Novas pesquisas nesta semana parecem mostrar que os fetos humanos desenvolvem vários músculos nas pernas e braços que desaparecem no momento em que nascem. E alguns desses músculos foram vistos pela última vez em nossos ancestrais adultos há mais de 250 milhões de anos.

A jornada evolutiva de qualquer espécie está repleta de desvios e becos sem saída. Os seres humanos, por exemplo, têm partes vestigiais do corpo que antes serviam a uma função, mas são efetivamente inúteis hoje em dia (o apêndice é tipicamente apontado como um órgão vestigial, embora um exemplo melhor possa ser nossos dentes do siso). Muitos animais também formam partes do corpo no início do desenvolvimento que desaparecem em grande parte ou totalmente antes do nascimento, como o cóccix nos seres humanos.

Mas, de acordo com os autores deste novo estudo, publicado na revista Development, não conseguimos acompanhar a formação dessas partes temporárias do corpo em humanos com grandes detalhes. Usando técnicas avançadas de imagem 3D, os autores dizem que foram capazes de fornecer a imagem mais nítida ainda do crescimento inicial de nossos membros – e é algo bem estranho.

A vista dorsal da mão esquerda de um embrião humano de 10 semanas de idade, com as dorsometacarpales destacadas. Imagem: Rui Diogo, Natalia Siomava e Yorick Gitton (Development)

Na mão e no pé de um feto de sete semanas de idade, por exemplo, eles foram capazes de encontrar 30 músculos individuais. Porém, na 13ª semana de gestação, um terço dos músculos havia desaparecido ou fundido. Um par desses músculos atávicos, como são conhecidos, é chamado de dorsometacarpal. E, embora ainda seja encontrado em muitos animais hoje, incluindo lagartos e salamandras, parece ter deixado de aparecer em nossos ancestrais adultos há 250 milhões de anos.

“O que é fascinante é que observamos vários músculos que nunca foram descritos no desenvolvimento pré-natal humano, e que alguns desses músculos atávicos foram vistos mesmo em fetos com 11,5 semanas de idade, o que é notavelmente atrasado para os atavismos do desenvolvimento”, afirmou Rui Diogo, autor do estudo e biólogo evolucionário da Universidade Howard, em Washington DC, em um comunicado dos publicadores do estudo.

Esses órgãos e partes remanescentes são uma ilustração bacana de como a evolução funciona por um longo período de tempo. Embora não precisemos mais de um rabo, nossos genomas ainda contêm uma “planta” para tal. E eles ainda podem reaparecer se alguém nascer com uma mutação rara ou for exposto a algo no útero que prejudique seu desenvolvimento.

Embora esses músculos em particular provavelmente não causem muitos danos se você nascer com eles, os autores afirmam que suas pesquisas reforçam que essas variações e anomalias podem ser causadas pelo atraso ou interrupção no desenvolvimento de um feto no útero. E talvez mais do que tudo, disse Diogo, as descobertas fornecem “um exemplo fascinante e poderoso da evolução em movimento”.