A mineração de ouro está se tornando uma ameaça cada vez mais perigosa para a Amazônia. Um novo estudo descobriu que quase nenhuma árvore ou planta cresce onde havia minas. Esta é uma má notícia para a vida selvagem que depende da vegetação para o habitat. Sem árvores ou vegetação, porém, a Amazônia também não pode armazenar tanto carbono para evitar um maior aquecimento global.

O estudo, publicado no Journal of Applied Ecology, descobriu que poços de mineração abandonados e lagoas de rejeitos na Guiana quase não tiveram recuperação da vegetação três a quatro anos após o fim da mineração.

As taxas de recuperação estão entre as mais baixas já registradas para as florestas tropicais. Esta falta de crescimento reduziu o sequestro de carbono da floresta em cerca de 21.000 toneladas de carbono por ano, segundo o estudo.

Embora pesquisas anteriores tenham usado imagens de satélite para medir o impacto da mineração de ouro sobre o meio ambiente, este estudo envolve uma investigação no terreno com medições minuciosas. É o primeiro estudo a oferecer uma imagem completa do que a mineração de ouro pode estar fazendo na Amazônia.

“A mineração de ouro tem consequências muito mais duradouras sobre as florestas do que outros motores de desmatamento”, escreveram as autoras Michelle Kalamandeen, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Cambridge, e David Galbraith, professor associado da Universidade de Leeds, em uma declaração por e-mail ao Gizmodo. “Nosso estudo indica que a restauração ativa será necessária para recuperar as florestas da mineração.”

A atividade de mineração vem crescendo em países do norte da Amazônia, como a Guiana e a Venezuela. As minas de pequena escala são os principais motores da devastação, que também podem contaminar o meio ambiente em geral se poluentes tóxicos se derramarem nos cursos d’água ou lixiviarem para o solo. Esta é uma preocupação extra para as comunidades indígenas que vivem e dependem dos recursos da floresta para sobreviver.

Os autores do estudo instalaram nove lotes de monitoramento em duas áreas centrais de mineração de ouro na Guiana, de janeiro a março de 2016. Em seguida, fizeram checagens entre junho e agosto de 2017 para procurar mudas, árvores individuais ou plântulas. Eles tiveram que excluir quase metade dos lotes porque os mineiros já tinham começado a lavrá-las novamente até 2017, o que é outra questão completamente diferente e pode ter um impacto ainda maior nas concentrações de mercúrio.

O estudo constatou que tanto os altos níveis de mercúrio quanto os baixos níveis de nitrogênio no solo afetam a capacidade da vegetação de se regenerar, sendo o nitrogênio um indicador preditivo particularmente bom.

Em comparação com os lotes de controle em ambos os locais examinados pela equipe, os lotes anteriormente minerados tinham níveis de nitrogênio esgotados. Sem os nutrientes necessários, a floresta teve dificuldades para crescer. Onde os níveis de nitrogênio eram mais altos, mas a acumulação de biomassa ainda era baixa em comparação com as parcelas de controle, a equipe notou que os níveis de mercúrio ainda eram altos. Entretanto, a quantidade de mercúrio medida era muito menor do que a encontrada nos locais de mineração ativa, o que sugere que o mercúrio está lixiviando rapidamente para os solos e cursos d’água circundantes.

“Isto não só tem sérias consequências para nossa batalha contra o aquecimento global ao limitar a capacidade das florestas amazônicas de capturar e armazenar carbono, mas também há uma implicação maior de fontes de alimentos contaminantes, especialmente para as comunidades indígenas e locais que dependem dos rios”, disse Kalamandeen em um comunicado.

Os autores gostariam de expandir esta pesquisa no Brasil ou no Peru e fazer um monitoramento de longo prazo para entender melhor a verdadeira extensão dos danos ecológicos, bem como o que isso poderia significar para o clima. Os “sumidouros naturais” de carbono como a Amazônia são um recurso inestimável nos esforços globais para retirar o carbono de nossa atmosfera e evitar um maior aquecimento global. Entretanto, a floresta precisa de sua própria proteção contra o desmatamento para a agricultura, mineração e outras atividades extrativistas. Caso contrário, não restarão árvores para absorver nosso excesso de emissões de carbono, e aí somos nós que vamos sofrer.