A Lego continua a ter uma das linhas de brinquedos mais populares e valiosas, mas os produtos da empresa também estão entre os menos acessíveis para deficientes visuais. Para remediar isso, a fabricante de brinquedos dinamarquesa anunciou um programa piloto para atualizar suas instruções de construção com descrições verbais, de modo que cada etapa seja compatível com braille e leitores de tela – e seu uso de AI para automatizar o processo demorado.

No início deste ano, a Lego alavancou a popularidade e o design icônico de suas peças de construção para ajudar no ensino de braille para crianças, mas essa nova iniciativa não tem nada a ver com aprendizado. Lego não é completamente inacessível para os deficientes visuais, pois eles ainda podem empilhar blocos e construir qualquer coisa que eles possam imaginar. Mas a popularidade do brinquedo, pelo menos nas últimas décadas, tem sido resultado dos conjuntos licenciados da empresa – o que inclui desde Harry Potter a Marvel e Star Wars – e são esses conjuntos que são inacessíveis para crianças e até mesmo adultos colecionadores, a menos que haja outra pessoa descrevendo e guiando-os diligentemente em cada passo das instruções de montagem que são altamente visuais.



Há alguns anos, uma história sobre Matthew Shifrin, um entusiasta cego da Lego, circulou pela internet. No seu aniversário de treze anos, uma amiga, Lilya Finkel, deu a ele não apenas um enorme conjunto de 841 peças de Lego, mas um fichário igualmente gigante, com centenas de páginas que traduziam as instruções de montagem em uma notação especial que ela desenvolvia que descrevia verbalmente como todas as peças se encaixavam, sem o uso de nenhuma imagem.

Shifrin compartilhou isso com o mundo, e Finkel acabou criando instruções para mais de 20 conjuntos de Lego, mas foi um processo extremamente demorado e, infelizmente, quando ela faleceu em 2017, ela não tinha sequer alcançado uma pequena parte da enorme coleção de conjuntos da Lego.

Um exemplo das descrições baseadas em texto para a construção de um modelo específico de Lego. Captura de tela: The Lego Foundation

Através de um amigo no MIT, Shifrin finalmente conseguiu entrar em contato com o Lego Group, que não apenas encontrou uma maneira inovadora de continuar o trabalho de tradução de Finkel, mas de automatizá-lo quase completamente.

Em parceria com o Instituto Austríaco de Pesquisa de Inteligência Artificial, uma nova IA foi desenvolvida para traduzir os modelos 3D e as instruções para montar um modelo Lego (conhecido como LXFML ou LEGO Exchange Format Mel Script) em descrições passo a passo baseadas em texto que podem ser exibidas em um leitor de braille ou lido em voz alta por um leitor de tela como instruções de voz. A IA ainda está sendo aperfeiçoada, mas a Lego espera que ela acabe não apenas convertendo as instruções da vasta biblioteca de conjuntos da empresa, mas também para cada novo conjunto assim que for lançado, em qualquer idioma necessário, com um mínimo de esforço ou interferência humana.

Foto: The Lego Foundation

Por enquanto, em um novo site acessível – www.legoaudioinstructions.com – a Lego lançou manuais de instrução inclusivos (em inglês) para quatro conjuntos que incluem Lego Classic Bricks e Ideas, Lego Friends Emma’s Art Shop, Lego City Sky Police Drone Chase, e o Workshop ‘Build and Fix’ de Emmet e Benny de The Lego Movie 2. É um primeiro passo importante, e com base no feedback sobre esses quatro primeiros conjuntos, a empresa pretende lançar mais deles no início de 2020, e esperamos também que ela considere mudar as embalagens utilizadas. Além das instruções especiais que havia criado, Finkel também classificou e re-embalou as peças do conjunto que deu de presente para Shifrin muitos anos atrás, para que fosse mais fácil encontrá-las enquanto ele trabalhava em cada passo.

A iniciativa não é apenas sobre a Lego expandir seu mercado e poder vender conjuntos para ainda mais crianças, ou até mesmo uma chance para a empresa gerar alguma campanha de relações públicas positiva. Conjuntos de Lego também podem ser uma excelente ferramenta de aprendizagem para cegos e deficientes visuais.

Os modelos podem servir como substitutos em miniatura acessíveis para coisas do mundo real, como edifícios famosos e monumentos ou veículos. Explorar e entender o design de algo tão único quanto o Sydney Opera House para alguém com deficiência visual só pode ser feito por meio de uma réplica ou modelo. E a flexibilidade do Lego significa que em uma semana eles podem estudar a arquitetura da ópera, e na próxima semana esse modelo pode ser reconstruído como a London Tower Bridge.