Uma revista americana de ficção científica dos anos 1950 inspirou uma das capas mais marcantes da música pop. Em 1977, a banda inglesa Queen quis algo diferente depois dos brasões clássicos em fundos branco (A Night at the Opera, de 1975) e preto (A Day at the Races, de 1976) dos álbuns de sucesso anteriores. E a inspiração para a arte de News of the World foi encontrada na edição de outubro de 1953 da publicação sci-fi Astounding Science Fiction, com uma ilustração feita por Frank Kelly Freas.

O desenho de Freas trazia um robô gigante segurando um ser humano morto em uma mão e pedindo na legenda: “Por favor… conserta isso, papai?”. Foi baseado no conto “The Gulf Between”, de Tom Godwin, incluído naquela edição.

Imagem: Reprodução/Kelly Freas

Curiosamente, a ideia de usar essa imagem para o novo álbum não foi do guitarrista Brian May, um nerd formado em Astronomia. 

Quem trouxe a revista para a avaliação dos colegas do Queen foi o baterista Roger Taylor, um fanático por sci-fi – tanto que a capa de seu primeiro álbum solo (Fun in Space, de 1981) seguia o estilo de gibis do gênero.

O grupo britânico não quis apenas reproduzir a ilustração original. Entrou em contato com o americano Freas e pediu que ele adaptasse sua arte de 1953 e fizesse uma nova para a capa do LP. O artista aceitou sem nunca ter ouvido uma única nota tocada e cantada pelo Queen.

Os tempos áureos do vinil eram uma festa para ilustradores. Apesar de ter apenas um disco dentro, a capa de News of the World podia ser aberta para mostrar que a arte “continuava” na contracapa.

Usando toda essa área como tela, Freas reproduziu seu robô gigante de 1953, mas sem o ser humano morto. No lugar dessa vítima, entraram na capa frontal Brian May e o vocalista Freddie Mercury sangrando sem vida na mão do robô. Igualmente sem vida, o baixista John Deacon despencava no ar. 

Roger Taylor, o pai da ideia, aparecia apenas na parte da contracapa, também um cadáver em queda livre. Menos notória, há outra ilustração de Freas na capa dupla interna, com o meigo robô gigante indo em direção ao público de um show do Queen que foge em desespero.

O engraçado é que Freas, então com 55 anos e apreciador de música clássica, só foi se dignar a ouvir os discos que o Queen havia lhe mandado depois de fazer esses desenhos.  

“Quando eles me enviaram seus primeiros quatro álbuns, decidi desenhar antes de ouvir porque achava que iria odiar e isso estragaria minhas ideias”, disse Freas em 1977, segundo o livro Queen: Complete Works (2008), de Georg Purvis. 

O artista dos pincéis se surpreendeu positivamente quando ouviu. “Eles têm uma base firme na música clássica e são inventivos. É como se esses caras tenham absorvido toda música de qualidade que puderam e depois colocaram tudo num balde e misturaram”.

Com a dobradinha de abertura que trazia os futuros clássicos “We Will Rock You”/”We Are the Champions”, News of the World foi mais um grande sucesso do Queen. E isso ajudou a aumentar o impacto da capa, capaz de marcar alguém pela vida inteira.

Seth MacFarlane, criador do seriado animado The Family Guy (Uma Família da Pesada), explorou o medo que tinha dessa capa na infância no no episódio “Killer Queen” em 2012, no qual o bebê maquiavélico Stewie Griffin se apavora toda vez que vê a imagem do robô mortal. MacFarlane confessou seu temor infantil para um fã num tweet da época (hoje indisponível).

O decano da arte sci-fi

Mas Frank Kelly Freas não fez só um trabalhinho para o Queen. Naquele ponto de sua carreira, já era considerado por seus pares como “O Decano dos Artistas de Ficção Científica” e colecionava dez prêmios Hugo (o “Oscar do sci-fi”) em sua categoria. 

Nascido em 1922 em Hornell, Nova York, Frank passou a juventude trabalhando em outros empregos de desenhista, mas cultivando a vontade de trabalhar na área da ficção científica. Conseguiu sua chance de estreia nesse gênero em 1950, ilustrando a capa da revista de fantasia Weird Tales. Repetiu a dose um ano depois e, daí em diante, passou a ser requisitado pelas principais editoras de revistas e livros de sci-fi.

É bom observar que Freas tinha um senso de humor peculiar que manifestava em muitas de suas obras – até o desenho do robô gigante tem algo cômico, ou talvez tragicômico. 

Isso talvez explique como ele trabalhou para a revista satírica MAD entre 1957 e 1962, época áurea da publicação, retratando com seu traço o personagem Alfred E. Neuman em várias capas.

Com esse humor torto, vários trabalhos de Freas poderiam ter sido usados por mais bandas de rock além do Queen. Aqui vão alguns exemplos.

Freas reuniu suas ilustrações em dois livros. Frank Kelly Freas: The Art of Science Fiction, de 1977, está fora de catálogo há tempos e hoje só é possível adquirir exemplares usados. Já Frank Kelly Freas: As Others See It saiu em 2000 e ainda está disponível nos EUA, com preço de cerca de US$ 100 – a importação para o Brasil custa mais de R$ 700.

O desenhista morreu em janeiro de 2005 aos 82 anos em West Hills, na Grande Los Angeles, Califórnia.