Não são apenas as bactérias em nosso intestino que desempenham um papel importante em nos manter saudáveis ​​– leveduras e outros fungos que vivem ali também são partes essenciais do bom funcionamento. Contudo, a forma exata em como todos esses micróbios interagem com nossos corpos não é bem compreendida. Pois eis que uma nova pesquisa, conduzida por cientistas da University of Utah Health, publicada na Nature, verificou que um sistema imunológico saudável impede que os fungos se transformem em sua forma mais prejudicial. Sem essa mitigação, os fungos podem contribuir para doenças intestinais crônicas, como a doença de Crohn.

A conexão entre as bactérias intestinais e a nossa saúde geral tem sido bem estudada nos últimos anos. E embora muitos dos detalhes dessa relação ainda sejam desconhecidos, está claro que um microbioma equilibrado com a mistura certa de bactérias ajuda a manter muitas de nossas funções corporais regulares. Inversamente, a mistura errada de bactérias pode ajudar a causar ou sinalizar o surgimento de doenças. Mas as bactérias são apenas um tipo de micróbio, e há menos trabalho no estudo dos muitos vírus e fungos que habitam nosso corpo.

Porém, os pesquisadores deste novo estudo estavam curiosos para saber se os fungos eram relevantes para o desenvolvimento da doença inflamatória intestinal (DII), que inclui a doença de Crohn. Esta é uma doença complicada, que se acredita ter vários fatores contribuintes, incluindo a genética. Mas estudos recentes já sugeriram que certas espécies de fungos e leveduras (a versão unicelular dos fungos) podem ser um desses fatores de risco, incluindo um fungo comum em nosso intestino chamado Candida albicans.

Em experimentos com ratos, a equipe notou que um sistema imunológico em funcionamento parecia interagir com o C. albicans. A levedura tem a incrível capacidade de alternar entre diferentes formas de crescimento. Pode permanecer um organismo unicelular semelhante a uma bola, ou pode se transformar em uma forma multicelular, cheia de hifas — uma estrutura semelhante a um ramo comum encontrada na maioria dos outros fungos, que permite invadir os tecidos do nosso corpo para se manter crescente.

A equipe encontrou evidências de que os anticorpos específicos para C. albicans não tentaram matá-la completamente. Em vez disso, impediram que a levedura se transformasse em uma forma mais invasiva. Mas uma vez que o fungo cresceu sem restrições, os ratos adoeceram com sintomas semelhantes aos da DII, que podem incluir diarreia, cólicas intensas e perda de peso.

Os resultados do estudo não apenas apontam para uma possível investigação dos sintomas de DII, mas também sugerem que existe uma relação complicada entre nós e fungos, como C. albicans.

Os fungos são uma fonte comum de infecção oportunista, mas mantê-los com alguma capacidade e neutralizá-los pode ser importante para um intestino saudável. Isso também permitiria que as leveduras sobrevivam sem serem detectadas, provavelmente por mais tempo do que se causasse uma infecção completa.

“O sistema imunológico está restringindo a Candida albicans à sua forma menos patogênica”, disse a autora principal do estudo, Kyla Ost, que também atua como pesquisadora de pós-doutorado da University of Utah Health. “Isso está nos mostrando que a comunicação entre o hospedeiro e o micróbio pode ser amigável, ao invés de antagônica, a fim de beneficiar ambos”, completou.

Pesquisas em outros lugares apontaram para outras espécies de fungos que poderiam ser um fator contribuinte para a DII, embora não necessariamente como a fonte original das doenças. É provável que muitos casos de DII estejam ligados a vários fatores trabalhando (ou se tornando disfuncionais) em conjunto. Mas se essa pesquisa continuar a se mostrar promissora, especificamente em pessoas, pode levar a novos caminhos de tratamento. 

Em outros experimentos, Ost e sua equipe descobriram que camundongos que receberam uma vacina experimental, destinada a prevenir infecções vaginais por fungos C. albicans, também pareciam estar mais protegidos do desenvolvimento de sintomas semelhantes aos da DII e, da mesma forma, evitando que a levedura se tornasse mais patogênica. 

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A equipe planeja continuar estudando se as vacinas podem ajudar a aliviar os sintomas de DII, que tendem a permanecer escondidos e depois surgem. Os pesquisadores também esperam encontrar maneiras semelhantes de encontrar o equilíbrio de um intestino disfuncional.