As discussões sobre renda básica universal têm ganhado cada vez mais terreno entre os empresários do Vale do Silício. O mais recente deles a embarcar na conversa, e de maneira prática, é Pierre Omidyar. O fundador do eBay anunciou a doação de US$ 500.000 para um programa de teste dessa política de renda, no Quênia.

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O dinheiro sairá da Omidyar Network, firma de investimento filantrópico do criador do site de vendas, e será doado para o programa GiveDirectly, iniciativa que pretende, ao longo de 12 anos, testar a viabilidade da renda básica universal. Atualmente, o levantamento de fundos para a execução do plano alcançou 79% de seu objetivo, com US$ 23,7 milhões de US$ 30 milhões já arrecadados.

Um grupo de seis mil quenianos receberá o benefício durante os 12 anos do programa, e outras 20 mil pessoas também vão embolsar certa quantia, como complemento de suas rendas.

Paradoxalmente, a discussão sobre renda básica universal tem crescido dentro do Vale do Silício como resposta a um mundo cada vez mais afetado pela automação. Os robôs já tomaram postos em fábricas, e mesmo os trabalhos mais “criativos” têm sido assumido pelas máquinas, com, por exemplo, a utilização de inteligência artificial para a redação de notícias.

Nomes fortes do Vale do Silício têm apoiado a introdução da renda básica universal, como Tim O’Reilly, Marc Andreessen e a incubadora de startups Y Combinator. Mas, como questiona o Guardian, qual o interesse de todo esse pessoal ao levantar essa bandeira como uma resposta rápida à automação (acelerada por esse próprio setor), quando os problemas de desigualdade econômica têm raízes muito mais amplas do que isso? Tornar mais tragável os avanços do tecnocapitalismo que, em primeiro lugar, têm propiciado essa mudança de paradigma de força do trabalho?

Alguns testes de renda básica universal têm acontecido paralelamente pelo mundo, como é o caso do comandado pela Y Combinator. Anunciado no ano passado, o estudo-piloto inclui 100 famílias de Oakland, na Califórnia que, de seis meses a um ano, receberão rendas entre US$ 1.000 e US$ 2.000 por mês, para que gastem como quiser. Também em 2016, a Suíça fez um referendo para distribuir uma quantia fixa anual à sua população, que rechaçou a proposta. Neste ano, é a Finlândia quem se oferece como laboratório para o modelo, distribuindo, pelos próximos dois anos, € 560 (R$ 1.865, na cotação atual) por mês para dois mil cidadãos desempregados.

Como escrevemos em novembro do ano passado, tecnofuturistas como Murray Shanahan e Ray Kurzweil acreditam que a tecnologia está de fato se desenvolvendo numa curva exponencial que, em breve, a fará nos ultrapassar ou ao menos nos tornar obsoletos – e isso até 2045. Mas isso está muito longe de ser um consenso, e outros especialistas não acreditam neste cenário enquanto estivermos vivos.

Diante deste horizonte, Elon Musk, por exemplo acredita que a renda básica universal é inevitável. No entanto, a ideia enfrenta resistência muito maior por parte do cidadão médio, e a tal velocidade com que a tecnologia nos torna defasados precisaria ser assustadoramente exponencial para que pudéssemos imaginar qualquer mudança de pensamento neste sentido a médio prazo.

[IBTimes, Guardian]

Imagem do topo: Wikimedia Commons