De acordo com uma reportagem do Wall Street Journal, o governo dos Estados Unidos, que diz que a Huawei tem fortes ligações com o governo chinês, tem provas de que a companhia tem a habilidade de espiar os usuários de redes móveis de celular com seus equipamentos. A afirmação vem após anos de acusação dos EUA e repetidas negações da Huawei.

Embora a Huawei seja uma das maiores vendedoras de smartphones do mundo, o seu negócio original consiste na construção de redes de telecomunicações. No entanto, os Estados Unidos baniram os equipamentos da empresa de serem usados em suas redes de telecomunicações. Um relatório do congresso de 2012 baniu efetivamente a Huawei de vender equipamentos no país e desencorajou fortemente que companhias vendam celulares da fabricante em suas lojas.

A preocupação dos EUA vinha dos laços da Huawei com o governo chinês — o seu fundador é um antigo militar do país da Ásia — e também uma boa dose de protecionismo. A empresa tem estado bem posicionada neste ramo, fornecendo equipamento para a implementação de redes 5G acessíveis e rápidas.

“Não tenho dúvidas de que o escrutínio extra que a Huawei tem sido alvo ultimamente tem a ver com o ambiente político entre a China e os Estados Unidos, bem com as altas apostas em torno de inteligência artificial e do 5G”, disse Lynette Ong, professora associada de ciência política na Universidade de Toronto, por e-mail, no ano passado. Ong é especialista em política e economia política chinesa.

No ano passado, os EUA e a Huawei trocaram farpas por causa das preocupações dos EUA e de uma suposta espionagem, fraude e violação das sanções internacionais contra o Irã. A briga levou a Austrália e a Nova Zelândia a proibirem o uso de equipamentos Huawei em suas redes de telecomunicações.

No entanto, algumas das maiores operadoras de telecomunicações do mundo, incluindo a Vodafone, sediada no Reino Unido, e a alemã Deutsche Telekom usam equipamentos da empresa chinesa.

Autoridades dos EUA afirmam agora que a Huawei incluiu backdoors no equipamento que permite que autoridades chinesas acessem os mesmos dados que as autoridades policiais podem acessar. Normalmente, esses backdoors, conhecidos como “interfaces de interpretação legal”, são utilizados exclusivamente pelas autoridades policiais, que devem fornecer garantias para obter o acesso. O equivalente à escuta telefônica, essas interfaces de interceptação legal dão ao usuário acesso a quaisquer dados transmitidos através da rede, incluindo chamadas telefônicas e mensagens de texto.

Naturalmente, os provedores de equipamentos não devem ter acesso e devem construir o equipamento de tal forma que não possam obter acesso a essas informações. Mas os Estados Unidos acusam a Huawei de fazer exatamente isso.

Segundo o Wall Street Journal, os EUA levaram suas últimas provas para reuniões de portas fechadas com autoridades e empresas de telecomunicações no Reino Unido e na Alemanha. Um memorando confidencial escrito pelo Ministério de Relações Exteriores da Alemanha e obtido pelo Wall Street Journal caracteriza a prova apresentada na reunião como uma “bala de prata” contra a empresa.

No entanto, publicamente, essas empresas e funcionários do governo são um pouco reticentes. A Vodafone negou a qualquer fabricante o acesso à sua rede dessa forma, enquanto a Deutsche Telekom AG disse ao WSJ que uma empresa alemã tinha desenvolvido a sua interface de interceptação legal e, portanto, a Huawei não podia acessar a mesma.

Mas não cabe necessariamente às empresas que querem continuar a usar equipamentos bem projetados e super baratos construídos pela Huawei. Os legisladores alemães estão planejando votar um projeto de lei nas próximas semanas que poderá dar à Huawei a capacidade de fornecer equipamentos para as novas redes 5G da Alemanha.

O projeto se tornou um ponto de discórdia entre a Alemanha e a China, com a China ameaçando “consequências” se isso acontecer. A revelação desta “bala de prata” dos Estados Unidos que ainda ninguém conseguiu comprovar aparece em um período bastante peculiar.