Uma internet mais rápida irá chegar ao celular com nomes chiques como 5G e LTE-U. Mas como será essa tecnologia e quão bem funcionará, ainda é um mistério.

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“O 5G irá conectar todo mundo e todas as coisas”, disse Tim Baxter, presidente da Samsung Electronics America, para inúmeros repórteres e analistas no último final de semana. Baxter estava numa apresentação no Mobile World Congress, em Barcelona, e seu trabalho era convencer a plateia de que a sua empresa está no caminho do futuro. “Acreditamos na promessa do 5G”, disse ele.

A Nokia, que anunciou alguns novos telefones durante a feira, também falou do 5G. “Vai ajudar a moldar as vidas das pessoas”, disse o CEO da companhia, Rajeev Suri, durante a apresentação da empresa na MWC. Num evento mais cedo naquele mesmo dia, ele disse que o 5G “não é propaganda exagerada e logo se tornará realidade”.

Internet sem fio mais rápida está na mente de todo mundo nos últimos tempos: na semana passada, a FCC (equivalente à Anatel nos EUA) autorizou dispositivos LTE-U no espectro 5GHz, que antes era utilizado exclusivamente por aparelhos Wi-Fi e Bluetooth. Isso significa que as empresas de telecomunicações, como Verizon e T-Mobile, terão faixas maiores para transmitir a rede nos EUA. “Isso é um avanço significativo na inovação sem fio e uma grande vitória para consumidores wireless“, disse o presidente da FCC, Ajit Pai, em um comunicado. A T-Mobile imediatamente anunciou alguns planos para tirar vantagem da autorização até o final de 2017. No mesmo dia, a Verizon declarou que até o meio de 2017 os serviços 5G serão disponibilizados para 11 cidades.

Para ser justa com as empresas que estão alimentando toda essa expectativa sobre internet sem fio mais rápida, existe, de fato, uma promessa espetacular. Celulares com suporte ao 5G, ou até mesmo LTE-U, irão baixar em segundos coisas que hoje se baixa dentro de minutos. Além de altas velocidade, o 5G tem uma latência menor, então será possível jogar games multiplayer online, e sua melhor performance em centros populacionais densos significa que as chances das suas ligações caírem ou da conexão ficar muito lenta em lugares cheios de gente são menores.

Ir em direção às redes móveis mais rápidas também é positivo para comunidades rurais e regiões com populações menores. Nos Estados Unidos, por exemplo, muitas dessas pessoas utilizam conexão via satélite ou redes 4G inconsistentes. De acordo com Ajit Pai, da FCC, a nova internet pode ajudar a resolver esses problemas – uma das prioridades do órgão é diminuir a lacuna entre as pessoas que têm acesso à tecnologia de ponta e as que não têm. O cenário é diferente do que vemos no Brasil, já que, por aqui, muitas regiões dependem de conexões via rádio, por exemplo. No entanto, a chegada de novas tecnologias geralmente melhora o cenário geral.

Todas as grandes empresas e seus líderes estão dizendo as mesmas coisas: o futuro do 5G é agora. Mas acreditar neles significa que você terá que esquecer quem está, na verdade, criando a nova internet super rápida: organizações de normalização que falam de milagres e ciência complicada, teles e empresas de eletrônicos voltados para o público geral que sobrevivem de propaganda e promessas quebradas, e as agências reguladoras de cada país. O que significa que a verdadeira promessa de internet super rápida, seja LTE-U ou 5G, só virá bem depois que esses serviços forem disponibilizados para os consumidores.

O primeiro problema é que existem tecnologias diferentes disputando as velocidade da internet sem fio. Você tem o LTE-U, que é uma espécie de meio termo entre o 4G que temos hoje e o 5G, e a promessa do 5G no futuro. Um porta-voz da CTIA, um grupo de defesa da indústria, explicou que há uma diferença entre LTE-U e 5G – o LTE-U destina-se a “melhorar imediatamente o serviço”, enquanto os membros do CTIA “também estão investindo em tecnologia 5G”. É como se fosse um 4,5G.

Matt Wood, da FreePress, aponta que a promessa do LTE-U pode ser contraproducente. “LTE-U pode ser uma coisa boa para os usuários”, disse Wood ao Gizmodo. “O problema é a possibilidade dele afastar outros serviços não licenciados no espectro e quando isso pode acontecer”. O LTE-U opera no mesmo espectro que o Wi-Fi tradicional, que tem protocolos que evitam que qualquer outro roteador ou serviço prejudique um ao outro. Esse é o motivo pelo qual todas as pessoas no seu prédio conseguem ter seus próprios roteadores. “Se o LTE-U for agressivo e não seguir os protocolos estabelecidos, isso seria ruim”, disse Wood.

Enquanto isso, a outra tecnologia que pode amplificar a velocidade da internet do seu telefone também tem problemas. Primeiro, o 5G ainda não está claramente definido. 5G não é o nome específico da tecnologia, mas uma abreviação de quinta geração da redes móveis. Em 2015, a Next Generation Mobile Networks Alliance, um consórcio europeu de pesquisadores, operadoras e vendedoras wireless, publicou um artigo técnico tentando definir o 5G. A 3GPP, uma organização de padrões internacional, divulgou o seu próprio artigo técnico com o mesmo objetivo. A União de Telecomunicações Internacional (ITU, na sigla em inglês), organização sob o comando das Nações Unidas e que geralmente define os padrões das redes móveis, só revelou sua proposta na semana passada. Mas artigos técnicos e propostas, embora cheios de declarações ousadas e muita ciência, não são padrões oficiais. E, de acordo com o mesmo relatório da ITU, o padrão não deve ser definido até 2020.

Assim, grande parte da discussão em torno de 5G permanece tão nebulosa que falar sobre a tecnologia é mais ou menos como falar sobre a casa que você planeja construir enquanto ainda está na fase de projetá-la no The Sims. Com isso, as notícias sobre os principais desenvolvimentos do 5G se parecem menos com o futuro da internet móvel e mais com conversa fiada visando marketing. O que exatamente significa quando Qualcomm, Intel e Samsung anunciam modems e processadores compatíveis com 5G? Essas companhias estão planejando usar caminhos que simplesmente ainda não existem.

Parte do problema é que a internet móvel super rápida do amanhã é muito cara. Construir o 5G para funcionar com mais do que apenas os telefones – suportando também casas, carros autônomos e a Internet das Coisas – será tão caro quanto foi construir todo o cabeamento que utilizamos hoje. O 5G exige estações de base e de celulares assim como o 4G, e essas estações de base, para conseguirem lidar com as cargas demandadas por todos os dispositivos conectados, precisam ser abundantes, assim como as bases necessárias para soluções como o Google Fiber e Verizon FIOS.

“A conexão móvel depende de ter uma rede de comunicação no solo” disse Phillip Berenbroick, da organização sem fins lucrativos Public Knowledge, ao Gizmodo, “e a economia não mudou”.

E, mesmo quando a infraestrutura estiver pronta, ainda lidaremos com empresas que não são muito amigáveis com os consumidores. Nos Estados Unidos, as operadoras voltaram com a ideia de planos de dados ilimitados recentemente, mas as teles não possuem um bom histórico. O lucro sempre parece vir antes da experiência do usuário. E, no Brasil, a ideia de um plano móvel ilimitado parece impossível atualmente.

Por aqui, representantes da indústria, governo federal e Anatel lançaram o Projeto 5G Brasil. O objetivo é fomentar a construção do ecossistema no país e aumentar a participação nas discussões internacionais. O acesso à banda larga 4G no país vem aumentando consideravelmente, mas ainda está longe de alcançar todo o território. Um levantamento da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil) apontou que o 4G está em 569 municípios, que concentram mais da metade da população brasileira (58%).

O fato é que ainda temos um caminho longo pela frente, tanto no cenário local quanto global. Por enquanto, o 5G é só uma jogada de marketing.

Imagem do topo: Powerpig / Gizmodo