O sistema de ar-condicionado no novo veículo Model X da Tesla vem com três modos: ar que circula do lado de fora do carro, ar que circula dentro do carro e “modo de defesa contra armas biológicas”, ativado por um botão no console do veículo. Isto cria pressão positiva dentro da cabine para evitar que partículas externas entrem no carro. E como esse modo funciona? Perguntamos a especialistas em armas biológicas o que eles acham sobre esse botão de pânico da Tesla.

O Coronel Randall Larsen, aposentado da Força Aérea Americana e agora diretor do Instituto do Departamento de Segurança Interna dos EUA, diz que há tempos ele quer comprar um Tesla. “Eu estou construindo uma casa nova, e instalei um carregador elétrico na garagem caso eu acabe por comprar um Tesla”, ele me disse. Mas quando eu disse a ele sobre o “modo de defesa contra armas biológicas”, ele riu e perguntou: “Quer dizer que Elon Musk está realmente divulgando isso?”.

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Ele está, sim.

Filtrando bactérias e vírus

Para ser considerado HEPA, o filtro deve remover do ar 99,97% de partículas de 0,3 micrômetros. Um filtro HEPA de 0,3 micrômetros é fino o suficiente para capturar bactérias como antraz, que podem ter de 1 a 1,2 micrômetros. Ele também captura a grande maioria das bactérias – inclusive a que causa peste bubônica – além da maior parte do pólen, poeira e esporos de fungos. Os filtros HEPA também têm modelos de 0,2 micrômetros, mas é difícil criar um filtro que capture partículas ainda menores – isso pode dificultar muito a passagem do ar.

“Caso você esteja preocupado com agentes bacterianos, como antraz ou peste bubônica, um bom sistema de filtros provavelmente lhe protegeria”, diz Larsen.

Mas os vírus são muito menores que bactérias, então é mais difícil filtrá-los. “Bem, 0,3 micrômetros não vão impedir vírus. Então, caso você acredite que todos os agentes bioterroristas são bactérias, você terá uma proteção a mais”, diz Michael J. Buchmeier, vice-diretor do Centro Regional do Pacífico Sudoeste para Biodefesa e Doenças Emergentes, da Universidade da Califórnia em Irvine.

A varíola, por exemplo, pode chegar de 200 a 300 nanômetros, o que significa que ela está nos limites dos padrões dos filtros HEPA — levando em consideração que você esteja dirigindo por dentro de uma nuvem repleta de partículas com varíola, por alguma razão — e isso significa que algumas partículas podem passar pelo filtro.

E o vírus influenza A, que causa gripe em diversos animais, tem de 8 a 120 nanômetros. Ou seja, ele pode passar pelo filtro de 0,2 micrômetros da HEPA sem muitos problemas. “É um jogo estatístico que jogamos”, diz Buchmeier. “Todo filtro como esse será eficiente até certo ponto, mas não necessariamente 100% eficiente.”

Quando Musk apresentou o Model X para o mundo esta semana, ele afirmou que o sistema HVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar-Condicionado) era 800 vezes melhor para filtrar vírus do que outros carros — e isso é provavelmente verdade. Muitos dos vírus são grandes o suficiente para serem capturados pelo filtro HEPA, mas pequenos o bastante para passar pelo sistema de filtro de ar de carros comuns, então o sistema HEPA de fato ajuda. O problema é que existem milhares de vírus por aí que não podem ser impedidos, incluindo alguns com potencial para armas biológicas.

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Pressão interna

A Tesla diz que esse “modo de defesa contra armas biológicas” também cria pressão positiva dentro da cabine para proteger os passageiros do carro. Isso evita que o ar externo entre na cabine do veículo — mas o ar extra necessário para fazer a pressurização positiva tem de vir de algum lugar.

A Tesla nos explica:

O botão de biodefesa é projetado para permitir que o ar limpo entre na cabine e para manter o ar contaminado fora. Quando ativado, ele faz o sistema entrar em modo completo de limpeza, puxando todo o ar HVAC através do filtro HEPA. A ventoinha vai para a velocidade máxima 11, puxando ar o bastante para pressurizar ligeiramente a cabine, evitando que outro ar entre no Model X.

“Isso não é insignificante, mas não resolve o problema por si só, porque você ainda precisaria ter algo para filtrar o ar”, diz Buchmeier.

Outro problema nisso é que, para ativar o modo de defesa, é preciso saber que um ataque biológico aconteceu nas suas proximidades — e os primeiros sinais de um ataque biológico podem surgir dias ou até semanas depois, quando as pessoas começaram a aparecer nos hospitais com sintomas, Larsen explica.

Diferente de bombas biológicas ou até ataques químicos, ataques biológicos costumam ser sutis e difíceis de detectar até ser tarde demais. “O principal problema com o ataque biológico é saber quando ele foi lançado”, ele diz. “Sabe, não é que como acontecesse uma grande explosão ou algo do tipo”.

Até os sintomas começarem a aparecer, pode ser um pouco tarde para apertar o botão. Buchmeier diz: “é um pouco difícil acreditar na ideia que você será avisado com antecedência para ativar o filtro e evitar ser exposto”.

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O efeito da poluição das cidades na expectativa de vida.

Respirando melhor

No final das contas, o “modo de defesa contra armas biológicas” é provavelmente um exagero. Caso você já esteja dentro do carro, não vai ser a pressurização positiva e os filtros HEPA que te manterão seguro, mesmo que um ataque biológico aconteça na sua região.

“Eu inicialmente pensei sobre isso logo depois dos ataques de 11 de setembro, quando buscávamos por soluções práticas para as pessoas, e uma delas era apertar um botão que a maioria dos carros tem, que o faz parar de puxar o ar de fora”, diz Larsen. “Eu acho que qualquer carro bom tem uma selagem adequada nas portas e janela e em todo o resto, e caso você ativasse o ar interno em modo de reciclagem, eu acho que isso providenciaria muita gente com uma série de proteções”.

Isso não chega nem perto do mesmo nível de proteção que os filtros HEPA oferecerem, é claro, mas a não ser que você esteja ao lado de uma arma biológica quando ela for lançada, ele não precisa ser.

Parte disso é porque o carro em movimento passa por muito ar, e isso ajuda a diluir a concentração de qualquer partícula viral que pode estar em volta do veículo. “Nossa proteção é a diluição. Pense em quanto ar passa pelo carro quando você está em uma autoestrada, e como pouco desse ar é inalado pelos ocupantes do carro”, diz Buchmeier.

Mas por outro lado, o sistema de ventilação da Tesla tem uma função que pode atrair possíveis compradores. Ele pode ajudar a filtrar alérgenos, como pólen de ambrosia e cedro; esporos de fungos, como os que causam a febre de São Joaquim; e outros causadores de irritação, como fumaça e poeira. Ele também filtra odores externos desagradáveis, como campos de gado e animais mortos em estado de putrefação pela estrada.

“Existe um monte de razões porque você iria preferir um filtro como esse, e apenas uma delas é devido ao bioterrorismo”, diz Buchmeier.

O Model X custa a partir de US$ 132.000.