Se você é um empregado em uma corporação gigante, você provavelmente deveria ficar aterrorizado pela visão do futuro de dispositivos conectados que a Microsoft revelou em sua conferência para desenvolvedores Build, em Seattle.

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Duas demonstrações da apresentação principal desta quarta-feira (10) se destacaram, ambas por serem divertidas e por revelarem um futuro potencialmente assustador para qualquer um trabalhando para uma grande empresa que deseja monitorar detalhadamente seus empregados.

A primeira tinha câmeras observando empregados em um local de obras de construção. As câmeras são ligadas à nuvem, onde uma inteligência artificial monitora tudo em tempo real, notando identidades dos empregados assim como identificando quase todas as peças de equipamento no local de trabalho.

Isso sem dúvidas é legal, especialmente porque a inteligência artificial consegue notar instantaneamente a presença de alguém que não deveria estar no local, ou identificar quando alguém está usando um equipamento perigoso de maneira mal-aconselhada.

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Mas isso é também meio assustador. A demonstração da Microsoft deliberadamente focou em um local de construção, onde acidentes são bastante comuns e uma inteligência artificial supervisora faz sentido. Observar violações de segurança ou invasores rapidamente e então retransmitir essa informação para um funcionário via notificações de celular pode genuinamente salvar membros e vidas.

Mas meu cérebro imediatamente começou a conjurar um cenário muito mais opressivo. Um em que essas câmeras estivessem em algum escritório, onde pessoas vão trabalhar de saias ou com camisas de botão. Não um lugar em que segurança seja a principal preocupação, mas, em vez disso, um local em que empregadores obsessivamente monitoram empregados em uma tentativa errônea de maximizar o lucro explorando as engrenagens de sua máquina.

Com um sistema de vigilância como esse, você não poderia convidar seu amigo para dar uma passada pelo escritório para almoçar, porque seu chefe saberia, já que uma notificação instantaneamente apareceria em seu celular. Não haveria mais almoços longos ou a retirada de materiais de escritório extras do armário. Tirou mais pausas para fumar ou teve uma indigestão que te fez passar mais tempo do que o normal no banheiro? A inteligência artificial conseguiria notar isso tão rapidamente que seu chefe conseguiria te encontrar no meio do corredor com uma garrafa de Pepto Bismol.

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Nesta imagem, um empregado está recebendo uma notificação porque esse cara não depositou o martelo corretamente (Imagem: captura de tela)

O pouco de autonomia que muitos empregados ainda têm no escritório seria erradicado se esse sistema saísse dos locais de construção para ambientes de trabalho mais tradicionais.

Isso é ainda melhor ilustrado pela outra grande demonstração da apresentação principal do Dia 1 da Build. Ela focou na Cortana e em como a assistente poderia agora estar em todos os cantos, em vez de apenas limitada ao seu notebook ou telefone. A demonstração mostra uma mulher conversando por meio de um alto-falante inteligente Invoke em um ambiente que simula sua casa. Então, a assistente a lembra que ela tinha uma reunião. Ela pula no carro, onde a Cortana prontamente lhe avisa que o trânsito vai fazê-la se atrasar e notifica seu trabalho sobre o atraso, colocando-a em uma reunião já em curso.

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Isso parece muito legal e conveniente, mas tem algo que a Microsoft não mencionou. Essa mulher estava logada em sua casa e em seu carro com o ID de seu trabalho, o que significa que potencialmente seus chefes agora poderiam ter acesso a dados de sua vida em casa e no trânsito. Se o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal lhe preocupa um pouco, deve ser alarmante o fato de que o alto-falante inteligente de sua casa pode um dia lhe dizer para se apressar e ir para o escritório porque você está atrasado – e cronicamente atrasado.

Essas demonstrações ilustram as trocas inerentes a um mundo em que usamos cada vez mais dispositivos conectados. Você tem que abrir mão de sua privacidade para conseguir colher os benefícios de uma rede de dispositivos ligados a você e a seus caprichos. Mas as realidades dessas trocas começam a piorar com a Microsoft, porque, apesar de sua gama de produtos para o consumidor, como o Surface Pro e o Microsoft 10 Home, a empresa está no ramo de trabalhar com empresas.

Elas são seus principais clientes, e foi com elas que a Microsoft passou maior parte de sua apresentação falando. Você não é o modelo de negócio deles, sua empresa é. Pedir aos consumidores que entreguem seus dados para uma grande corporação sem rosto como o Google para que ela possa vender anúncios é uma coisa. Mas pedir-lhes o mesmo para também dar esses dados às pessoas que assinam seus cheques é outra completamente diferente.

Imagem do topo: Alex Cranz/Gizmodo