Por quase dois anos, o FBI operou de maneira clandestina uma plataforma de comunicação criptografada chamada “Anom”, que era usada quase exclusivamente por traficantes de drogas e pelo crime organizado. Agora, esse mesmo aplicativo, que atuou como um espião entre essas facções, ajudou a prender centenas de criminosos em quase 20 países. As informações foram divulgadas por uma declaração federal aberta ao público e compartilhadas com o Gizmodo US pelo pesquisador acadêmico Seamus Hughes.

O aplicativo de bate-papo parecia oferecer aos criminosos um meio de comunicação privado e seguro enquanto eles se envolviam em suas transações ilícitas. Documentos judiciais alegam que o FBI desenvolveu um relacionamento confidencial com o desenvolvedor do produto e usava o app como uma porta direta para suas redes sombrias.

Ao todo, o Anom permitiu que os agentes monitorassem 11,8 mil dispositivos em 90 países, envolvendo atividade de até 300 organizações criminosas transnacionais distintas. Esses grupos incluíam “crime organizado italiano, gangues de motociclistas fora da lei e várias fontes, transporte e células de distribuição internacionais de narcóticos”. No total, as autoridades afirmam ter coletado mais de 20 milhões de mensagens e mais de 450 mil fotos da plataforma criptografada, muitas das quais parecem detalhar as cadeias de suprimentos e práticas comerciais dos traficantes de drogas transnacionais.

Toda essa operação faz parte de uma ação de aplicação da lei coordenada globalmente por vários países, e foi apelidada de “Escudo de Troia”. Como uma espécie de honeypot gigantesco, o “Trojan” envolve não apenas o FBI, mas também a Polícia Federal Australiana (AFP), a Europol e outras autoridades nos países onde os criminosos atuavam. Segundo a AFP, a investigação levou a acusações de mais de 800 membros do crime organizado em 17 países, acrescentando que as “comunicações criptografadas” quebradas pela polícia aparentemente envolviam “conspirações para matar, tráfico em massa de drogas e distribuição de armas”.

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Operação Escudo de Troia

Inicialmente, o FBI foi capaz de sequestrar a plataforma Anom comprometendo um criminoso de alto nível que estava envolvido no desenvolvimento de produtos para a indústria de comunicações criptografadas. O relacionamento com a fonte começou em 2018, não muito depois de o FBI ter conduzido uma investigação sobre a Phantom Secure, uma empresa de telefonia criptografada que vendia seus produtos “exclusivamente para membros de organizações criminosas”.

Na época, o informante confidencial estava envolvido na criação de um produto de comunicações criptografadas de “próxima geração” — no caso, o Anom. Os documentos da investigação afirmam que o serviço estava pronto para competir com outras soluções de criptografia que já eram amplamente usadas por criminosos.

A fonte também “distribuiu os dispositivos Phantom Secure e Sky Global para TCOs [organizações criminosas transnacionais] e investiu uma quantia substancial de dinheiro no desenvolvimento de um novo dispositivo criptografado reforçado”. Posteriormente, o informante “ofereceu este dispositivo de próxima geração, denominado ‘Anom’, para o FBI usar em investigações em andamento”.

Captura de tela: Lucas Ropek/Gizmodo

Os documentos revelam não apenas uma operação massiva e astuta de aplicação da lei, mas também a natureza sofisticada e de alta tecnologia da atividade criminosa internacional. Mais recentemente, a polícia desmantelou a Sky Global, cujo CEO é acusado de fornecer tecnologia de criptografia para cartéis de drogas internacionais. Ao mesmo tempo, processos e investigações estão em andamento nas supostas redes criminosas que usaram o EncroChat, outra plataforma criptografada que a polícia conseguiu se infiltrar no ano passado.

“A investigação do Escudo de Troia revelou como as organizações criminosas compartimentam suas atividades com várias marcas de dispositivos criptografados protegidos. Um objetivo da investigação é abalar a confiança em toda a indústria, porque o FBI está disposto e é capaz de entrar neste espaço e monitorar as mensagens”, diz o documento da declaração federal.