Um novo estudo encontrou mais evidências de que os humanos estão conduzindo a sexta extinção em massa do mundo. Publicada nesta segunda-feira (2) no Proceedings of the National Academy of Sciences, a pesquisa se concentra em vertebrados terrestres – anfíbios, aves, mamíferos e répteis – e descobriu que mais de 500 espécies estão “à beira da extinção”, segundo o artigo.

A extinção dos vertebrados não se trata apenas de perder belas criaturas. Toda e qualquer espécie desempenha algum tipo de função ecológica. A perda de uma única espécie pode ter um efeito de cascata sobre o seu ecossistema, com efeitos que podem impactar também os seres humanos.

“A atual crise de extinção é um dos problemas ambientais globais mais urgentes e o único verdadeiramente irreversível”, disse o autor do estudo, Gerardo Ceballos, pesquisador do Instituto de Ecologia da Universidade Nacional Autônoma do México, ao Gizmodo. “Uma vez desaparecida uma espécie, não há como trazê-la de volta. Nosso trabalho indica que isso está se acelerando muito”.

Os autores do trabalho se basearam em conjuntos de dados compilados pela União Internacional para a Conservação da Natureza, que rastreia espécies ameaçadas de extinção.

Eles analisaram 29.400 espécies de vertebrados terrestres e usaram o tamanho de sua população para mapear as espécies de maior risco – ou seja, aquelas com população menor do que 1.000 indivíduos. Os autores também analisaram as espécies com populações menores que 5.000 indivíduos para destacar quais espécies podem ser as próximas a correr esse risco.

Pelo menos 1,7% das espécies de vertebrados terrestres têm menos de 1.000 indivíduos. Isso inclui espécies como o rinoceronte-de-sumatra e a tartaruga-gigante-de-galápagos. A maioria dessas espécies está localizada na América do Sul e nos trópicos em geral. As aves constituem a maior proporção das espécies impactadas. As descobertas corroboram pesquisas anteriores que mostram que as aves, em particular, sofrem com as pressões do desmatamento e das mudanças climáticas, o que pode desarticular seus ritmos migratórios.

Enquanto este conjunto de dados observa espécies com menos de 1.000 indivíduos, os cientistas descobriram que, na realidade, muitos dos números dessas espécies são menores. Estima-se que mais da metade dessas espécies tenha populações de 250 indivíduos ou menos. Isso vale principalmente para os mamíferos e anfíbios.

Pesquisas anteriores indicam que os anfíbios – inclusive aqueles que ainda não descobrimos – estão extinguindo a um ritmo espantoso. Há 903 espécies de vertebrados com menos de 5.000 indivíduos restantes, indicando que aqueles que estão no limite poderão ter mais companhia em breve.

“Ao focar nas espécies de vida selvagem que costumam ganhar mais atenção dos seres humanos, incluindo mamíferos e aves que estão reduzidas a menos de 1.000 indivíduos, esses cientistas apontam que a extinção está se acelerando, e isso está minando os sistemas de suporte de vida dos quais a humanidade depende”, disse Tierra Curry, uma cientista sênior do Centro de Diversidade Biológica que não estava envolvida neste trabalho, em um e-mail para o Gizmodo.

“Eles estão afirmando claramente que a própria sobrevivência da humanidade está em jogo. Não estamos mais olhando para a perda de espécies obscuras que a maioria das pessoas não está interessada. Estamos olhando para a aniquilação biológica”, completou.

Os dados sobre algumas espécies de fauna silvestre são bastante limitados, o que significa que essa destruição pode ser muito pior do que os números dizem. Ceballos acredita que haja mais espécies no limiar do que as delineadas no novo estudo. Até que os cientistas possam coletar dados sobre o tamanho de suas populações, o número de espécies em risco permanece um mistério.

A questão é que estamos ficando sem tempo de ação para salvar essas espécies. Um relatório histórico divulgado no ano passado descobriu que poderíamos ver um milhão de espécies serem extintas nas próximas décadas, tudo devido aos seres humanos.

A destruição do habitat, o comércio da vida selvagem e as mudanças climáticas estão pressionando o mundo natural. As taxas de extinção atuais são centenas ou milhares de vezes mais rápidas do que as taxas que vimos durante os eventos de extinção anteriores.

Para contextualizar isso, nos últimos 100 anos, Ceballos disse que perdemos tantas espécies quanto historicamente teríamos perdido em 10.000 anos caso os humanos não estivessem alterando o meio ambiente de forma tão radical.

Isso também significa que estamos ficando sem tempo para nos salvarmos. Precisamos do mundo natural o mais intacto possível, pois ele fornece serviços ecológicos que o ser humano costuma acreditar que estão garantidos pata sempre. Isso inclui a filtragem da água doce, a proteção das margens contra tempestades e a polinização de culturas, entre inúmeros outros.

Até que possamos criar medidas suficientes para proteger os habitats e acabar com o comércio ilegal de vida selvagem que alimenta essa crise, esse evento de extinção continuará a se desenrolar.

“Já aconteceram cinco extinções em massa”, disse Ceballos ao Gizmodo. “Essa é a única causada pelos humanos. E é muito diferente por isso. Nós somos a causa. Mas a nossa sobrevivência está em jogo por causa dessa perda maciça de espécies.”