Antes de mais nada, é preciso esclarecer algumas coisas sobre o herdeiro da Samsung, Lee Jae-yong, e como sua família dirige a empresa: ele não faz aparições frequentes na mídia, desculpas são raras, e a sucessão familiar é certa. Mas em uma entrevista coletiva na quarta-feira (6), Lee não só pediu desculpas publicamente pelo seu papel em um escândalo de suborno envolvendo planos de sucessão, como também anunciou que decidiu não entregar a empresa para seus filhos.

O pedido de desculpas foi a primeira declaração pública de Lee em cinco anos; a última foi quando ele se desculpou publicamente pelo tratamento inadequado à Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) no Samsung Medical Center, um hospital em Seul. Na quarta-feira, ele também pediu desculpas pela recente quebra sindical da empresa e se comprometeu a garantir os direitos trabalhistas no futuro.

“Falhamos, às vezes, em atender às expectativas da sociedade. Nós até decepcionamos as pessoas e causamos preocupação porque não respeitamos estritamente a lei e os padrões éticos”, disse Lee na coletiva de imprensa, de acordo com a Reuters.

O escândalo em questão se iniciou em 2017, quando Lee foi acusado e preso por suborno, apropriação indébita e perjúrio. Lee e alguns outros executivos da Samsung foram considerados culpados por subornar a ex-presidente sul-coreana Park Geun-hye e sua confidente Choi Soon-sil em uma trama para assegurar que ele sucederia seu pai, Lee Kun-hee, que sofreu um ataque cardíaco em 2014 e não podia mais comandar a empresa.

Lee foi condenado a cinco anos de prisão. Ele cumpriu um ano de sua sentença, mas foi libertado em 2018 após um recurso para reduzir a sentença original e suspendê-la por três anos. No entanto, esse recurso foi anulado em agosto de 2019, o que significa que ele pode retornar à prisão. Tanto a Reuters quanto o The Korea Herald relatam que o pedido de desculpas de Lee foi aconselhado por um comitê interno de monitoramento de compliance, que recomendou que ele reconhecesse a culpa pelos erros da empresa.

Mas o que realmente importa é a questão da sucessão. A Samsung  é uma chaebol – um tipo de conglomerado empresarial familiar que se assemelha às dinastias empresariais. O chaebol é predominante na economia da Coreia do Sul e muitas marcas de grande porte como Hyundai e LG operam sob esse regime.

Muitas vezes, essas empresas são creditadas como responsáveis pelo “milagre econômico” sul-coreano. No entanto, alguns questionam se o chaebol está ultrapassado e mal adaptado para o século 21, já que concentram uma enorme parcela da riqueza do país em um pequeno número de famílias.

Na coletiva de imprensa, a Reuters aponta que Lee atribuiu as controvérsias em torno dele decorrentes da questão da sucessão.

“Não vou passar os direitos de gerência da empresa para meus filhos”, disse Lee, de acordo com o Korea Herald. “Pensei nisso por muito tempo, mas hesitei em tornar isso público.”

Romper com a tradição tem grandes implicações, não apenas para a Samsung Electronics – a empresa mais premiada do Grupo Samsung – mas também para as 59 afiliadas sob o guarda-chuva do aglomerado e para a economia sul-coreana em geral.