O projeto de criptomoeda Libra do Facebook vem avançando a todo vapor em direção a um iceberg do tamanho de um sistema regulatório financeiro global há um tempo. Mas a empresa pode estar tentando mudar de rumo após finalmente perceber que o iceberg irá ganhar.

Segundo uma reportagem de terça-feira (3) do Information, fontes dizem que a Libra Association, apoiada pelo Facebook, ainda lançará o produto central para todo o projeto: Libra, uma criptomoeda baseada em blockchain que seria administrada por um consórcio global de empresas financeiras e de comércio eletrônico. Mas agora também é esperado o lançamento de equivalentes digitais de outras moedas emitidas pelo governo, como o dólar americano e o euro, que funcionariam na rede de pagamentos Libra.

O Facebook, o principal parceiro do empreendimento, ainda lançará uma carteira digital (Calibra), na qual os usuários podem armazenar a Libra. Mas as fontes do Information disseram que o Facebook agora decidiu que a Calibra também funcionará com os equivalentes da moeda digital e que os “enfatizará” no lançamento da Libra.

Além disso, embora o Facebook pretenda integrar a Calibra ao WhatsApp e sua plataforma Messenger, a carteira digital também poderá ser bloqueada em alguns lugares para impedir que os usuários efetuem transações em outras moedas que não locais. Embora a Calibra estivesse programada para ser lançada em junho, as fontes do Information agora dizem que ela foi adiada para outubro.

O Facebook anunciou originalmente a Libra em junho de 2019, com planos de que seria apoiada por várias moedas internacionais e vários ativos (tornando-o uma “moeda estável”, supostamente à prova de flutuações violentas de outras criptomoedas como o Bitcoin). Todo o plano para a Libra foi baseado em utilizar os bilhões de usuários da rede social para rapidamente aumentar sua escala. Esse argumento foi criticado por reguladores financeiros de todo o planeta, que estão compreensivelmente preocupados com o fato de uma empresa conhecida por sua série interminável de erros estar tentando lançar um sistema financeiro sombrio fora de seu controle.

No mês passado, houve rumores de que a Libra Association estava planejando atrelar seu valor ao dólar americano, como uma forma de aliviar as preocupações dos reguladores dos EUA, que estão hesitantes em relação ao fato de o Facebook lançar uma moeda privada apoiada por reservas estrangeiras. Oferecer equivalentes digitais de uma moeda emitida pelo governo é uma concessão muito maior, observou o Information. Se as alternativas locais estiverem disponíveis, os usuários podem simplesmente optar por…não comprar a Libra.

Além disso, o ambiente regulatório que o projeto enfrenta não parou e provavelmente se tornou mais hostil ao longo do tempo, graças à pura audácia do plano. Em setembro de 2019, um funcionário do Banco Central Europeu acusou a Libra Association de ser “semelhante a um cartel”. Em outubro de 2019, um grupo de trabalho declarou que projetos como a Libra poderiam causar estragos em todo o planeta e que não deveriam continuar até preocupações sobre regulamentações (incluindo seu uso potencial para lavagem de dinheiro e terrorismo, garantias de privacidade, como seria tributado e quais serviços financeiros o Facebook pretende construir em torno dele) forem abordados.

O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, apareceu no Congresso em outubro de 2019, na tentativa de acalmar as coisas; ele foi interrogado principalmente sobre os escândalos enfrentados por sua empresa. De acordo com a Bloomberg, funcionários do Departamento do Tesouro continuaram questionando o Facebook e a associação sobre a possibilidade de lavagem de dinheiro, enquanto alguns envolvidos no projeto ficaram preocupados que a SEC (Securities and Exchange Commission) considere a Libra um título. Isso seria um pesadelo para a Libra, que passaria de uma rede de pagamentos para algo muito mais difícil.

Vários dos mais conceituados patrocinadores da Libra Association, como PayPal, eBay, Stripe, Visa e Mastercard, abandonaram o projeto. Ainda não está claro por que, ao contrário da maioria das redes de pagamento concorrentes, o Facebook e a associação decidiram optar por uma moeda baseada em blockchain. Como o Ars Technica observou, embora o Facebook tenha se afastado de sua visão da Libra como uma “rede totalmente aberta e descentralizada” na tentativa de satisfazer os reguladores, ele também introduziu novos obstáculos potenciais, como a necessidade de examinar os desenvolvedores de terceiros ou a conformidade com a lei local em centenas de países.

“A Associação Libra não alterou seu objetivo de construir uma rede global de pagamentos em conformidade com os regulamentos, e os princípios básicos de design que sustentam esse objetivo não foram alterados assim como o potencial para essa rede promover inovações futuras”, disse um porta-voz da associação à Ars Technica.

Parece que tudo está indo bem e não há necessidade de entrar em pânico; a Libra só precisa que todos subam ao convés e coloquem um colete salva-vidas, apenas no caso improvável de tal complicação surgir.