Quando Marissa Mayer largou o Google para liderar o Yahoo, a Internet pediu em coro: conserte o Flickr. Negligenciado por anos, sofrendo com o descaso, abandono e decisões controversas, o site, uma das primeiras comunidades online e referência em fotografia na rede até meados da década passada, precisava de atenção. Ontem à noite o Yahoo finalmente liberou um grande redesign, deu 1 TB de espaço para todos os usuários e sentenciou: o Flickr está incrível de novo. Será?

O problema do Flickr, já esmiuçado por aqui, foi ter parado no tempo. Ele não acompanhou a revolução móvel, dando brecha para o Instagram tornar-se sinônimo de fotografia on the go. Ele não virou o álbum de família digital, espaço ocupado pelo Facebook — mesmo com fotos degradadas e as constantes mudanças de layout que, no estágio atual, soterra a ideia de álbuns. Ele sequer permaneceu como referência para fotógrafos profissionais e entusiastas hardcore, posto que nos últimos anos o 500px clamou sem cerimônia e com méritos.



O que sobrou para o Flickr? A glória do passado e uma base de fãs leais. Extremamente leais, do tipo que flerta com outros serviços, mas mantém a conta lá e, vez ou outra, lembra de mandar umas fotos mais trabalhadas. Pouco, muito pouco para todo o potencial que uma marca tão amada e outrora usada tem.

O novo Flickr

Ontem o Yahoo revelou, em um evento especial organizado em Nova York, o novo Flickr. Fotos maiores, layout mais apelativo, novos planos pagos, um latifúndio de espaço para todos os usuários e (enfim!) um app decente para o Android. Marissa Mayer falou que “o Flickr já foi incrível, mas ficou à deriva… agora queremos deixá-lo incrível novamente.”

O novo Flickr

À primeira vista as novidades empolgam. Embora fosse funcional, o layout anterior não era exatamente bonito no estado atual da web. As marcas do tempo eram visíveis. Havia um ar de anos 2000 ali ainda, impregnado. O novo, por sua vez, pega carona em sites mais modernos de fotografia, como Instagram e Google+. Menos espaço em branco para respirar, muitas fotos grandes, em alta resolução, espremidas em mosaicos dinâmicos. Se funciona com os outros, por que não funcionaria aqui?

Mas o Flickr perdeu sua identidade visual. O azul e rosa característicos e muito bem usados em iterações passadas foram deixados de lado em prol do preto. Pode fazer sentido em um serviço que quer deixar o passado completamente para trás, mas há uma grande sensação genérica no novo layout. Na barra de navegação principal, no fundo das imagens, em vários locais-chave, formando um contraste de certa forma pesado com o branco que ainda permeia boa parte das páginas do Flickr. Some isso a uma tipografia pouco inspirada e, bem, não dava para ser mais genérico.

Além do visual insosso, o Flickr parece ter perdido apelo junto a quem segurou a barra nesses últimos anos, em sua maioria fotógrafos profissionais e amantes de fotografia em geral. O tópico oficial de feedback virou um muro das lamentações. Layout ruim, rolagem infinita com imagens pesadas carregando o tempo todo, confuso… É algo comum quando uma grande mudança de visual acontece. E o Flickr, sinceramente, precisava dessa mudança. Mas ela precisava ser mais bem-feita, ainda mais por demorar oito anos para acontecer. Detalhes são importantes.

Uma maquiagem mais ou menos

Ninguém viu isso?Alguns sites se apressaram em publicar impressões sobre o novo Flickr e, acredito que por falta de uso mesmo, exaltaram coisas que já estavam ali. O uploader com arrastar-e-soltar foi liberado há alguns meses, a edição em lote, não me recordo de quando não existia. E se você der uma olhada atenta às partes que realmente mudaram, com exceção do cabeçalho dos perfis todo o resto veio do antigo layout. É como se o Yahoo tivesse aplicado uma camada de maquiagem para fazer com que as coisas pareçam modernas.

Assim, faltou polimento. Detalhes nas páginas das fotos, como o fato de elas não serem responsivas, ou o título ficar cortado se for longo, dão pistas de que foi um trabalho acelerado, feito em regime de urgência, sem a profundidade que um redesign sério pede. O uploader ainda traz ícones antigos e algumas áreas completas, como a navegação nas Comunidades (novo nome dos Grupos), passaram sem alterações por esse processo, ainda estão com a mesmíssima cara de antes.

Layout antigo nos grupos, digo, comunidades.

Para completar, os pontos onde o Flickr mudou radicalmente precisam de mais opções. A página inicial, antes repleta com vários streamings contextuais, relatório de atividades e atividades dos contatos, virou uma coluna com as últimas fotos dos seus contatos. Claro que isso não agradou muito quem se acostumou com o formato clássico, e mostra o foco maior do Flickr em ser popular — acompanhar somente a vida de seus contatos nunca foi o foco do site. Sem dar a opção de o usuário escolher o que quer ver em sua home, o Flickr se arrisca de forma perigosa.

Os perfis agora contam com uma imagem em alta resolução no topo e miniaturas nas proporções originais que formam um grid infinito. Os álbuns são apresentados de maneira mais interessante, quadrados uniformes com informações dentro, parecidos com as chamadas do Flipboard. E, já que estamos falando de minúcias (e elas são importantes!), incomoda bastante o fato de as barras fixa e do perfil serem ambas pretas, mas com acabamento diferente.

1 TB!

500 mil fotos no Flickr, de graça.

Em última análise, o Flickr não mudou tanto assim. Por baixo desse trabalho de funilaria com cara de inacabado, o site continua igual em funções e recursos. O que motivaria alguém a voltar a publicar fotos lá? O Yahoo aposta em (muito) espaço, 1 TB, ou 1024 GB. Segundo o próprio site, isso é suficiente para publicar mais de 500 mil fotos (com resolução de 6,5 MP). Sejamos bem claros: isso e o termo “ilimitado” são praticamente a mesma coisa em fotografia.

É um espaço gigantesco mesmo para os padrões dilatados atuais. Recentemente o Google anunciou a unificação da sua oferta de espaço gratuito, 15 GB para usar no Gmail, Drive e Google+. O SkyDrive, da Microsoft, começa com 7 GB. Nesse aspecto o Yahoo está muito à frente, quase da forma com que o Gmail, em 2004, arrasou a concorrência oferecendo 1 GB quando outros chegavam, se muito, a 25 MB.

Mas aí entram os asteriscos, ou as perguntas soterradas no FAQ. Christina Warren, do Mashable, escavou as que se referem aos novos planos e as notícias não são boas para quem paga pela conta Pro do Flickr — começando pelo fato de que esse plano deixou de existir. Se você já paga e tem ativado o pagamento recorrente, sua conta continuará assim até você cancelar o pagamento. E o que você leva com isso? Algumas coisas boas que foram limadas no novo Flickr.

O grande incentivo para assinar o Flickr Pro era o espaço ilimitado para guardar fotos. Contas gratuitas também podiam fazê-lo, mas apenas as 200 últimas permaneciam visíveis; as outras, ficavam escondidas até que o usuário pagasse a anuidade. Essa diferenciação acaba com o novo Flickr: todo mundo tem 1 TB de espaço, pode mandar arquivos enormes (até 200 MB; antes, contas gratuitas estavam limitadas a 10 MB), e vídeos, que também tiveram seus limites estendidos para até três minutos (antes, era um), 1 GB e resolução Full HD.

Como já falamos logo acima, 1 TB e “ilimitado” são termos muito parecidos em fotografia, e aqui os usuários Pro não perderam muita coisa. Outras vantagens dessa conta são a experiência livre de anúncios, a possibilidade de substituir fotos sem perder estatísticas, comentários e estrelas (você só troca uma foto por outra, sem prejuízo) e as estatísticas em si, que são bem completas e informam, além dos números crus, de onde vieram os cliques que levaram as pessoas até sua galeria. Como contra, os antigos limites da conta Pro, de 50 MB por foto e 500 MB por vídeo, continuam valendo.

E é por isso que o Flickr oferece a migração para a conta gratuita, onde esses limites mudam para 200 MB e 1 GB, respectivamente. Com isso o espaço fica limitado a 1 TB, perde-se estatísticas, substituição de fotos e os anúncios voltam. Aqui, parece claro para nós que o Yahoo e o Flickr fizeram uma escolha: democratizar o serviço gratuito para ter mais usuários, o que consequentemente significa dar menos foco aos clássicos heavy users da plataforma. Dar 1 TB para todo e qualquer usuário tem seu preço, e o Flickr precisa de mais pessoas para ser um serviço rentável e relevante novamente.

Se você gosta muito do Flickr e tem uma conta Pro, é uma boa ideia mantê-la assim — basta continuar pagando, simples. Caso você entenda que 1 TB de graça e arquivos maiores para upload valem a pena, o Flickr ainda traz alguns planos pagos que refletem este novo momento do serviço.

Novas opções de contas pagas no Flickr.

Por US$ 49 ao ano, o Yahoo oferece o Flickr livre de anúncios. Pode parecer pouca coisa, mas é uma opção simples para o usuário que se irrita com publicidade: pague um valor fixo, remova a publicidade, o Flickr não deixa de ganhar seu dinheiro, e todo mundo fica ok. O único porém é que este plano custa agora o dobro do que o Pro custava antes, e eliminou as estatísticas detalhadas, a substituição de fotos e espaço infinito. O que podemos concluir aqui? O Flickr entendeu que, apesar de animais, essas funções não eram tão utilizadas assim — a maioria dos usuários do Flickr simplesmente sobe um punhado de fotos para o site e não fica acompanhando estatísticas de clique. “Sempre se tratou se uma porcentagem bem pequena da base geral de usuários”, disse uma fonte anônima do Flickr para o TechCrunch. Novamente: em busca de popularizar o Flickr, o Yahoo mexeu na elite do serviço. (Há ainda uma oferta para dobrar o espaço, para 2 TB, por assustadores US$ 499/ano. Não consigo ver mais de mil pessoas usando isso, mas há louco para tudo.)

Queremos mais, Flickr

Perfil no novo Flickr.

Passada a euforia (“mexeram no defunto!”), fica visível que o Flickr ainda precisa se encontrar nessa era pós-Instagram/Facebook/500px. Ele saiu da inércia para… para onde? Falta direcionamento. Na tentativa de agradar a todos, de atirar para todos os lados, o Flickr ficou estranho. O redesign não passa de uma casca, os planos pagos mudaram demais, o único chamariz de fato é o 1 TB de espaço para todos os usuários. Um número grande assim pode atrair muita gente, mas não sei ao certo se será o suficiente para angariar tantos usuários de outras plataformas.

O Yahoo fez ontem o que tinha que ter feito em 2008, 2009: liberou apps legais para smartphones, um redesign moderno (ainda que fraco) e deu mais fôlego para usuários não-pagantes. Naquela época isso teria um grande. Hoje? Não aposto tanto assim. Acompanharemos de perto para ver. E já que ficamos oito anos esperando alguma mudança, qualquer mudança, não custava nada gastar mais alguns meses para entregar um produto finalizado. Nós entenderíamos. De verdade.