O músico e compositor Brian Wilson, fundador e hoje ex-membro da banda americana de rock The Beach Boys, completa 80 anos neste 20 de junho.

Um dos poucos gênios musicais do pop digno desse título, ele afundou em profundos problemas psiquiátricos e drogas, e viveu como recluso por alguns anos na década de 1970. Naquela época, poucos apostavam que Brian chegaria aos 40 de idade –quanto mais aos 80.

De certa forma, Brian é um desafio à ciência em sua longevidade, tanto quanto os celebrados Keith Richards, dos Rolling Stones, ou Iggy Pop, responsáveis por tantas barbaridades com seus corpos na juventude e na vida adulta que surpreende que ainda estejam por aqui. 

A diferença do beach boy para esses dois citados é nunca ter sido associado ao comportamento de excessos e vida desregrada (o manjado “sexo, drogas & rock’n’roll”). Brian sempre teve uma imagem mais comportada e abusou de LSD e maconha em seu próprio lar.

Porém, música é o assunto a tratar sobre Brian. Ele começou a explorar o piano na sala de estar da família com apenas seis anos. O instrumento era o refúgio para o terror doméstico promovido pelo pai Murray, um frustrado compositor de valsinhas e um déspota que adorava dar porrada. Em casa.

Todo mundo apanhava –a mulher e os três filhos, Brian e os mais novos Dennis e Carl. Brian era o mais castigado. E, além dos danos psicológicos para uma vida toda, especula-se que um tapão de Murray deixou o menino surdo de um ouvido. Por isso, quando em estúdio, Brian fazia todas as mixagens em mono em vez de estéreo, para poder ouvir tudo no ouvido são. 

Na adolescência, Brian se encantou com rock’n’roll e grupos especializados em harmonizações vocais. E, em 1961, a cultura do surfe na Califórnia levou-o a assumir o contrabaixo e formar uma banda com os dois irmãos, o primo Mike Love e o amigo Al Jardine, batizada de The Beach Boys. 

Com composições de Brian (muitas vezes com alguém escrevendo a letra) cantadas por todos os membros, o quinteto celebrava surfe, praias, carrões e garotas em rocks alegres muito inspirados musicalmente no pioneiro do rock Chuck Berry. Mas, desde os primeiros álbuns, o Wilson mais talentoso já incluía faixas com melodias mais instigantes e harmonias diferentes.

Em 1964, os Beach Boys eram o conjunto pop americano de maior sucesso. E o único que ainda conseguia fazer frente aos Beatles, Rolling Stones e muitas outras bandas inglesas nas paradas americanas. 

Brian encarou desde sempre os Beatles como seus grandes rivais criativos. E os ingleses, especialmente Paul McCartney, o beatle com o ouvido mais aguçado para melodia e harmonia, também via Brian como um igual numa disputa positiva.

É gozado notar que as vidas de Brian e Paul são bastante interligadas. O beach boy nasceu apenas dois dias depois que o beatle (falamos dos 80 anos de McCartney no dia 18). E, em meados dos anos 1960, um estimulou o outro a se superar. 

No final de 1965, os Beatles lançaram Rubber Soul, um álbum em que a banda começava a explorar novos sons e ritmos. Brian ouviu atentamente e se motivou a fazer algo ainda mais ousado. 

Naquele momento, Brian apenas compunha e gravava (parou de fazer shows com os Beach Boys depois de um severo ataque de pânico dentro de um avião em 1964) e tinha tempo para ir mais fundo em seu talento e transformar em música tudo que ouvia em sua cabeça.

Com a ajuda do publicitário e amigo Tony Asher escrevendo as letras (ou melhor, traduzindo em versos as emoções e anseios que Brian manifestava em suas conversas), Wilson criou com músicos profissionais todo o álbum Pet Sounds enquanto os outros Beach Boys faziam turnês. Quando eles chegaram ao estúdio, foi apenas para colocar vocais.

Lançado em maio de 1966, Pet Sounds é uma obra-prima. Melodias delicadas, letras sensíveis e instrumentos de orquestra usados com bom gosto de um jeito até então inédito no universo do rock-pop.

Os Beatles ouviram. A ponto de McCartney, anos depois, afirmar que “God Only Knows”, de Pet Sounds, era a canção mais perfeita que já tinha ouvido. Mas, em 1966, a turma de Liverpool ergueu a barra com o LP Revolver, que foi às lojas em agosto. Com loucuras de gravação como guitarras ao contrário e composições cada vez mais impecáveis, o álbum dos ingleses foi encarado como desafio por Brian.

Ele planejou fazer o maior álbum de todos os tempos, que iria se chamar Smile. Antes, no fim de 1966, soltou a música Good Vibrations, cheias de variações de andamento e instrumentações variadas (que também foi encarada como desafio pelos Beatles).    

De tão intrincadas, as gravações de Smile se arrastaram muito além do previsto. Demoraram tanto que os Beatles apareceram antes com Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, em junho de 1967. Na época, foi o álbum mais revolucionário do pop.

Brian ouviu. E desabou. A disputa tinha acabado. Exagerando no LSD, ele pirou e considerou que jamais superaria o que os Beatles fizeram.

Quis botar fogo nas fitas de Smile. Começou a ficar paranóico e pensar que o produtor americano Phil Spector tinha um plano para matá-lo (Spector morreu na cadeia por assassinato, mas não o de Brian Wilson…). Refugiou-se em seu quarto e quase nunca queria ver alguém –nos anos 1970, deixou Paul McCartney plantado na sala por horas enquanto sofria uma crise depressiva na cama. Passou a colaborar cada vez menos com os Beach Boys, às vezes com apenas uma faixa por álbum. Inchou e deixou a barba crescer, lembrando mais um urso que o rapaz apenas rechonchudo nos anos 1960. 

Brian nunca mais apresentaria o mesmo gênio musical. Voltou à vida pública aos poucos. Às turnês e gravações com os Beach Boys em 1976. Nos anos 1980, abandonou o grupo e fez um longo tratamento com o maquiavélico psiquiatra Eugene Landy. 

O doutor manipulou o músico em seu próprio benefício por anos, chegando a assinar as letras de várias músicas e capitalizando bastante sobre como tinha levado Wilson à “recuperação”. Isso durou até Landy ser interditado judicialmente pelas filhas de Brian e por outros Beach Boys.

Livre de Landy, Brian prosseguiu evoluindo na vida e na carreira solo, conseguindo ocasionalmente criar uma joia como “Love and Mercy”, canção de seu “álbum de estreia” Brian WIlson, de 1988. 

Seus irmãos mais novos morreram antes dele. Dennis aos 39 em 1983, drogado e alcoólatra irrecuperável que se afogou num mergulho no Oceano Pacífico. Carl aos 51 em 1998, de câncer no pulmão. Brian segue por aqui.

Ele atingiu um ponto bastante funcional para quem era considerado caso perdido décadas atrás. Segue uma pessoa em que a doçura e a sensibilidade imperam. Às vezes, parece “reprogramado” para conviver com o mundo. 

Observei em seu show em São Paulo, em 2004, que entre uma música e outra, ele baixava as mãos do piano para suas pernas e balbuciava “thank you” quase mecanicamente. Seus movimentos voltavam a parecer espontâneos apenas quando outra música começava.

Isso leva às palavras de seu antigo letrista Tony Asher ao jornalista inglês Nick Kent (num texto brilhante sobre Brian incluído no livro The Dark Stuff, publicado por Kent em 1994).

Disse Asher: “Isso é o Brian. Um gênio da música, mas um ser humano amador”.

 

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