A Microsoft garantiu um contrato de mais de US$ 479 milhões com as Forças Armadas dos EUA para a criação de protótipos de Integrated Visual Augmentation System (IVAS), ou “Sistema Integrado de Aumento Visual”, segundo a Bloomberg noticiou nesta quarta-feira (28). O acordo, que foi disputado também por outras empresas, expande o relacionamento da companhia com os militares.

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De acordo com a proposta do governo norte-americano, o programa pretende “acelerar capacidades ofensivas e defensivas letais utilizando componentes inovadores”. A Bloomberg informou que o contrato poderia levar as forças armadas a comprar mais de 100 mil headsets de realidade aumentada da Microsoft, colocando os militares como um grande consumidor da tecnologia HoloLens, da companhia. As especificações fornecidas pelos militares mostram que os dispositivos parecem destinados a serem usados em papéis de combate ativos:

Espera-se que os dispositivos variem em relação a versões para consumidor em um punhado de aspectos-chave. Em um documento compartilhado com as empresas que disputavam o contrato, o Exército disse que queria incorporar visão noturna e sensoriamento térmico, medir sinais vitais como respiração e “prontidão”, monitorar concussões e oferecer proteção auditiva. A empresa disse que o vencedor da licitação deverá entregar 2.500 headsets dentro de dois anos e exibir capacidade de produção em grande escala.

“A tecnologia de realidade aumentada fornecerá às tropas mais e melhores informações para tomar decisões”, disse um porta-voz da Microsoft ao Gizmodo, em um comunicado por e-mail. “Esse novo trabalho amplia nossa longa e confiável relação com o Departamento de Defesa para essa nova área.”

O contrato é uma derrota notável para concorrentes como a Magic Leap, que a Bloomberg disse estar entre as mais de duas dúzias de empresas que se reuniram com o Exército (embora talvez seja questionável se a Magic Leap algum dia foi mesmo uma concorrente nessa licitação).

Como apontou a Bloomberg, a notícia do contrato chega em meio à disputa entre a Microsoft e seus funcionários, que levantaram preocupações sobre sua proposta para o contrato Joint Enterprise Defense Infrastructure (JEDI), um acordo militar de computação em nuvem avaliado em até US$ 10 bilhões. Os funcionários da Microsoft também levantaram preocupações sobre outros contratos com órgãos do governo que enfrentam críticas por motivos de direitos humanos, incluindo a Agência de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês).

“Muitos funcionários da Microsoft não acreditam que o que construímos deva ser usado para travar uma guerra”, escreveram empregados da Microsoft em uma carta aberta no mês passado. “Quando decidimos trabalhar na Microsoft, estávamos fazendo isso na esperança de ‘empoderar cada pessoa no planeta para conquistar mais’, não com a intenção de acabar com a vida e aumentar a letalidade.”

O presidente da empresa, Brad Smith, mais tarde defendeu a decisão da companhia de oferecer sua tecnologia para uso militar, basicamente citando patriotismo e afirmando que a Microsoft acredita “na forte defesa dos Estados Unidos” por meio de tecnologia de ponta como a sua.

Smith também apontou o relacionamento contínuo da companhia com o Departamento de Defesa, alegando que a proposta para o projeto JEDI era simplesmente uma extensão de seus serviços para um exército que já é amplamente dependente de sua tecnologia. Ele incluiu um curioso ponto que parecia argumentar que os militares deveriam ter acesso à tecnologia da Microsoft porque os soldados libertaram escravos durante a Guerra Civil e lutaram contra os nazistas:

Nós decidimos prontamente, neste verão, realizar este projeto, dado nosso apoio de longa data ao Departamento de Defesa. Todos que vivemos neste país dependemos de sua forte defesa. As pessoas que servem ao nosso serviço militar trabalham para uma instituição com um papel vital e história crítica. É claro que nenhuma instituição é perfeita ou tem um histórico impecável, e isso tem sido verdade para os militares americanos. Mas uma coisa é clara. Milhões de americanos serviram e lutaram em guerras importantes e justas, inclusive ajudando a libertar afroamericanos que foram escravizados até a Guerra Civil e a libertar nações que haviam sido submetidas à tirania em toda a Europa Ocidental na Segunda Guerra Mundial. Hoje, os cidadãos em nossas forças armadas arriscam suas vidas não apenas como a primeira linha de defesa do país, mas também como a primeira linha de assistência do país ao redor do mundo em furacões, inundações, terremotos e outros desastres.

Não tenho certeza se existe alguma maneira perfeita de defender as relações comerciais questionáveis da sua empresa com o complexo militar-industrial, mas essa, definitivamente, não é uma delas.

[Bloomberg]