Nas últimas semanas, o número de casos de COVID-19 aumentou exponencialmente na Inglaterra, especialmente em Londres e na região sudeste do país. Um dos principais motivos citados por especialistas e pelo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, é uma nova mutação do coronavírus (SARS-CoV-2) que seria 70% mais transmissível.

No entanto, conforme apontado pela BBC, os estudos sobre essa nova cepa ainda estão em estágio inicial. Assim, não há um consenso sobre o aumento no número de infectados estar ligado realmente à maior capacidade do vírus de se espalhar ou ao comportamento da população que não tem seguido as regras de distanciamento social.

Essa não é a primeira vez que o vírus sofre alterações. Comparando as primeiras amostras colhidas em Wuhan e as atuais, há cerca de 25 mutações, indicando que o SARS-CoV-2 tem sofrido quase duas mutações por mês. A versão que tem se espalhado no Reino Unido, chamada B.1.1.7, causa maior preocupação devido à rapidez com que ela tem infectado novas vítimas.

Detectada pela primeira vez em setembro, a mutação do vírus já era responsável por quase um quarto dos casos em Londres, sendo que essa taxa aumentou para quase dois terços em dezembro. Países como Dinamarca e Austrália também identificaram casos com a mesma variante, e a suspeita é que eles sejam provenientes do Reino Unido. Na África do Sul, uma versão semelhante foi encontrada, mas não parece estar relacionada à da Inglaterra.

Atualmente, a forma globalmente dominante do vírus é a mutação D614G, que surgiu em fevereiro na Europa. Entre as 17 alterações importantes identificadas até o momento, uma das que gera maior preocupação é a mudança na proteína spike. Ela é considerada a “chave” que o vírus utiliza para entrar nas células do corpo. Por isso, qualquer mutação que facilite esse acesso às células é preocupante.

Outro ponto importante em relação ao vírus do Reino Unido é que ele conta com uma série de mutações. Embora ainda não haja uma explicação concreta sobre como essa variante surgiu, a suspeita mais forte é que o coronavírus infectou um paciente com sistema imunológico enfraquecido e, portanto, incapaz de combater o agente invasor. Assim, o corpo da vítima tornou-se um terreno fértil para que o vírus sofresse mutações.

Apesar de ele estar se espalhando mais rapidamente, ainda não há como saber se ele é mais mortal que outras versões do vírus. O problema é que o aumento descontrolado no número de casos pode sobrecarregar os hospitais, deixando muitas pessoas sem tratamento e resultando em mais mortes pela doença.

A boa notícia é que as principais vacinas disponíveis atualmente parecem funcionar com as mutações também. As candidatas da Pfizer, Moderna e Oxford, por exemplo, treinam o sistema imunológico para atacar a proteína spike. Jason McLellan, biólogo molecular da Universidade do Texas em Austin, afirmou em uma entrevista ao Gizmodo que “uma única mutação provavelmente não afetaria tanto uma vacina, porque a vacina está gerando o que é chamado de resposta policlonal, o que significa muitos anticorpos diferentes direcionados a partes diferentes da proteína spike. No geral, pode ser difícil para uma cepa viral escapar de tantos anticorpos diferentes que têm como alvo a spike com apenas uma única mutação”.

Os especialistas alertam, no entanto, que o vírus ainda pode tornar-se resistente às vacinas caso sofra muitas mutações em um curto espaço de tempo. A ideia é que as vacinas desacelerem a disseminação do vírus, dificultando o processo de mutação. Soumya Swaminathan, cientista-chefe da Organização Mundial da Saúde (OMS), afirmou em uma coletiva de imprensa na segunda-feira que o SARS-CoV-2 está sofrendo mutação a um ritmo muito mais lento do que o vírus da gripe. Ainda de acordo com ele, “embora tenhamos visto uma série de mudanças e várias mutações, nenhuma teve um impacto significativo na suscetibilidade do vírus a qualquer um dos tratamentos usados atualmente, medicamentos ou vacinas em desenvolvimento, e espera-se que continue assim”.

Caso as vacinas acabem impulsionando novas mutações do vírus, que terá que se adaptar para infectar as pessoas imunizadas, será necessário atualizar as vacinas regularmente, da mesma forma que ocorre atualmente com a gripe sazonal. Por enquanto, acredita-se que as vacinas serão eficazes por mais de um ano.

Boris Johnson anunciou no domingo (20) medidas mais rigorosas em Londres e regiões próximas para tentar conter o avanço do vírus. Após seu pronunciamento, alguns países europeus, como Itália, Bélgica e Holanda, suspenderam os voos provenientes do Reino Unido, enquanto outros países avaliam fazer o mesmo.

[BBC]