Eu amo o espaço. Eu estou realmente ansiosa para o ser humano explorar mais o universo e até mesmo aceito a ideia de voltarmos à Lua. O espaço oferece uma imensidão de descobertas científicas a serem feitas, uma chance de explorarmos os mistérios do universo e aprendermos mais sobre nós mesmos.

O que ele não é, e nunca será, é a chave para a salvação da nossa espécie.

Ainda assim, a ideia de que precisamos desbravar até a fronteira final para salvar a humanidade e, talvez, o próprio planeta Terra, tornou-se um dogma que prevalece entre um certo grupo de caras da tecnologia com uma mente cósmica.

Em 2016, Elon Musk revelou seus planos de estabelecer uma presença permanente em Marte, descrevendo o projeto de transformar a humanidade em uma “espécie multiplanetária” como o melhor e único jeitos de nos protegermos contra a extinção.

Na última quinta-feira (10), Jeff Bezos elevou a discussão a um outro nível com seu discurso de 50 minutos para anunciar a nova sonda lunar da Blue Origin. Na verdade, o discurso foi uma visão geral dos planos de Bezos de libertar a humanidade das algemas dos recursos finitos do nosso planeta.

“Durante toda a história da humanidade, a Terra parecia muito grande para nós”, declara Bezos à audiência. “Isso não é mais verdade. A Terra não é mais grande o suficiente. A humanidade é grande. A Terra pode parecer grande para nós, mas é finita”.

Após dispensar rapidamente assuntos como pobreza, fome, falta de moradia, poluição e pesca excessiva como “problemas imediatos urgentes”, Bezos apresenta à audiência a verdadeira crise enfrentada pela humanidade.

“Um problema fundamental e de longo alcance é que não teremos mais energia na Terra”, afirmou Bezos. “Não queremos parar de utilizar energia, mas ela é insustentável”. Segundo Bezos, a única forma de evitar cobrirmos “toda a superfície da Terra com células solares (dispositivo capaz de converter a energia da luz do Sol diretamente em energia elétrica)” é explorar além do nosso planeta natal.

“Se nos mudarmos para outras partes do sistema solar, para fins práticos, teremos recursos ilimitados”, afirmou Bezos, acrescentando que poderíamos ter “trilhões de humanos”, incluindo “milhares de Mozarts e Einsteins”. Como se elevar a população humana para outra ordem de magnitude não fosse ambicioso o suficiente, Bezos prosseguiu sugerindo que isso seja feito enfiando milhões de pessoas em cidades encapsuladas rotatórias – também conhecidas como “cilindros O’Neil” – onde teremos cidades, plantações e parques recreativos. Presumidamente, alguma corporação benevolente iria garantir um fornecimento contínuo de ar.

A Terra, diz o CEO da Amazon, se tornará uma zona “residencial e de indústrias mais leves”, enquanto as outras indústrias mais prejudiciais ao meio-ambiente serão transferidas para fora do nosso planeta.

“Temos que ter os dois”, disse Bezos. A Terra será preservada para futuras gerações, mas a humanidade não terá que desistir de “um futuro de dinamismo e crescimento”.

Olha, eu entendo. Isso tudo parece muito animador, e não há nada que um bilionário do Vale do Silício goste mais do que propagar um pouco de otimismo tecnológico. Mas será que, talvez, não estejamos indo um pouco longe demais? Será que não deveríamos, quem sabe, descobrir uma maneira de vivermos de forma sustentável no único planeta capaz de suportar vida humana antes de pensarmos em como recriar milhões de versões em miniatura em uma cápsula fria e escura?

Bezos negligencia muitos problemas do século 21, mas eles são crises reais, enfrentadas por humanos reais, no momento. Se não controlarmos urgentemente as mudanças climáticas e descobrirmos como evitar a extinção de milhões de espécies, existe uma grande chance de nunca chegarmos nem perto de maximizar os “recursos finitos” da Terra porque, no caso, estaríamos todos mortos.

E, honestamente, não estamos nem perto de utilizar todos os recursos do nosso planeta. Até mesmo Bezos reconhece isso em seu discurso quando menciona que poderíamos transformar todo o estado de Nevada em uma fazenda solar e fornecer energia para toda a humanidade. O Departamento de Energia dos Estados Unidos calculou que existe energia mais que suficiente proveniente dos ventos dos litorais norte-americanos para alimentar cada residência do país.

Os metais raros da Terra que são minerados para ajudar na transição de energia são abundantes na crosta terrestre. Por enquanto, só conseguimos acessar pequenas quantias deles, mas desenvolver novos recursos na Terra ou investirmos em tecnologia para utilizá-los de forma mais eficiente são soluções muito mais sensatas do que minerar esses mesmo metais nos anéis de Saturno.

Nós poderíamos dedicar uma fração dos recursos utilizados para desenvolver os cilindros O’Neil a um programa de fusão energética, e daqui a um século poderíamos estar alimentando cidades inteiras com energia proveniente da água do mar.

Talvez Bezos pudesse investir até mesmo alguns dos recursos que a Amazon está utilizando para automatizar a extração de óleo.

E não podemos esquecer que o recurso mais crítico e finito de todos só está disponível aqui na Terra: biodiversidade.

Não podemos existir sem a complexa e delicada teia da vida da qual a nossa espécie faz parte – são trilhões de micro-organismos que sustentam e circulam nutrientes pelo solo e pelo mar, plantas que produzem nosso oxigênio, inúmeras espécies a partir da qual desenvolvemos novos remédios ou nos inspiramos para criar novas tecnologias.

Nós não descobrimos nem mesmo como evitar que uma parcela considerável dessa biodiversidade totalmente insubstituível desapareça da Terra e agora queremos tentar reconstruí-la do zero em um vácuo?

Nossa espécie está brincando de Deus no modo fácil e ainda estamos perdendo. Deixar um planeta com água e oxigênio em abundância e que se localiza em uma zona habitável do sistema solar não facilita as coisas – pelo contrário, as torna mil vezes mais difíceis.

Uma coisa que eu e Jeff Bezos temos em comum é que nós dois amamos The Expanse, uma série de ficção científica que se passa a alguns séculos em um futuro em que humanos se espalharam pelo sistema solar. Milhões vivem em Marte, que está no processo de terraformação intergeracional, e incontáveis colônias pequenas estão distribuídas por todo o cinturão de asteroides.

A série é ótima, mas eu suspeito que, de alguma forma, nós interpretamos a mensagem principal de maneiras diferentes. Eu imagino que, na série, Bezos enxerga um cenário para a humanidade se libertar ao escapar permanentemente da gravidade da Terra. Eu enxergo humanos lutando para sobreviver em um ambiente hostil, seus corpos mudando de forma imprevisível e perigosa, e eles estão apenas a alguns cascos de aços e metros quadrados de ar de uma morte dolorosa em um vácuo frio e escuro.

Talvez nós possamos expandir a humanidade para além da Terra um dia, e isso seria incrível. Mas esse planeta sempre será o nosso lar. E precisamos descobrir como mantê-lo habitável antes de pensarmos em nos aventurar mundo afora.

Não tem como recomeçar se perdermos.