Um restaurante de frutos do mar no estado americano do Maine diz ter mais compaixão com as lagostas que são servidas: eles deixam os bichos chapados primeiro. O Charlotte’s Legendary Lobsters Pound agora oferece aos clientes a opção de deixar seus deliciosos crustáceos “sedados” com maconha antes de cozinhá-los no vapor até a morte.

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De acordo com a proprietária Charlotte Gill, Roscoe foi o primeiro crustáceo com quem ela usou o método. Ela o colocou em uma caixa fechada e soprou fumaça de cannabis na água, como em um bong reverso. Gill afirma que a lagosta aparentou mais tranquilidade e que isso teve um efeito calmante até mesmo em seus amigos que em breve seriam comidos quando ela a colocou de volta no tanque.

“Se nós vamos tirar uma vida, temos que ter responsabilidade de fazer isso da forma mais humanizada possível”, disse a chef ao jornal local Mount Desert Islander. A história teve uma grande repercussão, para deleite dos jornalistas que escrevem manchetes e dos departamentos de arte dos grandes veículos.

A droga usada para sedar as lagostas é cultivada por Gill, que é uma cuidadora com licença médica para maconha, o que permite que ela tenha a posse de até 70 gramas e seis plantas maduras. Entretanto, ela enfatiza que os crustáceos “altos” não vão deixar humanos chapados, pois qualquer resíduo do THC evapora na temperatura que o alimento é preparado.

Mas o quão efetiva é a técnica de colocar a lagosta para inalar fumaça antes de colocá-la viva no vapor? Alguns crustáceos têm, de fato, receptores de canabinoides, de acordo com um estudo britânico, mas ainda há muitas questões a serem respondidas. Os receptores das lagostas funcionam do mesmo jeito que as dos humanos? A maconha teria um efeito semelhante nesses animais? Se sim, ela faria alguma coisa pela dor? Eles sentem dor, em primeiro lugar?

Nessa edição do Giz Pergunta, nós procuramos os maiores especialistas em zoologia de invertebrados e biologia marinha (e a PETA) para tentar responder algumas dessas questões, e determinar se este estabelecimento está realmente aliviando a dor das lagostas ou só desperdiçando uma boa erva.

Maurice R. Elphick, Ph.D

Professor de Fisiologia e Neurociência Animal na Escola de Ciências Biológicas e Químicas da Universidade Queen Mary de Londres.

THC, o principal constituinte psicoativo da cannabis, exerce seus efeitos de alívio da dor em humanos e outros mamíferos ligando-se a proteínas chamadas receptor canabinoide-1 e receptor canabinoide-2 (CB1 e CB2)

Mesmo que as lagostas tenham proteínas do tipo CB1 e do tipo CB2, isso não sugeriria necessariamente que a maconha pudesse aliviar a dor, já que os sistemas nervosos delas são muito diferentes dos encontrados em mamíferos.

Daniel Rittschof, Ph.D.

Professor de Ciências Ambientais, Universidade Duke

Tenho certeza que nenhum cientista fez essa pergunta. Minha resposta é que é provável que lagostas tenham receptores que poderiam responder aos ingredientes ativos. Ninguém mostrou, até onde eu saiba, que estes animais sentem dor. Eu ficaria surpreso se não sentissem. Também não há informações de que caminhos ela percorreria em lagostas.

Marc J. Weissburg, Ph.D.

Professor de Ecologia e Biologia Evolucionária, Universidade do Estado de Nova York em Stony Brook.

Meu instinto diz que isso provavelmente não funciona. Talvez uma maneira melhor de dizer isso é que não há evidências de que funciona e algumas evidências sugerem justamente o contrário.

Insetos (que são “parentes” dos crustáceos) não têm os receptores neurais no cérebro que produzem o mesmo efeito dos canabinoides em vertebrados. Eu teria que ir um pouco mais a fundo para ver se os crustáceos (como a lagosta) têm (é improvável, já que os insetos não têm, mas é possível) ou outros receptores que podem executar essa função (quase certamente desconhecidos).

James M. Carpenter, Ph.D.

Chefe da Divisão de Zoologia de Invertebrados do Museu Americano de História Natural, curador de coleção familiar de himenópteros do Peter J. Solomon

Essa descrição é insuficiente para simplesmente aceitar a alegação: não há motivos para acreditar que o princípio ativo é de fato levado até as guelras da lagosta, muito menos ter algum efeito no sistema nervoso do animal.

Lynne U. Sneddon, Ph.D.

Diretor de Ciências Bioveterinárias da Universidade de Liverpool

Em pequenas doses, algumas cepas de cannabis podem agir como sedativo. Mas, em doses maiores, algumas cepas funcionam como estimulante. Além disso, a cannabis é usada por humanos como forma de aliviar a dor crônica e é moderadamente bem sucedida. Até onde eu sei, ninguém testou cannabis em lagostas e outros crustáceos no que diz respeito à dor ou à sedação. É possível que tenha efeito sedativo, mas isso precisaria ser provado através de uma investigação científica.

PETA

É altamente improvável que deixar uma lagosta chapada faça qualquer diferença na agonia completa de ser cozido vivo, na água ou no vapor. Há um método estabelecido e infalível de evitar que crustáceos sofram que é não comê-los. A PETA oferece receitas de lagostas veganas com gosto similar — incluindo uma feita de soja — e apela que as pessoas comam pela vida, dos animais e de suas próprias vidas, já que a lagosta tem muito colesterol.

Imagem do topo: Getty