Por: Nicole Westman

A Rússia foi proibida de competir nas Olimpíadas de Inverno em Pyeongchang, uma punição radical para o programa descarado de doping financiado pelo estado, exposto em 2016. Mesmo com o escrutínio extra sobre os atletas em 2018, a porcentagem daqueles que utilizam substâncias proibidas em Pyeongchang provavelmente é menor do que as taxas encontradas na Rio 2016 e menor do que teremos em Tóquio 2020.



O doping – por toda a história das Olimpíadas – tende a acontecer mais nos Jogos de Verão do que nos Jogos de Inverno.

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Com base nos números de jogos entre 1968 e 2014, as Olimpíadas de Verão possuem quase o dobro da porcentagem de casos de doping reportados se comparado com as Olimpíadas de Inverno. No geral, 0,44% dos testes de doping das Olimpíadas de Verão dão positivo, e, nas Olimpíadas de Inverno, essa taxa cai para 0,28% – em números absolutos, são 144 casos em 26.900 dos testes de doping no verão e 22 dos 7.783 dos testes no inverno.

Essa diferença não é surpreendente para os especialistas em doping. Embora não exista uma pesquisa acadêmica formal sobre esse tópico, é fácil dizer as razões que podem explicar o fenômeno, afirma Thomas Hunt, autor do livro Drug Games: The International Olympic Committee and the Politics of Doping (Jogo das Drogas: O Comitê Olímpico Internacional e as Políticas do Doping, em tradução livre).

A principal razão, especula Hunt, é que muitos dos fatores que levam os atletas a tomar drogas que melhoram o desempenho têm maior influência durante os Jogos de Verão.

“A primeira coisa que vem à mente”, diz Hunt, “é que as apostas econômicas são diferentes. Existem mais esportes de verão que fazem muito dinheiro, potencialmente, para os atletas, comparado com os Jogos de Inverno“. É mais fácil arranjar patrocínio para esportes mais populares, e existem mais deles no verão do que no inverno (pense em atletismo, ginástica ou natação) – mas os atletas precisam ter um bom desempenho para conseguirem um acordo.

As apostas de audiência também são diferentes – mais pessoas assistem aos Jogos de Verão do que aos Jogos de Inverno. “Os Jogos de Verão são vistos com mais prestígio”, diz ele. De acordo com o Comitê Olímpico Internacional, 3,5 bilhões de pessoas ao redor do mundo sintonizaram para assistir aos Jogos Olímpicos do Rio em 2016, comparada com uma audiência de 2,1 bilhões nos Jogos de Inverno de Sochi, em 2014.

Mais países são representados durante o verão – 89 países enviaram atletas para Sochi, enquanto 205 enviaram para o Rio –, o que torna os Jogos de Verão ainda mais globais. Nos Estados Unidos, pelo menos, as estrelas de inverno não chamam tanta atenção e não possuem o mesmo reconhecimento.

Por essas razões, diz Jörg Krieger, que estuda a história do doping na Universidade Alemã de Esportes, os atletas talvez sofram mais pressão externa para terem boas performances nos Jogos de Verão. “De governos, patrocinadores, mídia, público, quem quer que seja.” Essas pressões, ele diz, são algumas das razões pelas quais os atletas tendem a se dopar.

Apesar do perfil menor dos Jogos de Inverno, Krieger não acredita que não exista menos escrutínio aos atletas, pelo menos da parte do Comitê Olímpico Internacional, ou que seja mais fácil se dopar e sair livre. “Eu argumentaria que é o contrário. Existem menos atletas competindo nos Jogos de Inverno, o que significa que há uma maior porcentagem de chances de serem testados”, diz. Nem todos os competidores são testados – todos aqueles que ganham medalhas são, e, durante os jogos, as agências de doping podem selecionar aleatoriamente um atleta e testá-lo a qualquer momento.

Mais atletas jogam esportes de verão do que de inverno, o que também serve para aumentar a concorrência – para entrar em um time Olímpico e para obter sucesso posteriormente. “Pense em quantos atletas fazem atletismo e quantos fazem ski cross country”, diz Hunt. Nos Jogos de Verão, os atletas possuem uma chance maior de não ganhar. E evitar a derrota, diz Krieger, é outra grande razão para os atletas se doparem.

Os tipos de esportes incluídos nos Jogos de Inverno também podem contribuir com a discrepância, diz Krieger, uma vez que existem mais esportes de verão onde o doping com drogas comuns, como esteroides, podem aumentar o desempenho. O levantamento de peso e o atletismo, ambos esportes de verão, foram os dois principais eventos olímpicos com mais relatos de doping, com 36 e 28 casos, respectivamente, entre 1968 e 2010.

Hunt, no entanto, não tem certeza se esse é um fator contribuinte. “Eu acho que nos Jogos de Inverno, você pode se beneficiar igualmente a partir das drogas. Quem faz ski cross country, por exemplo, pode procurar aumentar a resistência ao utilizar eritropoietina, uma droga que aumenta o número de glóbulos vermelhos no sangue. O esporte é o terceiro colocado no ranking de doping de eventos Olímpicos, com 12 casos entre 1968 e 2010.”

Um dos problemas com toda essa especulação a respeito das tendências no doping, no entanto, é que as informações são baseadas em números de casos relatados. E esses números chegam até nós com uma ressalva enorme: eles provavelmente são muito, muito baixos. A contagem de doping das Olimpíadas é feita apenas com aqueles que foram pegos – e muitos deles não são pegos. “Os números não nos contam tudo, essa é uma certeza”, diz Krieger.

Krieger pensa, no entanto, que a diferença entre os atletas dopados nos Jogos de Verão e Inverno continua verdadeira. “Mesmo se pegarmos todos, acredito que os Jogos de Verão terão números maiores”, afirma.

Nicole Wetsman é repórter de saúde e ciência baseada em Nova York. Ela está no Twitter como @NicoleWetsman.

Imagem do topo: Getty