Shen Yue trabalha como uma “motivadora de programador” em uma companhia de finanças para o consumidor na China. Como o nome sugere, o trabalho dela é inspirar programadores da sua empresa, o que envolve falar com eles, coordenar atividades sociais e até oferecer massagens, de acordo com uma reportagem do The New York Times.

Shen, 25, é formada em engenharia civil, mas a sua função na chainfin.com é manter a motivação alta e a boa aparência na recepção da companhia. “Eles realmente precisam de alguém para falar com eles de tempos em tempos e organizar as atividades para eles de modo a aliviar parte da pressão”, disse ela ao NYT.

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Zhang Jin, a executiva de RH que contratou Shen, disse que uma “motivadora de programador” deve ter certo atributos físicos, notando que as candidatas devem ter “cinco características faciais que devem estar em ordem”, saber como se maquiar e ser maior que 1,57 m. Zhang também disse que as as candidatas devem ter uma voz gentil e uma “risada contagiante”.

O NYT relata que, em um dia de trabalho recente, Shen foi até um programador que reclamava de dores de pulso após longas horas de trabalho e o colocou numa cama dobrável. “A intenção da companhia é que eu o massageie, embora minha técnica não seja ótima”, disse Shen ao funcionários antes de eles rirem. No fim das contas, ela massageou seus ombros.

Não se sabe quão difundida é essa profissão de “motivadora/motivador de programador” na China, mas o NYT nota que uma busca no Baidu mostrou que sete companhias ofereciam vagas para tal posição. Um novo relatório da ONG Human Rights Watch, que defende e realiza pesquisas sobre os direitos humanos, publicado nessa semana, revela que 19% dos anúncios da lista de emprego nacional continham vagas “apenas para homens”, “preferencialmente para homens” ou “apropriada para homens”.

Prática recorrente

O relatório também inclui exemplos de empresas de tecnologia grandes especificando atributos físicos para mulheres com o objetivo de atrair candidatos do sexo masculino. Em um anúncio de emprego de 2016 na conta de recrutamento do Baidu no WeChat, a empresa descreveu como atrativo suas “belas recepcionistas” e “fortes seguranças”, segundo a Human Rights Watch.

Enquanto isso, o Alibaba recentemente publicou um anúncio de emprego se gabando de suas “belas garotas” e “deusas” da companhia e também postou uma série de imagens de jovens funcionárias em sua conta de recrutamento nas mídias sociais, como uma forma de apontar supostos “benefícios noturnos”.

A Tencent incluiu um artigo com uma citação de um funcionário em sua conta de recrutamento no WeChat, dizendo que a razão por que ele aceitou a empresa foi “originada por impulsos primários. Foi principalmente por causa das lindas mulheres da área de recursos humanos que me entrevistaram”.

É importante notar que esta não é a primeira vez que mulheres são contratadas na China com o objetivo de animar programadores. Em 2015, o Trending in China noticiou a existência de “animadoras de torcida de programação”. A publicação caracterizou essas moças como sendo “lindas e talentosas que ajudam a criar um ambiente de trabalho divertido”. O trabalho delas incluía comprar café da manhã, conversar e jogar tênis de mesa com eles.”

Feng Zhiyi, 31, que trabalha na Chainfin (empresa citada no início do post), disse ao NYT que “ficou com inveja” depois de ver fotos online das “motivadoras de programadores” — no caso, elas estava abanando seus colegas. “E agora nós temos uma também”, disse Zhiyi.

Xu Jialong, uma programadora da empresa, disse que não tem nenhum problema com o trabalho de Shen e que solicitou à empresa a contratação de um motivador do sexo masculino. Seu colega Feng, no entanto, vê com pessimismo a noção de ter um “motivador”. “Um homem falando com outro homem é como estar num encontro com um cara”, disse ele. “É um pouco estranho, não?”.

É importante notar que Shen não vê o seu trabalho como degradante para as mulheres. “Muitas ideias feministas são muito extremas”, disse ela ao NYT. “Acho que as mulheres deveriam ser independentes, autoconfiantes e com dignidade. E isso é o suficiente.”

Não há nada de mal em contratar alguém para aumentar a motivação no trabalho. Mas se um trabalho discrimina mulheres por parecerem de certa forma, e isso é visto apenas como um “trabalho de mulher” e ainda inclui massagens, é difícil concluir que não existe uma profunda degradação nesta empresa.

[The New York Times]

Imagem do topo por AP