Seguindo os protestos dos funcionários do Google e da Microsoft contra contratos com o governo dos EUA, trabalhadores da Amazon estão circulando internamente uma carta direcionada ao CEO da companhia, Jeff Bezos, pedindo para que ele interrompa a venda do Rekognition, o sistema de reconhecimento facial da empresa, para o governo dos EUA, e rompa o contrato da Palantir, uma empresa de mineração de dados, que utiliza seus serviços na nuvem.

Os funcionários da Amazon citam como motivo para interrupção de contrato a política de tolerância zero da presidência dos Estados Unidos nas fronteiras do país, o que resultou em milhares de crianças sendo separadas dos seus pais.

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“Junto com boa parte do mundo, nós assistimos aos horrores cometidos pelas autoridades dos Estados Unidos, que separaram as crianças de seus pais”, diz a carta. “Diante dessa política imoral dos EUA e do crescente tratamento desumano de refugiados e imigrantes, nós estamos profundamente preocupados com o envolvimento da Amazon, que fornece infraestrutura e serviços que habilitam a Imigração e Alfândega dos EUA e o Departamento de Segurança Interna dos EUA.”

Em maio, uma investigação da ACLU (American Civil Liberties Union) revelou que a Amazon fez grande campanha do software Rekognition em departamentos de polícia e agências governamentais. A tecnologia pode reconhecer e monitorar rostos em tempo real, e a ACLU apontou que tal ferramenta de vigilância poderia facilmente ser mal utilizada na aplicação da lei.

“Embora o senhor Bezos mantenha silêncio [sobre a situação], os funcionários da Amazon estão se juntando a acionistas, grupos de direitos civis e consumidores preocupados com a tecnologia de monitoramento de rosto da Amazon pelo que ela é: uma ameaça aos direitos civis e especialmente aos imigrantes e pessoas de cor que estão sob ataque desse governo”, disse Nicole Ozer, diretora de tecnologia e liberdades civis da ACLU. “Nós apoiamos a iniciativa desses funcionários em pedir para que o senhor Bezos faça a coisa certa. A Amazon deve parar de fornecer a perigosa tecnologia de vigilância de face ao governo.”

No início dessa semana, vários acionistas da Amazon pediram que a companhia parasse de vender o Rekognition para a polícia. A repercussão do pedido agora se espalhou entre os funcionários.

“Nossa companhia não deveria estar no negócio de vigilância; nós não deveríamos estar no ramo de policiamento; nós não deveríamos estar no negócio de apoiar os que monitoram e oprimem populações marginalizadas”, dizem os funcionários da Amazon na carta.

A carta do trabalhadores da Amazon segue o ativismo de funcionários de outras grandes empresas de tecnologia, como Microsoft e Amazon. No início da semana, funcionários da Microsoft pediram para a empresa cancelar seu contrato de cloud computing com o serviço de imigração dos EUA. O CEO da Microsoft, Satya Nadella, defendeu o trabalho da companhia com o órgão público, dizendo que sua empresa apenas fornece serviços rotineiros de tecnologia, como e-mail, calendário e de mensagem.

E, no início do mês, funcionários do Google tiveram sucesso em seu ativismo interno contra o contrato que a companhia tinha com o Pentágono — em um encontro de funcionários em junho, a CEO do Google Cloud, Diane Greene, anunciou que a companhia não renovaria seu contrato para o Project Maven, um programa piloto do Departamento de Defesa dos EUA que usa inteligência artificial para analisar filmagens de drone. O Google também anunciou novos princípios éticos para governar o trabalho de inteligência artificial.

Não está claro se as campanhas dos funcionários da Amazon e da Microsoft vão ter o mesmo sucesso que o Google. No entanto, a repercussão na Microsoft e na Amazon nesta semana mostram que funcionários de tecnologia estão cada vez mais dispostos a se posicionarem contra trabalhos que eles acreditam ser antiéticos.

Além das demandas sobre o Rekognition, a carta dos empregados da Amazon também pede que a empresa não forneça hospedagem para a Palantir, uma companhia financiada pelo bilionário Peter Thiel que oferece ferramentas de previsão para autoridades e que tem um contrato com o serviço de imigração dos EUA (Thiel foi o cara que financiou secretamente uma ação que levou a Gawker Media, antiga proprietária do Gizmodo, a entrar com um pedido de recuperação judicial).

A carta da Amazon parece ser a primeira em que funcionários solicitam além do simples cancelamento de um contrato. No caso, eles querem também que um cliente seja removido da plataforma deles. Embora possa parecer uma distinção pequena, é algo importante de se diferenciar entre as demandas.

Lideranças na Microsoft e no Google fizeram uma distinção entre fornecer serviços na nuvem a clientes eticamente questionáveis e ajudar empresas com tecnologia específica que pode causar danos. O Google, por exemplo, disse que sua inteligência artificial deveria ser usada para propósitos de “benefício social”, mas que continuaria a trabalhar em projetos com o governo como busca, resgate e cibersegurança.

“Nós nos recusamos construir uma plataforma que possibilita o serviço de imigração”, diz a carta dos funcionários da Amazon, “e nos recusamos a contribuir com ferramentas que contribuem com a violação de direitos humanos.”

Leia a carta completa abaixo:

Caro Jeff,

Estamos preocupados com relatos recentes da ACLU expondo a prática de nossa companhia de vender o AWS Rekognition, uma poderosa tecnologia de reconhecimento facial, para departamentos de polícia de agências do governo. Nós não precisamos esperar para saber como essas tecnologias serão usadas. Já sabemos que, no meio da maior militarização da polícia, renovada ao direcionar esforços contra ativistas negros, e o crescimento da deportação federal cometendo abusos aos direitos humanos, isso será uma nova ferramenta poderosa para o estado de vigilância e irá servir para prejudicar os mais marginalizados. Não estamos sozinhos nessa visão: cerca de 40 organizações de direitos civis assinaram uma carta aberta em oposição ao uso de reconhecimento facial pelo governo, embora mais de 150 mil indivíduos assinaram uma outra petição entregue pela ACLU.

Também sabemos que a Palantir usa o AWS. E nós sabemos que o serviço de imigração usa o serviço da Palantir para os programas de detenção e deportação. Junto com boa parte do mundo, nós assistimos aos horrores cometidos pelas autoridades dos Estados Unidos, que separaram as crianças de seus pais. Desde 19 de abril de 2018, o Departamento de Segurança Interna dos EUA enviou quase duas mil crianças para centros de detenção. Esse tratamento vai contra as regras da Organização das Nações Unidas, que dizem que as crianças têm o direito de ficarem com seus pais e que quem procura asilo tem o direito legal de pedi-lo. Diante dessa política imoral dos EUA e do tratamento cada vez mais desumano de refugiados e imigrantes, estamos profundamente preocupados que a Amazon esteja envolvida, fornecendo infraestrutura para a Imigração e Alfândega dos EUA e o Departamento de Segurança Interna dos EUA.

Tecnologias como a nossa estão desempenhando um papel cada vez mais crítico em muitos setores da sociedade. O que está claro para nós é que nosso desenvolvimento e nossas vendas ainda não reconheceram a obrigação que vem com isso. Concentrar-se apenas no valor das ações é uma corrida para o fundo do poço da qual nós não participaremos.

Nós nos recusamos a construir uma plataforma que habilita o serviço de imigração e nos recusamos a contribuir com ferramentas que contribuem para a violação de direitos humanos.

Como Amazonians [como são chamados os funcionários da Amazon] eticamente conscientes, nós exigimos uma escolha no que construímos, e uma opinião sobre como o que fazemos é usado. Aprendemos com a história e temos consciência de como os sistemas da IBM foram usados na década de 40 para ajudar Hitler. A IBM não se responsabilizou, e, no momento em que o papel dessas tecnologias foi compreendido, era tarde demais. Não vamos deixar isso acontecer novamente. A hora de agir é agora.

Por isso, nós solicitamos que você:

  • Pare de vender serviços de reconhecimento facial para autoridades
  • Pare de fornecer serviços de infraestrutura para a Palantir e outros parceiros da Amazon que habilitam o serviço de imigração.
  • Implemente medidas de transparência e prestação de contas, que incluem enumerar agências de governo e companhias que fornecem soluções para tais agências em como elas estão usando serviços da Amazon.

Nossa companhia não deveria estar no negócio de vigilância; nós não deveríamos estar no ramo de policiamento; nós não deveríamos estar no negócio de apoiar os que monitoram e oprimem populações marginalizadas

Atenciosamente,
Amazonians

Entramos em contato com a Amazon e a Palantir e vamos atualizar se recebermos uma resposta.

Imagem do topo por Ted S. Warren/AP