Um pequeno descuido e a sua torrada cai no chão com a manteiga virada para baixo. Mas não é como se você fosse esperar mais cinco minutos na frente da torradeira para conseguir uma nova, certo? Claro que não! Você grita “regra dos cinco segundos”, pega a torrada do chão, tira a sujeira de cima dela e está pronta para ser comida, certo? A ciência diz que não.

A coisa mais importante para lembrar sobre tudo no mundo ao seu redor é que tudo está coberto de germes. Só na sua boca estima-se que existam 100 bilhões agora mesmo, com outros 100 trilhões no seu aparelho digestivo. Por mais que 25.000 germes a cada 6 cm² do seu smartphone pareça muita coisa, eles não são nada em comparação com os 7,2 bilhões na esponja da sua cozinha. Felizmente, a maioria dessas formas de vida microscópicas não presta muita atenção em nós ou atua ativamente para benefício mútuo. O resto deles, no entanto, não faz muito bem para você.

Não demora muito para patógenos de origem alimentar como E. coli e salmonela infectarem seu intestino e causarem estragos nas suas entranhas. Na verdade, menos de 100 E. coli e 10 bactérias salmonelas já constituem uma dose infecciosa. E as defesas naturais do nosso corpo, especialmente a acidez da nossa saliva e o ácido estomacal, nem sempre são o suficiente para impedir os invasores microscópicos. “Muitos vírus sobrevivem a baixo pH – na verdade, eles gostam disso” explicou o microbiólogo Charles Gerba, da Universidade do Arizona, ao WebMD. “Vírus como hepatite A e o norovírus sobrevivem bem a pH baixo. Assim como bactérias como salmonela. Qualquer bactéria que infecte seu intestino pode sobreviver a pH baixo o suficiente para chegar no seu intestino.” E é no intestino que o problema real começa.

Quando o E. coli invade, especificamente a toxina que produz o E. coli responsável por 250 mil infecções anuais nos Estados Unidos, os pacientes costumam sofrer de dores de estômago, diarreias sangrentas e vômitos. Se o sistema imunológico estiver comprometido, a bactéria pode causar uma febre fatal. E a salmonela não é muito melhor. De acordo com o CDC:

Muitas pessoas infectadas com salmonela desenvolvem diarreia, febre e dores abdominais de 12 a 72 horas após a infecção. A doença normalmente dura de 4 a 7 dias e muitas pessoas se recuperam sem precisar de tratamento. No entanto, em alguns casos a diarreia é tão severa que o paciente precisa ser hospitalizado. Nesses pacientes, a infecção da salmonela pode se espalhar do intestino para a corrente sanguínea, e então para outras partes do corpo e causar a morte, a não ser que a pessoa seja tratada adequadamente com antibióticos. Idosos, crianças e pessoas com sistema imunológico comprometido têm mais chance de ter uma doença severa.

Assim, sua melhor defesa contra desconfortos intestinais e possivelmente morte é nunca deixar germes entrarem. É algo que somos coletivamente terríveis em fazer. Particularmente em relação à comida. Especialmente quando acreditamos que pegar comida rapidamente do chão pode de alguma forma prevenir patógenos de pularem a bordo.

A Regra dos Cinco Segundos é definida como:

Uma lei não escrita que diz que se um alimento ou outro item de consumo cair no chão, ele pode ser recuperado e comido em menos de cinco segundos. As razões por trás disso são que a sujeira e os germes demoram cinco segundos para serem transferidos de uma superfície para outra.

As origens desta superstição ainda são debatidas – alguns creditam Genghis Khan por inicialmente implementar a lei de 12 a 20 horas para comer comida do chão (não, sério; gerações posteriores refinaram o tempo para os modernos cinco segundos) e outros creditam à indústria do fast food como forma de reduzir o desperdício de comida, apesar de ambos parecerem improváveis.

Os pisos mais limpos de Illinois

A primeira tentativa de checar a veracidade da regra dos cinco segundos não ocorreu no Discovery Channel, mas sim na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, pela estudante Jillian Clarke em 2003.

O experimento dela começou com uma descoberta surpreendente. “Ficamos chocados”, Meredith Agle, uma candidata a Ph.D. que ajudou a conduzir a experiência, explicou ao Aces College News. Elas limparam alguns centímetros quadrados do piso em torno de áreas de alto tráfego de pessoas no campus, mas não conseguiram encontrar germes o suficiente para conduzir os testes. “Nós não encontramos nem um número contável de bactérias no piso. Pensamos que tivéssemos cometido um engano, então tentamos novamente, mas chegamos ao mesmo resultado. E então voltamos para procurar organismos formadores de esporos, como Bacilos, algo que resistisse a condições secas, mas não conseguimos encontrar nem esporos.”

Ou a bactéria não ocorre naturalmente em Illinois ou a Universidade tinha uma excelente equipe de limpeza. A equipe, então, criou uma simulação controlada usando 10 centímetros quadrados de peças ásperas e lisas revestidas em um calso de E. coli. Jujubas e biscoitos foram posicionados em ambas as superfícies por cinco segundos, e então a presença dos patógenos foi medida. “Nós detectamos a transferência dos germes antes dos cinco segundos”, Agle disse ao WebMD. “Estávamos lidando com um grande número de células.”

No geral, este estudo em pequena escala gerou diversas observações interessantes além do fato de que a comida que cai no chão não evita bactérias em pouco tempo: 70% das mulheres e 56% dos homens questionados admitiram invocar a regra e todos os entrevistados eram mais propensos a usarem a lei para um pedaço de doce do que para vegetais.

Os Anais das Pesquisas Improváveis deram a Clarke o Prêmio Ig Nobel de 2004 de saúde pública por seu trabalho pioneiro.

Contradições e afirmações

Desde a primeira experiência de Clarke com a comida no chão, diversas equipes de pesquisa conduziram seus próprios testes para medir a segurança de comer coisas do chão, com diversos resultados diferentes.

Em 2007, Molly Goettsche e Nicole Moin, uma dupla de biólogas moleculares e celulares na Universidade de Connecticut, espalharam fatias de maçã e balas pelo chão do refeitório do campus por intervalos pré-determinados de 5, 10, 30 e 60 segundos. O resultado sugeriu que a bactéria não seria transferida para a maçã por quase um minuto, enquanto para as balas o tempo era de quase cinco. Aparentemente, as bactérias não existem naturalmente em Connecticut também.

Os resultados acima foram quase que imediatamente rebatidos por um estudo realizado pelo cientista de comida da Universidade de Clemson, Paul Dawson, e sua equipe de estudantes pesquisadores. Em maio de 2007, a equipe de Dawson montou e esterilizou uma série de diferentes amostras de superfícies – azulejo, madeira e tapete nylon – e então revestiu elas com salmonela (com uma densidade de vários milhões de bactérias por centímetro quadrado) para não apenas observar quanto tempo os organismos sobrevivem em cada superfície, mas também ver como eles efetivamente poderiam pular em uma fatia de pão ou mortadela.

As descobertas de Clemson sugerem que devemos renomear para a “regra dos zero segundos”, já que mesmo após quatro semanas nas superfícies, a salmonela ainda aparecia no sanduíche de mortadela em menos de um segundo. Deixe o pão e a carne por cinco segundos, e o alimento teria de 150 a 8000 bactérias. Deixe por um minuto e multiplique o número por dez. Azulejo e carpete juntavam mais micro-organismos, enquanto a madeira transferia um pouco menos.

Parcialmente nojento

Mortadela e pão não são as únicas coisas que comemos do chão, e nem todos os alimentos juntam micróbios mochileiros imediatamente. Um estudo conduzido na Universidade Metropolitana de Manchester foi além do pão e carne e examinou como efetivamente pão com geleia, macarrão, uma fatia de presunto, um biscoito simples e frutas secas acumulam patógenos após serem deixados no chão por períodos entre três e dez segundos.

Os alimentos menos saudáveis para humanos são os menos condutores de germes. Esses alimentos ricos em sal e açúcar mais baixos em teor de água – presunto, pão e o biscoito – mostraram pouco crescimento de germes no intervalo de três segundos, enquanto o macarrão relativamente molhado e a fruta seca (que ainda contém uma boa quantidade de umidade) coletaram uma quantidade maior de bactérias, incluindo klebsiella.

A equipe acredita que a quantidade de água presente na comida, que é essencial para o crescimento bacterial, é o principal fator para a taxa de transferência. No entanto, a água pode ser usada a nosso favor também. “Ao menos, lave primeiro”, disse Ruth Frechman, representante da Associação de Dieta dos Estados Unidos ao WebMD. “Bactérias estão por todos os lados, e 10 tipos, incluindo E. coli, causam infecções alimentícias como febre, diarreia e sintomas de gripe.”

A principal superfície que você não deve lamber

Teor de água e tempo de lado, onde você deixa a comida cair é fundamental para definir se você pode ficar doente ao comer. E nem sempre a doença está onde você espera. Como o Doutor Harley Rotbart, da Universidade de Medicina do Colorado, explicou ao WebMD, calçadas, por mais que sejam sujas, não contam com os mesmos patógenos que cozinha ou pisos de restaurantes.

“O piso da cozinha é uma zona de zero segundos porque as bactérias de carne crua e frango são mais perigosas que as outras”, explicou Rotbart.

O mesmo se aplica ao seu banheiro, que é lar de diversos vírus e patógenos gastrointestinais. E o principal lugar de onde você nunca deve comer algo que caiu no chão: banheiros públicos. “Cerca de 93% dos calçados que testamos contam com batérias fecais na sola”, explica Rotbart. “Pessoas levam bactérias e vírus no sapato o tempo inteiro.”

Então lembre-se: seu chão pode ser “limpo o suficiente para você comer” – mas isso não significa que você deva comer.[Aces College News –NY Times – Wikipedia – LA Times – How Stuff Works – Clemson University – WebMD– Gizmodo – Daily Mail – Colorado State University – Connecticut College – Top Image: Joe Belanger / Shutterstock]