Por anos, cientistas do clima vêm alertando sobre a crescente probabilidade de que a floresta amazônica, agora uma das maiores absorvedoras de carbono do mundo, possa se tornar uma fonte desse elemento em apenas 15 anos. Mas uma nova pesquisa sugere que isso já pode estar acontecendo, principalmente quando observamos outras florestas tropicais.

Isso se deve em grande parte à queima intencional da floresta. Na América do Sul, as indústrias de mineração, pecuária e cultivo de soja frequentemente incendiam árvores para abrir espaço para suas operações, transformando florestas em pastagens abertas.

Como resultado, as florestas perdem folhagem para sugar o gás de efeito estufa da atmosfera. Para piorar a situação, quando uma árvore pega fogo, ela libera todo o carbono que absorveu durante sua vida, o que significa que as florestas se tornam uma fonte poderosa de emissões que aquecem o planeta. E devido à crise climática, esse problema é ainda mais grave, porque em meio a condições mais quentes e secas, as florestas não produzem umidade suficiente para extinguir rapidamente as chamas, intensificando o surgimento de novas queimadas.

Publicado na Science Advances na sexta-feira (18), o estudo teve como objetivo observar como a ingestão de carbono das florestas da América do Sul mudou nos últimos anos. Para isso, os autores analisaram dados de monitoramento de gases de efeito estufa de 1987 a 2020 em 32 florestas no estado de Minas Gerais. Somadas, elas correspondem a uma área que equivale a 33 campos de futebol.

Ao inserir esses dados em modelos estatísticos, os autores descobriram que, em média, essas florestas estão sugando 2,6% menos carbono por ano do que há 33 anos. Ao mesmo tempo, a produção de carbono das florestas por incêndios aumentou 3,4% ao ano, o que significa que, no geral, estão perdendo a capacidade de absorver o gás.

Como se a preocupação já não fosse o suficiente, os pesquisadores temem que esse cenário se expanda para outras florestas tropicais ao redor do mundo. Os dados mostram que a mudança se intensificou em 2013. Naquele ano, em média, as florestas examinadas liberaram 0,13 toneladas métricas de carbono por hectare. Além disso, pesquisas separadas descobriram recentemente que a absorção de carbono das florestas tropicais é quase tão importante quanto a absorção da floresta amazônica.

Os cientistas destacam que nem tudo está perdido. Devemos tirar a pressão dessas florestas, reduzindo nossas emissões de gases de efeito estufa e desacelerando a crise climática. O Brasil também deve restaurar a capacidade de absorção de carbono dessas florestas, protegendo as matas por meio da suspensão das queimadas intencionais.

“O principal é a conservação”, escreveu Vinícius Maia, pesquisador da Universidade Federal de Lavras, no Brasil, por e-mail.

Os autores dizem ainda que deve haver um esforço especial para preservar as florestas decíduas, que são as mais secas e quentes que os pesquisadores examinaram. Nelas, foi observado um aumento ainda mais acentuado nas emissões de carbono. No entanto, essas proteções devem se estender a todas as folhagens da área.