmente nos órgãos genitais, reto ou boca. Após algumas semanas, a ferida cicatriza sozinha, mas as pessoas podem apresentar erupções cutâneas, inchaço dos gânglios linfáticos e febre. No entanto, esses sintomas podem ser tão leves que as pessoas não percebem. E se a infecção não for tratada com antibióticos, pode entrar em um período latente, onde não ocorrem sintomas.

Algumas pessoas com sífilis latente podem experimentar um terceiro estágio anos a décadas depois, no qual a doença causa sérios danos aos órgãos. Se a sífilis atingir o cérebro, pode causar demência e outros sintomas neurológicos irreversíveis, mesmo depois que a infecção for finalmente tratada.

Infelizmente, a sífilis pode ser transmitida da mãe para o feto durante a gravidez, frequentemente acompanhada de complicações graves. A infecção aumenta o risco de aborto espontâneo, a criança pode morrer dentro do útero ou durante o trabalho de parto, defeitos congênitos e parto prematuro. Bebês também podem morrer logo após o nascimento, enquanto alguns podem não apresentar sintomas inicialmente, mas adoecem dois a cinco anos depois.

Nos últimos anos, os Estados Unidos têm experimentado um aumento no número de infecções sexualmente transmissíveis, incluindo a sífilis. E, à medida que os casos em adultos aumentam, também aumentam os casos de sífilis em bebês. 

Apesar dos números serem relativamente pequenos, eles representam a maior incidência anual relatada nos Estados Unidos em 25 anos, mais do que isso; ainda há uma tendência no aumento de casos. A disseminação da sífilis congênita também cresceu, disseram os autores. Em 2010, os casos foram relatados em 27% de todos os condados dos EUA; em 2020, esse número subiu para 50%, com casos em 47 estados e em Washington, e isso pode aumentar porque alguns casos provavelmente serão adicionados ao relatório de 2020, que terminará no próximo mês.

“O ressurgimento da sífilis entre as mulheres e sua disseminação para áreas não afetadas anteriormente enfatizam o fato de que a doença congênita pode ocorrer em qualquer lugar”, escreveram os pesquisadores.

Essas tendências preocupantes nas doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) começaram a acontecer antes da pandemia da Covid-19, mas não parecem ter sido impedidas por ela. Os dados do CDC mostraram que os casos diminuíram substancialmente durante a primeira metade do ano, quando as restrições ao movimento e ao contato pessoal eram mais rígidas. Mas os casos dispararam no final do ano, cancelando o declínio inicial e possivelmente até levando a outro aumento anual na incidência de DST. Isso pode ter acontecido como resultado de restrições sendo relaxadas ao longo do tempo, bem como interrupções relacionadas à pandemia que aumentaram nosso risco de outras maneiras, como menos pessoas fazendo o teste de DSTs do que o normal.

Em julho passado, o CDC relatou que a incidência de casos de sífilis relatados em 2020 era apenas 1% menor do que era em 2019, com base em dados analisados ​​até o início de dezembro do ano passado. Portanto, é possível que os dados finais do CDC apresentem um aumento geral em casos da doença em adultos no ano passado, assim como agora há um aumento contínuo da sífilis congênita. Em 2019, havia 129.813 casos notificados de sífilis no total.

Em última análise, dizem os autores, a maneira mais eficaz de prevenir a sífilis congênita é prevenir a doença na comunidade em geral. Mas as grávidas devem receber mais atenção, especialmente porque essa DST congênita ainda pode ser prevenida por meio de um tratamento antibiótico em tempo hábil até um mês antes do parto. O CDC já recomenda que todas as gestantes sejam examinadas em sua primeira consulta pré-natal para que haja diagnóstico precoce da patologia, enquanto aquelas que têm maior risco ou que vivem em áreas de transmissão mais alta devem fazer exames adicionais na 28ª semana e no parto.

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Por mais assustadores que sejam esses números, eles não são inevitáveis. Durante o auge da epidemia de HIV/AIDS nos Estados Unidos durante os anos 1980 e início dos anos 1990, observam os autores, os casos anuais de HIV congênito eram tão altos quanto são atualmente para a sífilis. Mas, como resultado de esforços dedicados para limitar a transmissão do HIV na comunidade, melhorar o rastreamento das mães e implantar tratamentos que podem prevenir a transmissão de mãe para filho, os Estados Unidos registraram menos de 40 casos de HIV congênito em 2019.

“Um comprometimento semelhante de recursos poderia reduzir ou eliminar a sífilis congênita”, disseram os autores.