Da próxima vez que você reclamar de ter que vestir uma camisa limpa para fazer uma videochamada, lembre-se que alguns trabalhadores em home office estão enfrentando alguns desafios maiores. Sem o acesso aos computadores poderosos na NASA, o time responsável por pilotar remotamente a rover Curiosity em Marte precisou voltar a usar a tecnologia 3D que já tem quase 100 anos de idade.

Para navegar a rover Curiosity com segurança na superfície de Marte, que está a mais de 190 milhões de quilômetros de distância, os engenheiros do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA em Pasadena, Califórnia, utilizam as imagens 3D do terreno circundante captadas pelas câmeras da sonda que são transmitidas à Terra.

Utilizando computadores com potentes GPUs, os cientistas da JPL utilizam óculos especiais com obturadores eletrônicos cintilantes que permitem explorar as imagens da superfície de Marte e do seu terreno único em 3D realista. Isso facilita o planejamento dos movimentos e missões do rover para reduzir o risco de ficar preso, e melhora a precisão para apontar o braço robótico e os equipamentos da sonda.

Quando o estado da Califórnia emitiu as suas ordens de quarentena, tal como outros serviços não essenciais no estado, os engenheiros e cientistas da JPL tiveram de pegar os seus laptops e passar a trabalhar de casa. O problema é que esses laptops não possuem o poder gráfico e de processamento dos desktops que o pessoal da NASA precisou deixar para trás – e o acesso remoto a essas máquinas não era uma opção viável.

A quarentena também significava que já não tinham acesso aos óculos 3D especiais, mas a NASA tem uma longa história de engenhosidade. A equipe de pilotagem do JPL Curiosity recorreu a uma tecnologia antiquada que ajudou a lotar os cinemas no final dos anos 1950.

Pelos padrões 3D atuais, o efeito criado pelos óculos de acetato vermelho e azul é primitivo, mas por mais grosseiros que pareçam agora, é essencialmente a mesma tecnologia 3D anaglífica que é utilizada pelos óculos 3D sofisticados com obturadores eletrônicos. Cada olho vê uma versão ligeiramente deslocada da mesma imagem, que o cérebro interpreta como uma imagem tridimensional.

Os resultados podem não ser tão imersivos (ou confortáveis) como aquele experimentado ao usar um headset de realidade virtual, mas o efeito é suficientemente convincente para que a NASA consiga planejar e executar missões da Curiosity enquanto seus funcionários estão em quarentena.

Dois dias após a transferência da equipe da Curiosity para o home office, o rover realizou com sucesso a primeira missão que tinha sido planejada fora das instalações do JPL, perfurando uma amostra de rocha num local em Marte conhecido como “Edimburgo”.

O trabalho à distância acrescenta complicações adicionais ao planejamento das missões da Curiosity, e a equipe do JPL estima que lidar com videoconferências e apps de mensagens acrescenta algumas horas no processo, o que limita quantos comandos podem ser enviados diariamente para a sonda. Mas a missão tem sido capaz de continuar e, segundo a NASA, “a Curiosity é tão produtiva cientificamente como sempre foi.”