Funcionários da Microsoft estão pressionando sua liderança para cancelar um contrato com o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA (ICE, na sigla em inglês), parte de uma reação contra a política da agência de separar crianças de suas famílias na fronteira dos Estados Unidos.

Em uma carta aberta ao CEO da Microsoft, Satya Nadella, enviada nesta terça-feira (19), os funcionários exigiram que a empresa cancele seu contrato de US$ 19,4 milhões com o ICE e estabeleça uma política contra trabalhar com clientes que violem leis internacionais de direitos humanos. O texto da carta dos empregados foi noticiado inicialmente pelo New York Times e, posteriormente, confirmado pelo Gizmodo.

• Google recua de parceria com governo dos EUA e diz que sua IA não será usada para armas ou vigilância
• Os planos da Microsoft de fazer uma loja sem caixas e sem filas

“Acreditamos que a Microsoft deve tomar uma postura ética, colocando crianças e famílias acima dos lucros”, dizia a carta, assinada pelos funcionários da empresa. “Pedimos que a Microsoft cancele seu contrato com o ICE e com outros clientes que habilitam diretamente o ICE. Como pessoas que constroem as tecnologias com as quais a Microsoft lucra, nos recusamos a ser cúmplices. Somos parte de um movimento em crescimento, composto por muitos em toda a indústria que reconhecem a grande responsabilidade que aqueles que criam tecnologias poderosas têm para garantir que o que eles constroem seja usado para o bem, e não para o mal.”

Na segunda-feira (18), à medida que se espalhava a notícia sobre o contrato entre o ICE e a plataforma de serviço em nuvem Azure, da Microsoft, alguns funcionários ficaram indignados, considerando até mesmo pedir demissão. Agora, conforme o Gizmodo apurou, aqueles de fora da empresa estão tendo dúvidas sobre trabalhar com uma gigante da tecnologia que seja uma colaboradora “orgulhosa” e voluntária do ICE.

Mat Marquis, escritor e desenvolvedor, anunciou no Twitter que estava cancelando seu contrato com a Microsoft em protesto contra o contrato com o ICE.

“Seria fácil pensar em codificação como algo neutro — nós solucionamos quebra-cabeças”, Marquis contou ao Gizmodo. “Coloque um ponto e vírgula no lugar certo, e um erro some, torne o site um pouco mais rápido do que era ontem; no vácuo, é um trabalho inócuo. É importante, entretanto, levar em consideração o cenário maior para as coisas que ajudamos a construir — como é que isso pode ser mal utilizado, quem eu estou apoiando com isso, quem se beneficia disso e quem arca com os custos? Não trabalhei com a equipe do Azure; eu nunca teria chegado lá, considerando minhas habilidades. Mas a decisão de trabalhar com uma organização é uma decisão para ajudá-los a conquistar seus objetivos, e a Microsoft mostrou que está disposta a emprestar seu nome aos objetivos do ICE. Eu não farei isso.”

Como resultado de seu relacionamento atual com o ICE, Jer Thorp — artista altamente credenciado, que está atualmente trabalhando em uma residência na Livraria do Congresso — também escolher cortar laços com a Microsoft. Ele estava escalado para falar no Civic Hall, em Nova York, na sexta-feira (22), como parte da série de conferências Machine Eatable, da Microsoft.

“Acho que o que estamos vendo agora com o ICE é profundamente imoral. É uma violação de direitos humanos em todos os níveis. Como desenvolvedores e programadores, uma das nossas principais preocupações têm que ser a segurança das pessoas que estão vivendo nos sistemas de dados que criamos”, ele disse ao Gizmodo. “Fazendo negócios com o ICE, (a Microsoft) está transformando ferramentas para propósitos diferentes do que os desenvolvedores que trabalharam nelas podem ter imaginado. Cabe a esses trabalhadores se expressar, agir e se recusar a deixar que o fruto de seu trabalho seja usado para colocar crianças em gaiolas.”

Para corrigir o curso das coisas, Thorp sugeriu que a empresa declarasse claramente se havia ou não permitido que as ferramentas de reconhecimento facial existentes fossem usadas pelo ICE e/ou se desenvolveu ferramentas personalizadas de inteligência artificial para a agência. “Depois disso, precisa declarar claramente se a Microsoft continuará seu contrato com o ICE no futuro”, escreveu.

O Gizmodo perguntou à Microsoft essas exatas questões na segunda-feira (18). A empresa, em vez disso, ofereceu um comunicado que não tratava nenhum dos problemas. Em um post no LinkedIn no domingo (17), o diretor jurídico da Microsoft, Brad Smith, destacou o trabalho da empresa em reunir famílias de refugiados na Bósnia e suas contribuições com o Kids in Need of Defense, uma organização que oferece representação legal para crianças imigrantes.

“Quando mantemos as crianças com os pais, não apenas seguimos os passos de uma das mais antigas e importantes tradições humanitárias do mundo, como também ajudamos a construir um país mais forte”, escreveu Smith.

O clamor dos funcionários da Microsoft é o mais recente de uma série de objeções bem fundamentadas de trabalhadores da área de tecnologia contra as ferramentas que eles ajudam a construir caindo nas mãos de agências policiais e governamentais. Depois que a colaboração do Google com o Pentágono foi divulgada pelo Gizmodo, os funcionários da companhia levantaram alertas internamente, culminando com uma carta semelhante enviada à liderança. Logo após a eleição de Trump, os profissionais da área de tecnologia de várias empresas assinaram o juramento “Nunca mais”, que consistia em recusar a colaboração em ferramentas que “segmentam indivíduos com base em raça, religião ou origem nacional”.

A carta aberta dos funcionários da Microsoft ecoa com uma enviada por funcionários do Google ao seu CEO no início deste ano, que também pedia à empresa para cancelar um controverso contrato com o governo dos EUA. Empregados do Google se opuseram ao envolvimento de sua empresa no Project Maven, um programa piloto do Departamento de Defesa que usa inteligência artificial para avaliar imagens de drones. Enfrentando a pressão dos funcionários, o Google anunciou que não renovaria seu contrato do Project Maven. O gigante das buscas também divulgou novos princípios éticos para o uso da IA, embora alguns funcionários questionassem se os princípios incluíam um firme compromisso de seguir as leis internacionais de direitos humanos.

Jason Zander, vice-presidente do Azure, publicou uma resposta aos funcionários com uma mensagem interna em que alega que o escopo do uso das ferramentas da Microsoft pelo ICE que era muito menos problemático do que o que se supunha. “Ouvi de muitos funcionários nos últimos dois dias questões sobre o trabalho que estamos fazendo com o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA”, escreveu Zander. “Nosso envolvimento atual com o ICE é focado em levar infraestrutura de legado como e-mail, calendário, mensagens e administração de documentos para a nuvem usando o Azure. Isso significa que não estamos fazendo nada com IA, serviços cognitivos ou reconhecimento facial. Sei que essa é uma questão complicada. Espero que ter os fatos em mão ajude.”

Entretanto, o post de blog de janeiro em que a Microsoft anunciava a parceria explicitamente mencionava as capacidades de reconhecimento facial do Azure — exaltando-as como um bônus para a agência. “Isso pode ajudar os funcionários a tomar decisões melhor informadas mais rapidamente, com o Azure Government possibilitando que eles processem dados em dispositivos ou utilizem capacidades de deep learning para acelerar o reconhecimento facial e a identificação”, afirmava. Entramos em contato com a Microsoft sobre essa inconsistência, mas não tivemos resposta.

Leia a carta dos funcionários completa abaixo:

Caro Satya,

Acreditamos que a Microsoft deve tomar uma posição ética, colocando crianças e famílias acima dos lucros.

Portanto, pedimos que a Microsoft cancele seus contratos com o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA (ICE) imediatamente, incluindo contratos com clientes que oferecem suporte ao ICE. Também solicitamos à Microsoft que elabore, divulgue e aplique uma política clara, declarando que nem a Microsoft nem seus contratados trabalharão com clientes que violem a lei internacional de direitos humanos.

Ficamos consternados ao saber que a Microsoft tem um contrato de US$ 19,4 milhões com o ICE.

Em uma clara abdicação da responsabilidade ética, a Microsoft chegou a afirmar que seus serviços “apoiam as principais funções da agência [ICE]” e permitem que os agentes ICE “processem dados em dispositivos de entrada” e “utilizem recursos de deep learning para acelerar o reconhecimento facial e a identificação”. Essas são capacidades poderosas nas mãos de uma agência que demonstrou disposição contínua de decretar políticas desumanas e cruéis.

Em resposta a perguntas, Brad Smith publicou uma declaração dizendo que a Microsoft “não está ciente de que produtos ou serviços do Azure estejam sendo usados com o propósito de separar famílias”. Isso não é o suficiente. Estamos fornecendo a base técnica em apoio a uma agência que está aplicando ativamente essa política desumana.

Pedimos que a Microsoft cancele seu contrato com o ICE e com outros clientes que habilitam diretamente o ICE. Como pessoas que constroem as tecnologias com as quais a Microsoft lucra, nos recusamos a ser cúmplices. Somos parte de um movimento em crescimento, composto por muitos em toda a indústria que reconhecem a grande responsabilidade que aqueles que criam tecnologias poderosas têm para garantir que o que eles constroem seja usado para o bem, e não para o mal.

Reconhecendo essa responsabilidade, pedimos que vocês:

1. Cancelem o atual contrato Azure Government com o ICE imediatamente.

2. Elaborem, divulguem e apliquem uma política clara declarando que nem a Microsoft nem seus contratados trabalharão com clientes que violem a lei internacional de direitos humanos.

3. Comprometam-se com a transparência e a revisão dos contratos entre a Microsoft e agências governamentais, nos EUA e em outros países.

Funcionários da Microsoft

Imagem do topo: Bryan Menegus (Gizmodo)