Os Neandertais costumavam usar fogo regularmente, mas os arqueólogos não têm certeza se os hominídeos extintos eram capazes de começar o fogo ou se as chamas provinham de fontes naturais. Novas evidências geoquímicas sugerem que os Neandertais possuíam de fato a capacidade cultural de atear fogo e fazer churrascos paleolíticos.

Fico envergonhado em admitir, mas se eu estivesse perdido na natureza e precisasse de fogo, é bem provável que iria passar frio, a menos que tivesse um isqueiro ou um fósforo. Na verdade, a capacidade de conjurar chamas ainda me parece mágica – então, imagina o que a capacidade de fazer fogo do nada deveria significar para os primeiros humanos.

Em algum momento, nossos antepassados aproveitaram o poder do fogo para se aquecerem, cozinhar alimentos, produzir novos materiais, afastar predadores e iluminar cavernas escuras. E, é claro, ele permitiu que se formasse uma ligação social: o círculo da fogueira.

As evidências

Evidências arqueológicas sugerem que hominídeos de vários tipos usavam fogo já há 1,5 milhão de anos, mas ninguém realmente sabe como eles adquiriram esse fogo. Essa habilidade muda alguns paradigmas – tanto a habilidade de iniciar intencionalmente o fogo, como controlá-lo. Conhecida como pirotecnia, ela é tradicionalmente considerada o domínio exclusivo de nossa espécie, Homo sapiens.

Mas como novas evidências apresentadas esta semana na Scientific Reports sugerem, os Neandertais tinham a capacidade de fazer o próprio fogo. Usando evidências de hidrocarbonetos e isotópicos, pesquisadores da Universidade de Connecticut demonstraram que alguns Neandertais que usavam fogo tinham pouco contato com incêndios florestais, então a única maneira possível de ter fogo era fazê-lo.

“Presumia-se que o fogo era de domínio do Homo sapiens, mas agora sabemos que outros humanos antigos como Neandertais poderiam criá-lo”, disse Daniel Adler, co-autor do novo estudo e professor associado de antropologia da Universidade de Connecticut, em um comunicado à imprensa. “Então, talvez não sejamos tão especiais assim”.

Sabemos que os Neandertais e outros hominídeos usaram o fogo com base em evidências arqueológicas como fossas de fogo e ossos de animais carbonizados. Há evidências que mostram que os Neandertais tinham os materiais necessários para criar fagulhas – a evidência, no caso, são blocos de dióxido de manganês (raspas deste material podem ajudar na produção de fogo, uma vez que pode ser incendiado a temperaturas mais baixas em comparação com outros materiais).

Dito isso, evidências concorrentes da França ligavam o uso do fogo pelos Neandertais a períodos mais quentes, quando as florestas são densas com material inflamável e quando as probabilidades de ocorrência de raios são fatores de maior importância para determinar a probabilidade de incêndios florestais. Essa e outras evidências têm sido usadas para afirmar que os Neandertais não eram capazes de fazer fogo, pois seria fácil para eles pegarem as chamas a partir de arbustos incendiados naturalmente.

O método

Para o novo estudo, Adler e seus colegas procuraram testar essa hipótese, ou seja, determinar se o uso do fogo entre os Neandertais poderia realmente ser correlacionado com a ocorrência de incêndios naturais.

Um componente crítico dessa pesquisa é uma molécula chamada hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs). Os PAHs são liberados quando os materiais orgânicos são queimados e podem fornecer um registro de fogo ao longo de escalas temporais geológicas.

Eles também vêm em duas variedades: leves e pesados. O tipo leve, as LPAHs, podem percorrer grandes distâncias, enquanto o tipo pesado, as HPAHs, permanecem concentradas.

Para o estudo, os pesquisadores analisaram os LPHAs encontrados dentro da Caverna Lusakert 1 na Armênia – uma conhecida caverna de Neandertais – como evidência do uso do fogo, e os HPHAs encontrados fora da caverna como evidência de incêndios florestais.

Os cientistas também analisaram dados isotópicos obtidos de plantas fossilizadas, especificamente da cera encontrada nas folhas, para determinar como eram as condições climáticas na época.

Foram analisadas 18 camadas sedimentares da Caverna Lusakert 1, num período de 60 mil a 40 mil anos atrás. Os HPHAs nestas camadas, juntamente com outros dados arqueológicos, apontaram para o uso prolongado do fogo pelos Neandertais na caverna.

Durante o mesmo período, entretanto, incêndios fora da caverna foram raros. Além disso, os dados isotópicos não apontavam para nada particularmente incomum em termos de condições ambientais favoráveis ao fogo, como aridez excessiva.

Isso levou os autores a “rejeitar a hipótese” de que o uso do fogo entre os neandertais era “baseado em sua ocorrência natural no ambiente regional”, segundo o artigo. As novas evidências apontam para o “uso habitual” do fogo por Neandertais “durante períodos de baixa frequência de incêndios”, como escreveram os autores do estudo.

O químico e co-autor do estudo Alex Brittingham descreveu a descoberta dizendo que “parece que [os Neandertais] foram capazes de controlar o fogo fora da disponibilidade natural dos incêndios.”

Os poréns

Um desafio enfrentado pelos pesquisadores foi pegar todos esses dados e mantê-los dentro do mesmo período de tempo.

“Em um contexto arqueológico como o que encontramos na caverna Lusakert, somos obrigados a responder a todas as perguntas em períodos de tempo mais longos”, disse Brittingham em um e-mail ao Gizmodo. “Assim, todos os dados que apresentamos nesta publicação, quer se trate do clima a partir das ceras foliares, dos dados de incêndio dos PAHs, ou dos dados sobre a ocupação humana a partir da análise lítica, levam em consideração a média temporal. Assim, quando comparamos esses conjuntos de dados independentes, os comparamos entre diferentes camadas estratigráficas identificadas”.

Apesar disso, é importante notar que o estudo apresenta evidências indiretas que apoiam a ideia de que os Neandertais dominavam a pirotecnia, em oposição a evidências diretas, como os blocos de dióxido de manganês ou outras pistas anteriores. Mais evidências serão necessárias que essa nova hipótese se fortaleça, mas o estudo já dá um bom passo nessa direção.

Outra limitação potencial dessa pesquisa é a possibilidade de que os materiais sedimentares tenham se deslocado ao longo dos anos, ou se degradado ou diluído por meio dos processos de erosão.

“No entanto, dada a boa preservação de outros hidrocarbonetos no local, não acreditamos que isso seja um problema”, disse Brittingham ao Gizmodo.

O fato de os Neandertais terem tido a capacidade de criar fogo não seria um grande choque. Esses hominídeos demonstraram a capacidade de pensar abstratamente, como mostram suas pinturas rupestres. Eles também forjaram ferramentas e fabricaram a própria cola, então eram bastante criativos.

Além disso, conseguiram sobreviver em grande parte da Eurásia durante 360 mil anos. A ideia de que eles sobreviveram por tanto tempo sem a capacidade de criar fogo ou que a sua extinção estava de alguma forma ligada à falta de capacidade pirotécnica parecem ser as conclusões mais improváveis.