Se você sofre de enxaquecas, sabe muito bem como isso pode atrapalhar a vida de uma pessoa. No entanto, uma mulher do Reino Unido desenvolveu uma condição que ultrapassa qualquer dor de cabeça.

Devido às suas enxaquecas crônicas, Karen Porter, de 57 anos, desenvolveu uma sensibilidade à luz surpreendente ao longo dos anos, a ponto de sua casa ser iluminada apenas por uma fraca lanterna de acampamento. Quando exposta mesmo a uma claridade baixa, ela enxergava tudo “vibrando” ao seu redor, conforme ela descreveu ao seu médico durante uma consulta neurológica.

Manjit Matharu, do Hospital Nacional de Neurologia e Neurocirurgia, em Londres, examinou os olhos de Porter e percebeu que suas pupilas pareciam se mover de forma descontrolada, uma condição conhecida como “nistagmo”. Diante do diagnóstico, Matharu encaminhou a paciente ao neurologista Diego Kaski, especializado em distúrbios do movimento ocular e professor associado do Instituto de Neurologia da University College London.

O caso foi detalhado em um artigo publicado na segunda-feira (22) no Annals of Internal Medicine. Kaski e seus colegas afirmam que a condição de Porter é um exemplo do princípio de neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de se adaptar a mudanças do ambiente. O tratamento testado pelos médicos, portanto, foi expor a paciente à luz novamente de forma gradual.

Porter estava evitando a claridade por 18 meses. Quando Kaski a recebeu em sua clínica pela primeira vez, ela estava de olhos vendados e usando um chapéu, sendo que o médico precisou examinar seus olhos no escuro, já que ela não podia tolerar a luz do consultório.

O nistagmo é comum em pessoas cegas, mas Kaski verificou que a visão de Porter era completamente normal quando exposta à baixa claridade. Os exames de tomografia também confirmaram que ela não havia sofrido nenhum derrame recente, o que também poderia ser uma causa potencial dessa condição.

Kaski afirma que analisou o caso por várias semanas até que conseguiu encontrar a resposta em estudos realizados anteriormente com gatos e relatos de pessoas que ficaram presas em locais escuros. Foi em um livro antigo que ele se deparou com o “nistagmo de minerador”. No final dos anos 1800, alguns mineradores britânicos desenvolviam a condição após trabalhar em locais subterrâneos durante anos.

Na época, os médicos não conseguiram descobrir a causa real do nistagmo, e concluíram que se tratava de um distúrbio psicológico — os próprios mineradores estariam controlando o movimento ocular. Com o avanço da medicina, os médicos acreditam atualmente que a condição é uma consequência direta da privação visual e exposição constante a uma claridade extremamente baixa.

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Joseph Rizzo, neuro-oftalmologista do hospital Massachusetts Eye and Ear e professor da Harvard Medical School, que não esteve envolvido no estudo, explicou à StatNews que o cérebro desenvolve uma espécie de sistema de coordenadas baseado em estímulos visuais para que os olhos possam focar em um único ponto.

No entanto, sem esse estímulo visual, o cérebro não consegue utilizar esse sistema. Assim, a incapacidade de focar em alguma coisa faz com que os olhos continuem tentando, movendo em todas as direções de forma descontrolada.

Apesar de Kaski ter encontrado a resposta para a condição de Porter nos relatos centenários, não havia nenhuma sugestão de como tratar o nistagmo. A britânica começou a evitar a luz como uma forma de combater suas enxaquecas, mas Kaski acredita que a claridade não era responsável por causar as dores de cabeça. O que a escuridão pode ter feito é contribuir para crises menos severas.

Para curar o nistagmo de Porter, os autores do estudo decidiram expor a paciente à luz de forma gradual. O primeiro passo foi instalar interruptores que permitem ajustar a intensidade da luz, além de um monitor para medir o nível de claridade. Assim, semana após semana, o marido de Porter foi aumentando a iluminação da casa. Passado um tempo, ela percebeu que as coisas estavam “vibrando” menos e ela já era capaz de tolerar uma certa quantidade de luz durante a maior parte do dia.

O vídeo abaixo mostra como o nistagmo de Porter começou a reduzir após três meses até desaparecer por completo ao final de oito meses:

De acordo com o artigo, após 13 semanas, Porter era capaz de tolerar 50 lux (unidade de medida para calcular a intensidade da luz) durante 12 horas. Isso corresponde a ficar em um quarto amplo e com luz natural proveniente de algumas janelas, o que ainda poderia ser relativamente escuro para algumas pessoas. Após oito meses, Porter finalmente conseguiu visitar a clínica sem os olhos vendados para realizar os exames.

Assim como o nistagmo demonstrou a neuroplasticidade do cérebro de se adaptar a ambientes com pouca luz, essa capacidade também pode ser observada com a recuperação de Porter. Kaski temia que a condição pudesse ser permanente, mas a simples técnica de retomar a exposição à luz foi capaz de “treinar” o cérebro para reverter a condição.

Em um e-mail à StatNews, o marido de Porter afirmou que, apesar de ela conseguir tolerar uma quantidade maior de luz, as janelas de sua casa e do carro ainda são escuras e ela passa a maior parte do tempo em casa, saindo apenas para consultas médicas. Ainda assim, eles esperam mudar essa realidade no futuro.

[StatNews]