Em sua lenta subida no Monte Sharp, o rover Curiosity, da NASA, esbarrou em um mistério digno de seu nome: sílica. Muita, muita sílica. E a descoberta pode ajudar na compreensão do passado geológico do Planeta Vermelho, incluindo que tipo de vida pode ter existido por lá.

O silício é um dos elementos mais abundantes na Terra, mas nós não havíamos detectado altas concentrações de minerais de silício em Marte até sete meses atrás, quando a sonda se aproximou do “passo Marias”, uma zona de contato entre duas unidades rochosas localizadas próximas ao pé do Monte Sharp. Foi lá que o instrumento laser ChemCam da sonda identificou, pela primeira vez, sedimentos repletos de sílica, com concentrações de até 90%. A descoberta foi tão surpreendente que a equipe científica da missão tomou a rara decisão de virar o veículo para dar uma volta e fazer mais buscas no local.



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Depois de perfurar alguns buracos e executar medidas elementais e minerais por um período de quatro meses, a Curiosity foi capaz de confirmar a concentração de sílica em vários locais diferentes. Para os geologistas, isto é fascinante, não apenas porque locais de sílica indicam ambientes com água, mas também porque eles podem nos dizer como eram estes ambientes.

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A rota no pé do Monte Sharp seguida pela Curiosity entre abril e novembro de 2015, enquanto investigava rochas cheias de sílica, primeiro no Passo Marias, depois na área da Bridger Basin. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/Univ. of Arizona

Nós já tivemos várias evidências que a antiga Marte era um lugar cheio de água. Logo depois de pousar na cratera Gale, a Curiosity descobriu um leito de lago na baía Yellowknife. À medida que o explorador autônomo viajava a sudoeste, em direção ao Monte Sharp, nós acumulamos mais e mais evidências de antigos rios e lagos por todos os lugares. Tudo isso corrobora décadas de evidências coletadas pelos primeiros exploradores de Marte, incluindo a Spirit e a Opportunity.

Mas água apenas não quer dizer que o Planeta Vermelho já foi habitável. Talvez os lagos de Marte fossem muito ácidos, muito salgados ou muito tóxicos para até mesmo os micróbios mais durões suportarem. É por isso que precisamos de outras linhas de evidência — e locais ricos em sílica são a pista mais fascinante que temos há muito tempo.

“Estes compostos ricos em sílica são um quebra-cabeças”, diz Albert Yen, membro da equipe científica da Curiosity no Laboratório de Propulsão a Jato, em um comunicado à imprensa. “Você pode aumentar a concentração de sílica lixiviando outros ingredientes enquanto deixa a sílica para trás ou trazendo a sílica de outro lugar. Qualquer um desses dois processos envolvem água. Se nós conseguirmos determinar qual deles aconteceu, descobriremos mais sobre outras condições dos antigos ambientes aquosos.”

Se as concentrações de sílica que estamos vendo são resultado de processos de lixiviação, em que outros minerais foram dissolvidos, isto sugere um ambiente altamente ácido. Por outro lado, se a sílica foi acrescentada à mistura de minerais posteriormente, isso poderia indicar condições muito menos extremas.

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Vista da Mastcam do rover Curiosity em 22 de maio de 2015, mostrando o Passo Marias, uma área onde um lamito mais baixo e mais antigo faz contato com uma cobertura de arenito. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/MSSS

“Se você quer vida, você quer um ambiente com pH mais neutro, pH 7 ou 8”, explicou Ashwin Vasavada, cientista do projeto Curiosity, em uma conferência de imprensa na União Americana de Geofísica. “Este é o intervalo de pH em que você poderia esperar uma precipitação de sílica.”

Outra peça do quebra-cabeça é a tridimita, um mineral de sílica raro que a Curiosity detectou no buraco perfurado em Buckskin, mostrado acima. É a primeira vez que a tridimita foi encontrada em Marte e, enquanto o mineral é usualmente diagnosticado em ambientes vulcânicos aqui na terra, Buckskin é parte de um deposito sedimentar de grãos finos, talvez um antigo leito de lago. Ainda é incerto se a tridimita foi erodida, transportada ou precipitada de algum outro lugar.

“O quebra-cabeça que Marte nos apresentou é muito complicado”, disse Yen na conferência. “Estamos tentando descobrir de onde tanta sílica vem e as implicações que ela tem na história aquosa de Marte.”

À medida que a Curiosity continua a se arrastar pelo Monte Sharp e pelo tempo geológico, cientistas continuam a explorar diferentes hipóteses para a desconcertante aparição de sílica. Mas uma coisa está clara neste ponto: Marte é tão complexa quanto a Terra — geologicamente, ao menos.

Isso nos dá esperanças de que a vida iria encontrar um caminho no Planeta Vermelho.

Imagem do topo: A primeira amostra da coleção de buracos perfurados pelo rover Curiosity, da NASA, no Monte Sharp. Créditos: NASA/JPL-Caltech/MSSS