Depois de ser atingido por um calor recorde, os incêndios chegaram fortíssimos na Colúmbia Britânica, no Canadá, que registrou até chuva de raios na última quarta-feira (30). Lytton, uma cidade que ficou famosa por quebrar o recorde de altas temperaturas por três dias consecutivos, queimou completamente.

Os dados mostraram um escalonamento 710.117 raios — 5% de todos já contabilizados no Canadá em um ano. Acredita-se que isso foi causado em parte pelos incêndios que estão afetando o local. “O potencial para as coisas queimarem lá é extremo se ficar seco o suficiente”, disse Daniel Swain, cientista climático da Universidade da Califórnia em Los Angeles. “É o que está acontecendo. Estou sendo cuidadoso com minhas palavras. Eu suspeito que vai piorar muito.”

Já Chris Vagasky, meteorologista e gerente de medição de relâmpagos na Vaisala (empresa que comercializa serviços para medição ambiental), disse em um e-mail que os relâmpagos capturados por sensores no solo incluíram “quase 113 mil raios nuvem-solo”. Isso acontece porque o fogo cria nuvens pirocumulonimbus. Elas se formam quando o calor das chamas cria correntes ascendentes poderosas que levantam fumaça e cinzas para o céu. O ar esfria à medida que se eleva a dezenas de milhares de metros acima da superfície, e todas as partículas suspensas nele atuam como imãs para as gotículas de água. As nuvens, que são parte fumaça, que agem como se estivessem em uma tempestade e lançam raios para a Terra.

O exemplo mais recente de uma tempestade de raios ocorreu na Califórnia em agosto passado. Vagasky observou que, naquele momento, “ocorreram cerca de 20 mil raios” em um período de quatro dias — apenas uma fração do que está acontecendo no Canadá. O calor na época também estava longe de ser tão extremo quanto agora. Por sua vez, Swain afirmou que algumas das imagens de satélite mostram que as nuvens atingiram alturas próximas a 18.288 metros acima da superfície da Terra. Elas atravessaram a tropopausa, uma fronteira que delineia a atmosfera, e levaram fumaça para a atmosfera superior. Este é um comportamento de fogo extremamente rarefeito. “Basicamente, parecia uma erupção vulcânica”, disse o especialista.

 

Algo semelhante aconteceu com os incêndios florestais australianos de 2019-20, e um estudo divulgado no início deste ano descobriu que eles aqueceram a estratosfera por seis meses. Precisaremos de alguma pesquisa sobre os incêndios atuais para quais serão as consequências, mas o que está claro é que enfrentaremos impactos terríveis nos próximos meses. A Colúmbia Britânica é relativamente menos povoada do que lugares como a Califórnia, mas suas florestas são próprias para incêndios. O terreno íngreme de difícil acesso também significa que o fogo terá quilômetros para percorrer a floresta sem interrupções. Aqueles que vivem na região podem enfrentar condições perigosas semelhantes à Lytton — a cidade foi invadida por chamas em menos de uma hora. “Isso vai afetar um monte de áreas tribais e terras indígenas que não têm o mesmo nível de recursos outras cidades”, disse Swain. “Não quero desconsiderar o impacto humano.”

Swain também observou que esta poderia ser uma grande explosão de dióxido de carbono na atmosfera. O governo provincial estima que as florestas armazenam até 7 bilhões de toneladas de carbono. Se eles queimarem, porém, o carbono armazenado se transforma em dióxido de carbono na atmosfera. Assim como os incêndios florestais australianos e os incêndios florestais na Sibéria dos últimos anos liberaram pulsos massivos de dióxido de carbono, o mesmo pode acontecer agora. É um ciclo cada vez mais horrível das mudanças climáticas, tornando os incêndios florestais piores e, por sua vez, os incêndios florestais piorando as mudanças climáticas.

Assine a newsletter do Gizmodo

A previsão para os próximos dias não parece boa, com o aquecimento generalizado tomando na região. Estamos 24 horas no que parece ser um evento significativo. E embora possa haver uma grande chuva mesmo sendo esta a estação seca, é improvável, e isso pode significar um verão quente e enfumaçado. “Eu esperaria que a maioria desses incêndios durasse até a neve cair”, disse Swain. “Essa não é uma previsão ousada.”