Meng Wanzhou, a executiva da Huawei que foi presa no Canadá para extradição para os Estados Unidos sob alegações de fraude financeira e violações de sanções, foi liberada sob fiança de US$ 7,5 milhões, informou a CNN nesta terça-feira (11).

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Meng, diretora financeira da Huawei e filha do fundador da empresa, Ren Zhengfei, pode enfrentar décadas de prisão se for extraditada para os EUA e condenada pelas acusações de que teria mentido a instituições financeiras para ajudar a liberar transações que violariam sanções internacionais contra o Irã.

Os promotores afirmam que Meng mentiu aos bancos como parte de um esquema para ajudar a Skycom — sediada em Hong Kong e, na prática, subsidiária da Huawei, segundo eles — a tentar vender equipamento HP embargado a empresas de telecomunicações iranianas. Por sua vez, Meng insiste que a Huawei cortou os laços com a Skycom em 2009.

De acordo com a CNN, Meng concordou em entregar seus passaportes, pagar por um serviço de segurança 24 horas por dia, sete dias por semana para sua casa em Vancouver e usar uma tornozeleira com GPS. Ela também será obrigada a permanecer na residência de Vancouver entre as 23h e as 6h da manhã todos os dias.

A equipe de defesa de Meng insistiu que ela não representa risco de se tornar fugitiva, argumento que isso a humilharia, a seu pai, à Huawei e ao governo chinês. A CNN escreveu que seus advogados também fizeram um acordo no qual outros canadenses que a conheciam dariam garantias para o pagamento da fiança de US$ 7,5 milhões:

Na terça-feira (11), a equipe jurídica de Meng propôs que os termos de sua liberação pudessem incluir compromissos financeiros de pessoas no Canadá que a conhecem, como um corretor de imóveis e um agente de seguros. Juntos, eles prometeram mais de C$ 3 milhões (US$ 2,2 milhões) em capital e home equity, caso Meng fuja. Seu marido também se ofereceu a colocar as duas casas do casal em Vancouver à disposição.

O juiz concordou com esses termos. Da fiança de C$ 10 milhões de Meng, C$ 3 milhões são prometidos por seus fiadores. Os outros C$ 7 milhões (US$ 5,2 milhões) serão um depósito em dinheiro de Meng.

O caso de Meng chamou a atenção internacional porque surgiu no meio de uma guerra comercial entre Estados Unidos e China que só recentemente chegou a uma trégua hesitante (mais uma pausa na escalada, já que uma negociação de 90 dias para as questões mais sensíveis continua).

A sua detenção supostamente provocou uma ira generalizada na China, particularmente entre os ricos e influentes. Alguns suspeitas que a detenção foi uma espécie de demonstração de poder dos EUA com o objetivo de enfraquecer uma das maiores empresas do país e as suas ambições de se tornar uma potência global de telecomunicações. As autoridades chinesas alertaram para “graves consequências” se Meng não for libertada.

Embora o governo chinês aparentemente também esteja tentando não deixar o assunto contaminar todo o processo de negociação, o caso ainda está aumentando a tensão inerente aos acordos — e, para piorar ainda mais as coisas, alguns funcionários da Casa Branca já mencionaram a possibilidade de que Meng poderia ser usada como moeda de troca.

Se eles realmente fizerem isso, conforme argumenta a Slate, a resposta mais provável da China seria indignação com “uma violação extraordinária da convenção diplomática” e a percepção de que os EUA haviam literalmente feito uma pessoa como refém (Donald Trump sugeriu recentemente que interviria no caso “se for bom para o que será certamente o maior acordo comercial já feito”).

O Canadá diz que está apenas cumprindo com os termos dos tratados de extradição, e, oficialmente, os Estados Unidos dizem que o momento da prisão não está relacionado com as negociações comerciais. Como apontou o Washington Post:

Embora o momento pareça ser uma coincidência — o mandado de prisão de Meng foi datado de 22 de agosto —, a China vê o caso como uma tentativa de garantir uma vantagem na atual guerra comercial entre os EUA e a China e pediu a libertação imediata de Meng.

Uma intervenção de Trump parece confirmar a suspeita da China de que este não é um processo legal, mas uma negociação política, alterando potencialmente os termos do conflito.

Além disso, as agências de inteligência dos EUA alegaram (com pouca evidência concreta) que a Huawei e outras empresas chinesas como a ZTE podem estar manipulando seus produtos para espionagem corporativa ou estatal. Por anos, a Huawei vem expandindo rapidamente seus negócios de telecomunicações e 5G em mercados estrangeiros, e os EUA e alguns de seus aliados têm respondido deixando a Huawei de fora de expansões de rede e compras governamentais.

Se Meng for extraditada, o processo provavelmente levará um mínimo de meses — como observou a CNN, os Estados Unidos têm 60 dias a partir da data de sua detenção de 1º de dezembro para fornecer um “pedido formal de extradição e documentos de apoio”, e os tribunais canadenses terão 30 dias para analisá-lo. Mas a batalha legal pode se arrastar por anos, à medida que Meng esgota várias rodadas de recursos. Seus advogados podem impedir a transferência se os tribunais canadenses concordarem que a prisão foi motivada por pressão política ou viés racial, por exemplo.

Alguns executivos dos EUA e da China estão cada vez mais desconfiados sobre realizar viagens entre os dois países, principalmente por medo de detenções retaliatórias, escreveu a Bloomberg.

Em uma reviravolta bizarra, a imprensa canadense noticiou que indivíduos desconhecidos invadiram a casa de Meng no domingo (9), mas fugiram depois de serem confrontados por alguém que estava lá dentro. A polícia alega estar investigando o incidente, mas ainda não divulgou nenhum detalhe.

[CNN]