Neste fim de semana, o surto de coronavírus atingiu oficialmente mais de 100 países, chegando a todos os continentes exceto a Antártida. A China não é mais a única região com um grande número de casos, com grandes epidemias afetando a Coreia do Sul, Irã e Itália. Outros países, como os EUA, estão quase certamente lidando com um grande número de casos ocultos.

No entanto, embora a Organização Mundial da Saúde continue alertando que o mundo corre um risco muito alto por causa do COVID-19, sua recusa em afirmar o óbvio tornou-se desconcertante. Não estamos mais à beira de uma pandemia — estamos no meio de uma.

No final de fevereiro, a OMS fez questão de evitar o termo “pandemia” quando os primeiros grupos de casos locais foram relatados na Coreia do Sul, Irã e Itália. Na época, o diretor geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou que sua justificativa para não declarar uma pandemia era que eles “não estavam vendo disseminação global sem controle desse coronavírus”.

Desde então, esses três países estão prestes a passar a marca dos 10 mil casos relatados dentro de suas fronteiras, e mais de um quarto dos quase 112 mil casos confirmados em 9 de março já foram registrados fora da China.

Mesmo esses números provavelmente estão subestimados, pois casos mais leves não entram no radar das autoridades e a resposta de saúde pública é lamentavelmente inadequada de muitos países, incluindo os EUA.

Embora os EUA tenham relatado pouco mais de 500 casos até agora, grande parte do país continua sem capacidade para testar muitas pessoas suspeitas de ter o coronavírus ou mesmo de fazer uma triagem em massa, como fizeram países como a Coreia do Sul.

Durante uma coletiva de imprensa realizada na segunda-feira, Tedros ainda evitou declarar o surto uma pandemia, chegando a afirmar que “a ameaça de uma pandemia se tornou muito real”. Em vez disso, ele chamou de “epidemia desigual no nível global”, argumentando que ainda era possível alterar substancialmente a trajetória do surto através da contenção e mitigação.

É verdade que alguns países como Cingapura parecem capazes de impedir que o surto se espalhe para longe, enquanto a China e a Coreia do Sul começaram a ver seus novos casos diários caírem, dando esperança de que seus surtos estejam mais perto do fim do que jamais estiveram.

Mas muitos países estão prontos para ver um salto acentuado nos casos relatados. Enquanto isso, outros países, como a Turquia, continuam negando que o coronavírus chegou até eles — uma alegação ridícula, considerando que seu território está imprensado entre o Irã e meia dúzia de países onde casos foram relatados.

A relutância da Turquia em reconhecer o vírus indica uma possível justificativa para a OMS ainda não declarar uma pandemia: o medo de um pânico econômico e público. Mas o leite já foi derramado. O mercado de ações pode enfrentar um dos seus piores dias em décadas até o fim do dia, e alguns especialistas já preveem uma recessão global alimentada pelo coronavírus.

Quanto mais as organizações de saúde pública, como a OMS, não reconhecerem a realidade do que está acontecendo, mais difícil será convencer os governos e as pessoas ao redor do mundo a fazer o necessário para superar essa pandemia com danos ao mínimo de vidas possível.

A Coreia do Sul, por exemplo, registrou uma das mais baixas taxas de mortalidade do COVID-19 (cerca de 0,5% dos casos) até agora, enquanto a taxa média de mortalidade em todo o mundo gira em torno de 3%.

Essa discrepância se deve, pelo menos parcialmente, ao fato de que a Coreia do Sul conseguiu testar muito mais da sua população, encontrando casos mais brandos do que outros países. Mas o sistema universal e forte de assistência médica do país também significa que seus habitantes doentes provavelmente estão recebendo melhores cuidados mais cedo. Os países sem esses benefícios ou que não estão preparados o suficiente para lidar com o surto certamente verão mais pessoas morrendo.

Na segunda-feira (9), a CNN e o Los Angeles Times anunciaram que começariam a se referir a esse surto como uma pandemia, uma decisão com a qual concordo plenamente. É hora da OMS fazer isso também.

O Gizmodo entrou em contato com a Organização Mundial de Saúde para que ela comentasse sua decisão, mas ainda não recebeu resposta.