Uma lambida despretensiosa de um cachorro está sendo responsabilizada pela morte de um homem alemão saudável. É um caso médico estranho que envolve uma bactéria normalmente inofensiva, mas especialistas dizem que não há nada com que se preocupar e que a maioria de nós pode continuar deixando nossos cachorros babarem em nós.

Os seres humanos têm germes na boca, assim como os cachorros. Na maiorias das vezes, os germes dos cachorros não são um grande problema, exceto em casos raros em que humanos podem ser infectados por Capnocytophaga canimorsus — uma bactéria normalmente inofensiva — depois de serem mordidos por um cão. Mas, como mostra um novo estudo de caso publicado no European Journal of Case Reports in Internal Medicine, uma simples lambida de um cão também pode desencadear uma infecção bacteriana.

Como detalhado no caso de estudo, um homem de 63 anos de idade que morava na Alemanha morreu de tal infecção. O homem “havia sido tocado e lambido, mas não mordido ou ferido, por seu cachorro, seu único animal de estimação, nas semanas anteriores”, escreveram os autores do estudo de caso, liderado por Naomi Mader, do Hospital da Cruz Vermelha em Bremen, na Alemanha. É importante ressaltar que o homem estava previamente saudável e não tinha problemas de saúde pré-existentes, como um sistema imunológico comprometido, que poderia contribuir para a vulnerabilidade à bactéria.

A princípio, o homem teve sintomas semelhantes aos da gripe, apresentando dificuldades para respirar. A pele do rosto e das mãos passou a ter pequenas manchas vermelhas circulares e as dores musculares pioraram progressivamente. Ele decidiu procurar atendimento médico três dias após o surgimento dos sintomas.

Sob os cuidados da equipe médica, a condição do homem rapidamente evoluiu para sepse grave, uma condição com risco de vida no qual o corpo realiza um ataque químico maciço contra invasores. Nesse caso, o invasor estrangeiro era a bactéria Capnocytophaga canimorsus. Apesar de “cuidados intensivos”, a condição do homem continuou a se deteriorar até ele sucumbiu à falência múltiplas de órgãos, morrendo 16 dias após o início do tratamento.

À luz deste acidente, os autores do estudo de caso dizem que os donos de animais de estimação “com sintomas semelhantes aos da gripe devem procurar urgentemente aconselhamento médico quando seus sintomas excederem os de uma infecção viral simples”, que nesse caso era a dificuldade em respirar e as pequenas manchas circulares da pele (petéquias).

Com essas advertências úteis em mente, é importante ressaltar que este é um caso “excepcionalmente raro” e “peculiar”, de acordo com William Schaffner, especialista em doenças infecciosas no Centro Médico de Vanderbilt em Nashville, Tennessee (EUA).

“A bactéria Capnocytophaga canimorsus é conhecida por especialistas em doenças infecciosas como parte da população bacteriana normal que existe na boca dos cachorros, mas não em gatos ou humanos”, explicou Schaffner durante uma conversa telefônica com o Gizmodo. Os cachorros representam um “nicho ecológico peculiar para essa bactéria”, mas “não causa doenças em cães, e geralmente também não causa doenças em mais ninguém”, disse ele.

Ocasionalmente, mordidas de cachorros podem ser “complicadas por essa bactéria, mas mesmo assim é raro”, disse Schaffner, que não estava envolvido neste estudo de caso. “Este caso é incomum ao extremo. O ‘melhor amigo’ desse homem estava simplesmente sendo amigável, fazendo o que milhares de outros cachorros fazem todos os dias, lambendo seus donos nos narizes, bocas e lábios — isso acontece o tempo todo”.

Nesta circunstância, no entanto, e por razões ainda não esclarecidas, os pesquisadores assumem que a lambida do cão transmitiu a bactéria Capnocytophaga canimorsus ao seu proprietário. O incidente é tão estranho, disse Schaffner, que merecia seu próprio estudo de caso na literatura médica.

Dito isto, Schaffner disse que algumas pessoas não podem compartilhar esse tipo de intimidade com seus cães, ou seja indivíduos que vivem em um estado imunocomprometido. Isso inclui pessoas com HIV/AIDS que têm problemas no sistema imunológico ou pessoas que foram tratadas com agentes imunossupressores, como indivíduos em tratamento de artrite reumatoide ruim ou pacientes com câncer em recuperação de quimioterapia.

Não há nada de errado com pessoas imunodeficientes tendo cachorros, elas “simplesmente não devem ficar tão íntimas com eles”, disse Schaffner.