O mundo não está protegendo suas florestas mais antigas como deveria. Mesmo em um momento em que são necessárias mais árvores para armazenar carbono, o mundo perdeu área de cobertura florestal no ano passado. De acordo com um novo relatório, um campo de futebol de cobertura florestal foi derrubado a cada seis segundos em 2019. Além disso, novos pontos de desmatamento estão surgindo na Amazônia brasileira, onde as comunidades indígenas lutam para proteger suas terras de grileiros.

Esses novos números vêm da Universidade de Maryland, que divulgou os dados terça-feira (2) no Global Forest Watch. O relatório se concentra na floresta primária, onde as árvores são mais antigas e mais eficazes para armazenar carbono e abrigar a vida selvagem.



Os autores descobriram que a perda de florestas primárias aumentou quase 3% em 2019 em comparação com o ano anterior. Isso representou 1,8 gigatoneladas de emissões de dióxido de carbono, o equivalente a 400 milhões de carros. Essa foi a terceira maior taxa de perdas desde a virada do século.

“O nível de perda de floresta que vimos em 2019 é inaceitável”, disse Frances Seymour, uma ilustre pesquisador do Instituto de Recursos Mundiais, em uma conferência para apresentar o novo relatório. “2020 deveria ser o ano em que interromperíamos o desmatamento, mas parece que estamos indo na direção errada.”

O prazo de 2020 foi descrito nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Embora a perda de cobertura florestal inclua mais do que o desmatamento, que é totalmente causado pelo homem, é uma métrica importante para florestas primárias, pois permite que os pesquisadores rastreiem onde danos a longo prazo podem estar acontecendo.

Brasil, Bolívia, Colômbia, República Democrática do Congo e Austrália tiveram perdas recordes. A trágica temporada de incêndios contribuiu para a diminuição sem precedentes na cobertura florestal da Austrália. 2019 foi o pior ano já registrado: um aumento de seis vezes na perda florestal em comparação a 2018.

Mas as florestas tropicais são uma grande preocupação, principalmente a Amazônia brasileira. Especialistas esperam que o desmatamento piore este ano. Isso é uma má notícia para todos nós, pois a Amazônia ajuda a sequestrar quantidades incríveis de carbono.

São notícias ainda piores para as pessoas que moram lá e precisam enfrentar tanto a violência causada por grileiros quanto a perda de recursos críticos. No Brasil, isso é resultado direto do presidente Jair Bolsonaro, que tem um discurso favorável à exploração da floresta.

“Para os povos indígenas, é necessário e importante manter essas florestas e territórios, porque isso lhes permite continuar com suas culturas e práticas”, disse Tuntiak Katan, coordenadora geral da Aliança Global de Comunidades Territoriais. Ela é também líder do povo indígena Shuar, que vive nas porções peruana e equatoriana da Floresta Amazônica. “Por outro lado, é importante que esses territórios existam porque eles não apenas beneficiam os povos indígenas que vivem lá. Eles beneficiam todo o planeta e toda a humanidade porque ajudam a mitigar os efeitos das mudanças climáticas. ”

A pesquisa mostrou que as taxas de desmatamento são mais baixas em territórios indígenas e áreas protegidas. Isso ocorre porque essas comunidades precisam proteger a floresta tropical para manter sua cultura.

Na Amazônia, os povos indígenas protegem a floresta tropical para proteger suas tradições, diz Peter Veit, diretor da Iniciativa de Direitos à Terra e Recursos do Instituto de Recursos Mundiais. Ele acrescenta que conceder direitos territoriais para comunidades indígenas na Amazônia geralmente é suficiente para proteger as florestas “porque, historicamente, eles administram essas terras de maneira consistente com a conservação e o uso sustentável”.

Embora existam soluções claras para parar o desmatamento e a perda de cobertura de árvores, este ano provavelmente será pior para as nossas florestas do que o último. A pandemia de coronavírus pode levar os países a procurar indústrias extrativas para impulsionar suas economias, e pode impedir que agências e comunidades indígenas protejam a terra de maneira ostensiva. A aplicação da lei e o monitoramento adequados devem ser capazes de impedir a perda ilegal de florestas que sofremos no ano passado — mas isso só vai ocorrer se os líderes mundiais estiverem dispostos a investir na conservação desses ecossistemas-chave.